Mueda foi a capital do pesadelo português

“Eu li CAPITAL MUEDA há décadas.
Para esta edição redigi um prefácio.”
René Pélissier

Igreja de Nangololo
Foto 28 – Panorâmica do aquartelamento de Nangololo, no Planalto dos Macondes

En tant qu’historien et bibliographe de l’antigo Ultramar, j’ai lu au minimum trois centaines de livres lusographes sur les combats des Portugais pour s’emparer de leurs colonies en Afrique continentale et les conserver. Cela devrait suffire à invalider définitivement le «roman historique» que les élites métropolitaines avaient construit  pour montrer contre toute vrai semblance que leur colonisation était «unique» car elle avait résisté depuis «cinq siècles», avec l’assentiment des colonisés eux-mêmes.

Parmi ce corpus de plaidoyers et des mémoires, cette para-littérature de guerre récent portant sur le Nord-Mozambique entre 1964-1974 occupe quantativement une place privilégiée. Qualitativement, c’est une autre affaire, mais les historiens n’existent pas pour donner des satisfecit à tel ou tel auteur, ce qui ne les empêche pas de dire en quoi tel ou tel livre est important, malgré l’insignifiance de son sujet.

Capital Mueda est de ceux-là, car il s’agit bien d’un simple reportage de la fin de l’ère coloniale sur une petite opération – la réouverture de la picada (pas même 30km) reliant Mueda au poste de Nangololo – il faudra 8 jours en février 1973 à un convoi d’une centaine de soldats pour franchir les mines, les embuscades et l’exubérance de la végétation. Bilan : 5 morts à aller !

Certes, c’était dans le secteur le plus difficile di Plateau des Macondes, ethnie belliqueuse et xénophobe qui n’avait été conquise (partiellement) qu’en 1917 et que, 50 ans plus tard, bénéficiait de l’appui du FRELIMO et de la proximité de la frontière. Ces 8 jours de progression dans le cauchemar portugais montrent l’inanité des thèses de certains officiers supérieurs qui soutenaient – et soutiennent encore parfois – qu’ils avaient la situation bien en main au Cabo Delgado. Oui, il n’y avait pas de zones complètement interdites aux colonnes, mais s’il fallait perdre 5 morts (plus les blessés) pour circuler sur moins de 30 km, au bout de 9-10 ans de troubles, pour faire croire à une métropole pauvre et sous-peuplée que la guerre était gagné, c’était se tromper soi-même.

Ce texte mériterait une traduction pour que tous les lecteurs potentiels s’en convainquent.

Prefácio (tradução)

Enquanto historiador e bibliógrafo do “Antigo Ultramar”, eu li pelo menos três centenas de livros de lusófonos sobre os combates dos Portugueses para desfrutar das suas colónias na África continental e mantê-las. Isto deveria ser o suficiente para invalidar definitivamente o «romance histórico» que as elites metropolitanas tinham construído para mostrar contra toda a verosimilhança que a sua colonização era “única” porque tinha resistido durante «cinco séculos», com o consentimento dos próprios colonizados.

Entre corpus de alegações e de memórias, esta recente para-literatura sobre o Norte de Moçambique entre 1964-1974 ocupa quantitativamente um lugar privilegiado. Qualitativamente, essa é outra questão, mas os historiadores não existem para dar satisfecit a este ou àquele autor, o que não os impede de dizer que este ou aquele livro é importante, mesmo que o assunto seja insignificante.

Capital Mueda é um deles, porque é de facto uma simples reportagem do fim da era colonial sobre uma pequena operação – a reabertura da picada (nem mesmo 30 kms) ligando Mueda ao posto de Nangololo – que vai durar oito dias em fevereiro de 1973, numa coluna com uma centena de soldados que vão desativar minas, sofrendo emboscadas, por entre uma vegetação exuberante. Resultado: uns 5 mortos só na ida!

Este foi certamente o setor mais difícil do Planalto dos Macondes, etnia propensa à guerra e xenófoba que tinha sido conquistada (em parte) em 1917 e, 50 anos mais tarde, beneficiou do apoio da FRELIMO e da proximidade da fronteira. Estes 8 dias de progressão no pesadelo português revelam a inanidade das teses de alguns oficiais superiores que apoiaram – e, por vezes, ainda apoiam – a ideia de que tinham a situação sob controlo em Cabo Delgado. Sim, não havia zonas completamente interditas às colunas, mas se fosse necessário sofrer 5 mortos (mais os feridos) para percorrer menos de 30 km, ao cabo de 9-10 anos de dificuldades, para fazer acreditar uma Metrópole, pobre e pouco povoada, de que a guerra estava ganha, isso era enganar-se a si próprios.

Este livro merece uma tradução para que todos os leitores potenciais se convençam disso.

René Pélissier   Orgeval (France), 17 de maio de 2017

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte Notícias da Guerra  

A guerra no tempo em que estes pivots não eram nascidos

As doenças contraídas pelas tropas portuguesas durante a Guerra Colonial podem ser divididas em três grupos: Infecciosas e parasitárias; Ortotraumatológicas; e Neuropsiquiátricas. Notícias da Guerra socorre-se aqui do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL (1ª edição em abril de 1995) no seu capítulo «As doenças na guerra» (páginas 45 a 64).

Nesta altura (2020) em que o país e o mundo sofrem efeitos do vírus “Covid-19”, em pandemia, e a imaginação dos apresentadores de telejornal não lhes permitiu melhor caraterização deste assunto que não seja o uso constante da palavra «guerra», cabem aqui algumas linhas sobre esse fenómeno histórico: as doenças colhidas e sofridas em África. Onde a palavra guerra teve a sua aplicação apropriada. Com o devido respeito pela terrível dimensão da presente virose e os seus nefastos resultados, nunca é demais evocar a Guerra Colonial onde gerações inteiras sofreram inúmeras doenças, entre 1960 e 1974. Foi um período muito mau, afetando, pesadamente, várias gerações, que os mais novos, hoje, quando pretendem classificar uma situação terrível – como a presente virose e os seus efeitos – utilizam esse termo de triste memória para os mais velhos: guerra.

O Paludismo (Malária, na sua designação médica) foi a doença mais frequente na vida dos militares na chamada «África Portuguesa» ao longo de todos aqueles anos. Qualquer um podia contrair a doença através da picada do mosquito e em qualquer altura da Comissão de Serviço. Há vários tipos de malária, conforme a área geográfica: África é quase exclusiva da malária ovale, mas também se pode ser atacado por malária falciparum. Esta tem um período de incubação de 1 a 3 semanas (média 12 dias). Uma e outra, na sua forma mais grave, podem conduzir à morte do paciente.

Curiosamente, Portugal tinha erradicado o paludismo nos Anos 50. Até essa altura, onde houvesse plantação de arroz e, principalmente, onde se registassem altas temperaturas, “rebentavam” aquilo a que o povo chamava «sezões», acessos de paludismo – que também se verificavam em pleno Alto Douro. Durante a Guerra em África, a malária podia ser tratada no mato, não obrigando necessariamente a uma evacuação para o hospital do sector. A quimioprofilaxia antimalária era, por regulamento, obrigatória. Quarenta e um graus de febre durante três a quatro dias, conduziam a uma recuperação muito lenta: 7 dias, na melhor hipótese. Dores de cabeça, náuseas, vómitos, calafrios e dores musculares eram os sintomas mais frequentes. Naquele tempo, o paludismo por Plasmodium foi responsável por elevado número de mortes por todo o continente africano e, na maioria dos casos, sempre que ocorria obstrução de vasos sanguíneos no cérebro. Numa fase posterior os médicos detetaram resistência à resoquina (cloroquina, princípio ativo dos comprimidos receitados, pelo menos, duas vezes por semana).

A malária e os exércitos têm uma história comum. Alexandre, o Grande foi morto aos 33 anos por esta doença. Napoleão disseminou, com êxito, mosquitos na Holanda e na Inglaterra. Em 1895, os franceses invadiram Madagascar registando apenas 13 baixas em combate mais 4.000 mortos por malária. Da Guerra Colonial que Portugal fez em África não são conhecidos dados de saúde credíveis nesta matéria. Nas colónias portuguesas havia zonas em que os combatentes dormiam vestidos, tentando proteger-se do mosquito, na melhor maneira possível, já que não estava prevista a distribuição de mosquiteiros. Desconhecem-se quaisquer «números oficiais» de vítimas portuguesas. Os medicamentos utilizados na altura não eram eficazes. No fim da década de 70, a OMS estimava que cerca de 200 milhões de pessoas estariam expostas à doença e, anualmente, cerca de 500 mil morriam – incluindo crianças com menos de cinco anos.

Da bisnaga antivenérea à febre “quebra ossos”

No primeiro patamar de doenças que atingiram os portugueses em África – militares e colonos – as sexualmente transmissíveis também se destacaram pela gravidade e dimensão. Para além da falta de educação sexual dos nossos jovens, vítimas de um ensino puritano e hipócrita nos costumes, a estrutura militar limitava-se a fornecer, se solicitada para tal, uma estranha «bisnaga antivenérea». Era uma pomada gorda sem qualquer grau de eficácia e de que os próprios médicos desconheciam a composição.

Já naquele tempo ocorriam situações de gonorreia que eram resistentes à penicilina. Não tratado, o “cavalo” (na gíria) provocava um rosário de complicações que podiam chegar à ablação dos órgãos genitais. No capítulo das doenças venéreas destaca-se, mais uma vez, a escassez, se não mesmo a ausência de dados oficiais. Para este estado não deixava de contribuir uma parte considerável de militares que escondiam as doenças. No regresso a casa, quem queria confessar: «Eu trago uma doença»?

A febre amarela, também provocada por um vírus transmitido por mosquito, originava doenças muito graves, por vezes mortais. Em Angola, para além das terríveis febres hemorrágicas, ficou na memória de muitos a «febre quebra ossos».

A Filária era transmitida por um insecto que introduzia no sangue um parasita. A Doença-do-Sono desenvolvida rapidamente pela picada da Mosca Tsé-Tsé, propagava-se no leste de Angola, no norte de Moçambique (Niassa) e em S. Tomé. Esta doença deixou, estranhamente, de ser controlada durante a guerra: a Tripanosomíase exprimia-se por febre alta, aumento dos gânglios e um grande cansaço. A fase avançada era o sono, a que se seguia a morte.

As águas não correntes e a dos poços eram o veículo mais importante das doenças gastrointestinais: toxi-infeções alimentares, amebíase intestinal (diarreia com sangue), abcessos no fígado, elefantíase e schistosomíase. E a onchocercose – a cegueira dos rios.

Claro que a tropa era vacinada antes da partida para África. Vacinados contra quê? Apenas, Febre Amarela, Cólera e Febre Tifóide. A longa lista que fica para trás e consta do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL ainda aborda as hepatites (A e B), tuberculose, meningite, VIH1, VIH2 e outras.

Foto 27 – Nas datas festivas da Igreja Católica, como a Páscoa e o Natal, as “excelsas senhoras” do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha, enquadradas por altas patentes do Exército, deslocavam-se aos hospitais militares de Lisboa e do Porto distribuindo “chocolatinhos e cigarritos para os nossos doentinhos”. Nesta foto, o figurante deitado na cama não é um enfermo.

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte Notícias da Guerra

Mais um dia de fake-news

Quarenta e cinco anos após o arriar da “bandeira das quinas” em Luanda, vale a pena refletir sobre alguns dados históricos na vasta matéria que é (ainda) a guerra que os portugueses fizeram em África na segunda metade do século 20.

Em 50 anos saltámos da Censura total para aquilo que uns designam hoje por “realidade ficcionada” – entre a recriação do que se passou / do que não se passou e a mentira rotunda. «Informação» com dados manipulados. Categóricos e perentórios, mas falsos.

Na década de 60, era mais fácil descobrir a ação do Lápis azul do que hoje detetar o trabalho das idóneas tecnologias eletrónicas. Mente-se e cria-se uma outra realidade. Os seus autores, de carne e osso, ou enquanto máquinas programadas, gozam de espantosa inimputabilidade.

As notícias falsas (fake news, em inglês), pequenas ou grandes, serão sempre… falsas. Esta indústria tem os seus especialistas que hoje já não se dedicam apenas a «notícias» mas invadem outros géneros jornalísticos – como a reportagem. Em 2019 foram denunciadas mais algumas, talvez as que registaram maior impacto, como foi o caso de um premiado jornalista da prestigiada revista alemã Der Spiegel.

(2) PELÉ
Capa da revista ilustrada O CRUZEIRO publicada no Rio de Janeiro (edição nº 25, de 23
de junho de 1971).

Este “repórter” deu, dir-se-ia, a volta ao mundo sem sair de casa. Criava cachas estrondosas – mas falsas. As fontes que Claas Relotius referia declararam nunca o ter visto ou falado ao telefone. Aos textos que produzia juntava fotografias que comprava, entre outros, ao New York Times. “Respeitadíssimo e muito admirado”, foi várias vezes contemplado «jornalista do ano» na Alemanha (Die Zeit, Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt, Der Spiegel). A inefável CNN atribuiu-lhe o seu troféu mais importante. Quando revelou que tudo o que escreveu era “inventado”, o diário castelhano EL PAÍS chamou-lhe “vigarista”.

«Unimog capota em Angola e faz uma baixa»

No período histórico da Guerra Colonial as fake news sobre as “províncias ultramarinas” eram editadas em Lisboa pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação – ou sucedâneos, como os «Centros de Informação e Turismo» montados em Angola e em Moçambique.

Na realidade (da Ditadura), se não havia guerra nenhuma, para quê notícias? As que, de quando em vez, viam a luz do dia – e não eram notícias falsas – apresentavam por sistema «meia dúzia de linhas» com nomes de alguns “falecimentos”. Contornar este quadro garantia sérios problemas.

Recordo aqui um camarada da mesma especialidade, mas pertencendo a uma mobilização anterior – portanto, mais velho, como se dizia – e que um dia entrou no meu Destacamento instalado dentro no Quartel General. Vinha apresentar-se pois tinha acabado de cumprir uma pena de prisão. Solicitava guia de marcha para a Metrópole. Porque estiveste preso? – perguntei. Resposta: De uma reportagem que fiz no mato enviei umas fotos para uns amigos no Brasil, que as fizeram chegar a uma famosa revista ilustrada. E eles publicaram… com o meu nome! Levei uma porrada que chegou agora ao fim. Quero ir para casa!

(1) spiegel
Claas Relotius no dia em que recebeu o troféu CNN como recompensa pela obra
publicada no Der Spiegel. Este semanário alemão, quando conseguiu desmascarar
(22.12.2018) a mais recente fraude jornalística da era das fake-news, escreveu na
capa: “Dizer, o que é. / Como um dos nossos repórteres falsificou as suas histórias, por
sua conta, e porque é que com elas se safou”.

Este foi um caso especial, é certo, mas enviar fotos, tão só, para as famílias esteve sempre debaixo de olho da PIDE/DGS, que também exercia funções nos postos do SPM – Serviço Postal Militar. Fotografias quase nunca chegavam ao destino.

Nas contas do prestigiado historiador francês René Pélissier, de 1974 até agora foram editados perto de 800 livros sobre a guerra colonial nos seus 13 anos de duração. A sua maioria é constituída por testemunhos pessoais, relatando ou comentando experiências que sofreram nas colunas, em emboscadas, da vida nas aldeias e nos aquartelamentos, ações de patrulhamento e outras. Mas também em ambientes de guerra aberta. De qualquer forma, o que ressalta sempre é a vontade de contar o que lhes aconteceu e, fatalmente, o que não lhes aconteceu. Viver sempre no meio do mato, permanentemente debaixo de fogo, são cenários que encheram e encheram e encheram aerogramas e cartas. Perguntei muitas vezes, a operacionais, se contavam a verdadeira guerra à família e aos amigos. Respondiam Não, com a cabeça.

«Ia eu na picada, e à minha frente saltam dois leões»

A distorção dos factos com a caneta era tanto mais «real» quanto maior fosse o grau de imaginação. O terror das balas do inimigo a rasar as orelhas ou a cortar o cabelo eram imagens obrigatórias nas missivas para a mãe, para a namorada ou para a esposa. Ficou famoso o caso daquele batalhão em Angola que, em meia comissão que cumpriu no Leste, sofreu 150 baixas! Após o 25 de Abril, o comandante dessa unidade desmentiu o número – que, afinal, se fixou em três mortos…

Em 2018, o Festival de Cinema de Cannes anunciou na sua «seleção oficial» de documentários um filme de animação baseado num livro escrito em Varsóvia sobre “acontecimentos” ocorridos em Angola no Verão de 1975. O seu autor era um espião que cumpria missões no chamado «mundo ocidental» sob a capa de «jornalista» ao serviço da agência de notícias polaca (PAP). O seu nome é Kapuscinski – e em finais de 1975 foi enviado a Luanda porque só ele possuía passaporte.

O livro «Mais um dia de vida», editado por ele próprio, foi traduzido para português vinte e um anos depois. Aí revela que os movimentos de libertação angolanos eram exércitos de guerrilha maltrapilhos, e que as ruas de capital estavam cheias de cadáveres. Instalou-se no Hotel Tivoli, em Luanda. Já nem cães havia nas ruas, onde os habitantes aconselhavam a matar todos os russos, húngaros e polacos (…) Por isso decidi ir para a linha da frente – concluiu.

(3) Largo da Mutamba
Foto 29 – Largo da Mutamba, em Luanda (1974).

De caneta e arma na mão – como referia a promoção do tal filme no cartaz de Lisboa – este agente polaco acabou por fugir do teatro de guerra onde, garante ele no seu livro, esteve um incontável número de vezes na iminência de ser fuzilado. Na despedida de Angola recebeu cumprimentos de figuras como Júlio de Almeida – o célebre Comandante Ju-Ju do MPLA – que lhe terá oferecido um livro de Basil Davidson, e do próprio Presidente Agostinho Neto, com quem conversou sobre poesia e a quem recitou poemas da “Sagrada Esperança” que ele sabia de cor.

É tudo mentira! – diz o Grande Repórter de Guerra português, Luís Alberto Ferreira, que foi o único jornalista a cobrir (para a RTP) todos os momentos históricos das batalhas em Angola com o exército da África do Sul, até à Declaração da Independência em Luanda. O polaco tinha encontrado a equipa da televisão portuguesa em Benguela, implorando que o salvassem dali para fora. Regressado à Europa, descreveu os jornalistas portugueses como mercenários, aliciados pelo “estatuto quanto mais filmassem mais dinheiro ganhariam…

                                                                                             Jorge Ribeiro

Testemunho de Luís Alberto Ferreira

O trabalhinho fraudatório de Ryszard Kapuscinski evidencia do próprio uma tocante ingenuidade. Alguns dos episódios por ele narrados em “Mais um dia de vida” constituem mentiras tão ridículas quão lastimosas. Um entre muitos exemplos: nos dias preambulares da proclamação da independência, “as ruas de Luanda cheias de cadáveres”. De bradar aos céus. Desde 8 de Novembro chovia torrencialmente na capital angolana. No aeroporto esmaecia, até, a agitação dos dias iniciais da “ponte aérea” para os retornados. E, em bairros tradicionais como a Vila Alice, a Vila Clotilde, as Ingombotas, a Maianga, as rotinas seguiam o seu curso normal. No hotel “Tivoli” não existia qualquer “dona Cartagena”, nome nunca escrito ou falado em Angola! A Rádio Nacional punha no ar, a cada passo, uma canção muito em voga, “Valódia”, exaltação magoada do comandante do mesmo nome, um homem das FAPLA-MPLA mortalmente baleado num recontro com o então chamado “Batalhão Chipenda”.

O “repórter” polaco, inteirado do que se supunha uma opção ideológica do MPLA de então, o “socialismo científico”, dava mostras de se sentir pouco à vontade nas suas diligências. Isso notou-se em Benguela, onde o conhecemos. Benguela, o “desastre” que torna “Mais um dia de vida” o eixo nevrálgico da enorme falácia que ajudou Kapuscinski a recolher prémios internacionais, a par da fama de inigualável “repórter”. Como se não bastassem os “repórteres de hotel”, denunciados em Portugal quando das invasões do Iraque e do Afeganistão, e muito antes, durante a Guerra Civil de Espanha, desmascarados por Hemingway. De facto, a praga dos “repórteres de hotel” é um fenómeno antigo…

(4) benguela
Foto 30 – Chegada à estação de comboios de Benguela (1975).

Em Agosto de 1975, na qualidade de enviados da RTP a Angola, estávamos em Benguela: eu próprio, jornalista, e os operadores de imagem Sebastião Fernandes e José Carvalho, e de som, João Barbosa. O comando da Frente-Centro das FAPLA, braço armado do MPLA, ali estava sediado. Jorge Morais, “Monti”, era o comandante. Eu e o comandante “Monti”, ambos nascidos em Luanda, conhecíamo-nos desde os tempos da escola primária. Daí a presteza com que a nossa equipa, a da RTP, obteve luz verde para uma incursão até à vila do Balombo, não longe de Benguela e palco de alguns recontros das FAPLA, que ocupavam a praça, com as forças da UNITA.

Hospedados em Benguela no hotel “Ombaca”, entretidos estávamos com o pequeno-almoço quando da nossa mesa se acercou um sujeito tímido, a expressar-se com dificuldade em português. Era Kapuscinski. Ele confessou-se “desamparado” e, pior, “receoso”, Benguela era favorável ao promissor MPLA da época e Kapuscinski admitia que as pessoas vissem nele um “espião”. Inteirado de que iríamos partir para o Balombo (com escolta chefiada pelo próprio “Monti”), rogou-me Kapuscinski que o admitíssemos na comitiva. “Monti”, ao vê-lo, interpelou-me: “Quem é esse tipo?”. As explicações que lhe dei não o convenceram de todo, mas “Monti” transigiu. Ele, o polaco, percebeu que a sua presença suscitava alguma “incomodidade”. Não havia visto “Monti” jamais. No entanto, no seu livro, Kapuscinski afirma ter estado, no dia anterior, “no gabinete de “Monti”. Descreve-o como sendo “um homem branco”, o que tão-pouco é verdade. Toda a narrativa da incursão no Balombo é um carrossel de mentiras e deturpações. Kapuscinski não trocou uma única palavra com Carlota Machado, sub-comandante das FAPLA, limitando-se a fotografá-la. O “repórter” Kapuscinski não esboçou sequer um passo na direcção de Pepetela, que comandava a base (no Balombo).

(5) civil-war
«A guerra civil rebentou em 1974» / «Luanda devastada pela guerra civil» – título e
legenda de foto em WebSite oficial da África do Sul.

Kapuscinski mente, em absoluto, ao sugerir que os operadores de imagem e som da RTP haviam resistido e recusado a ida àquela frente, sob a alegação de que todos tinham mulher e filhos e planeavam a “compra de casas para os fins-de-semana em Cascais”. Também a viagem para o Balombo e a morte de Carlota, numa escaramuça com a UNITA, duas horas, ou menos, após o nosso regresso a Benguela, são objecto de falsidades e deturpações que repugnam. Acontece que Carlota viajou para o Balombo, com outros combatentes, num jipe, enquanto nós e o polaco o fizemos a bordo de um automóvel conduzido pelo comandante “Monti”. O polaco guardou gélido silêncio ao longo da deslocação. Grosseira invenção, a cena do “convite” de Fernandes: “Carlota, venha aqui para o banco de trás sentar-se sobre os nossos joelhos!”. Carlota não estava sequer a bordo do automóvel, nem “Monti” estava para brincadeiras. Os momentos que se viviam eram de grande tensão, Carlota disse à RTP que a independência de Angola lhe permitiria, na qualidade de enfermeira, e prestes a casar-se, ser útil deveras ao seu país. Nenhum elemento da RTP iria, pois, sugerir-lhe “venha connosco para Lisboa!”. O infortúnio ético do “repórter” Kapuscinski agudiza-se, de forma quase exasperante, no relato que ele faz das circunstâncias em que, de novo em Benguela, soubemos da trágica morte da sub-comandante Carlota Machado. A jovem não morreu em combate, foi vítima de uma cambalhota do jipe que ela conduzia quando se iniciou a fuzilaria. Estávamos, os quatro, com o polaco, no interior e não “numa esplanada” do restaurante onde, sugere o mentiroso, fruíamos a “aragem”. Kapuscinski relata a chegada abrupta de “um soldado negro”, feições abrutalhadas, que se nos dirige, ofegante, para anunciar: “Carlota morreu em combate no Balombo”. Pura mascarada. Quem, serenamente, entrou no restaurante e perguntou se teríamos já conhecimento da morte de Carlota foi um amigo meu, o enfermeiro luandense Frugiere dos Santos, na altura a viver em Benguela. Kapuscinski tão-pouco esteve no aeroporto quando partimos para Luanda, onde, segundo ele, “as ruas estavam pejadas de cadáveres”… No seu livro, ele reporta-se ao avião que me transportava, desaparecendo, ao longe, perdido nas nuvens. Com ele a cismar. Um fraudador que ousou considerar “Mais um dia de vida” obra de pura reportagem inspirada na veracidade factual.

                                                 Luís Alberto Ferreira – Lisboa, Janeiro 2020

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra