Eduardo Lourenço e a Guerra Colonial

Eduardo Lourenço – o filósofo, o ensaísta por excelência – morreu hoje em Lisboa aos 97 anos de idade. Proeminente pensador do Portugal contemporâneo, o autor de obras como O Labirinto da Saudade (1978) refletiu sempre sobre a cultura portuguesa, a identidade nacional e a sua relação com o mundo numa impiedosa exposição do irrealismo pátrio. No livro Do Colonialismo como nosso Impensado (2014) é-nos também revelado um surpreendente pensador anticolonial.

Antes do 25 de Abril, essa pulsão teve sempre como limite a cautela necessária para não afrontar o regime. A ponto de não lhe ser permitido regressar ao país. Esta situação pode explicar o facto de O Exército ou a Cortina da Ordem, escrito no final dos anos 50 na ressaca da campanha de Humberto Delgado, só tenha sido publicado em plena Revolução, a abrir a obra Os Militares e o Poder.

Em A Nova República Deve Nascer Adulta, Eduardo Lourenço preconizava o fim do Estado Novo, mas alertava para os riscos de um Portugal pós-salazarista se limitar a substituir pessoas e slogans. O texto acabou por ser publicado em 1976 no discutido O Fascismo Nunca Existiu, a par de outro artigo onde desmonta a retórica da “colonização benigna” e afirma que o colonialismo do regime salazarista “é a mais retrógrada, a mais implacável, a mais sofística, a mais imbecil de todas as formas de colonialismo. Utiliza A Situação Africana e Consciência Nacional para enviar críticas consistentes ao chamado “luso-tropicalismo” de Gilberto Freyre

Eduardo Lourenço foi perseguido e preso pela PIDE na fronteira portuguesa, em 1966, por ter subscrito um abaixo-assinado dirigido ao Chefe de Estado condenando o assassínio do militante do PCP José Dias Coelho. 

Participou, em 2015, na inauguração do Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em Lisboa.

O Filósofo deixou-nos. Os Media portugueses falaram «de tudo». Esqueceram-se da Guerra Colonial.

Uma cultura do silêncio

por   Eduardo Lourenço

Aix-les-Bains, novembro de 1996 (*)

Portugal é um país que não soube nunca viver a sua História senão como História Santa. Como o povo judaico. Mas também como outros povos que assim se vivem ostensivamente: os Estados Unidos ou a, de novo, Santa Rússia. Identidade quer dizer, «autodivinização». A antiga Grécia ou a Inglaterra elisabetiana incorporaram os seus horrores transfigurando-os graças aos sófocles e aos shakespears. Como os Estados Unidos os do Vietname, pelo olhar de Coppola. Nós nunca tivemos nenhum shakespear nem nenhum coppola. Tragédias (Alfarrubeira, D. João II, Alcácer Quibir) ou minitragédias foram silenciadas ou incorporadas com duas ou três alusões épico-líricas. Por isso nada tem de singular ou escandaloso  que tragédias nem sequer vividas como familiares, e logo ocultadas na sua versão oficial, tal a de Wiriyamu, ficassem (e continuarão a ficar) como acidentes lamentáveis que em nada comparam a imagem beata que os portugueses têm de si mesmos e do seu destino exemplar.

 Só alguns romancistas que viveram a guerra da África salvaram a honra do convento. Mas não foram as suas obras sobre os célebres «acontecimentos» africanos que lhe trouxeram qualquer aura. Essa parte da sua obra têm de vivê-la como «exterior» às obras que os consagraram e tiveram pouco sucesso junto do público metropolitano, como «O cais dos murmúrios», de Lídia Jorge, ou a contra-epopeia de Lobo Antunes, «As Naus». A lamentável peripécia que foi a guerra colonial, o seu desenlace ao mesmo tempo catastrófico e redentor (de um ponto de vista metropolitano), não fez, nem nunca fará, parte do discurso contemporâneo dos portugueses sobre si mesmos. Foi um acontecimento que passou longe, no qual a Metrópole só participou passivamente quase até ao fim que não se encaixa a título nenhum nem no rol das proezas dos almeidas e dos albuquerques, por quem o Tejo não chora, mas comemorará sem fim, nem das dos mouzinhos. Quer dizer, na nossa História pragmática, que se desenrola com uma coerência mítica sem falhas desde Ourique a Fátima. O resto é silêncio.

É mesmo um duplo silêncio. Não é só o discurso português de direita ou de esquerda, e este até mais euforizante que o primeiro, que obtura todos os «buracos negros» do nosso percurso, são as próprias vítimas que não têm ou não querem ter contabilidade de passadas abominações ou cicatrizes. Lembrar a humilhação ou os horrores sofridos humilha duas vezes. Ainda por cima, os nossos «buracos negros», nessa contabilidade obscena dos horrores por grosso, é uma gota de água ao lado dos da Alemanha, dos Estados Unidos, do Japão e mesmos dos das democráticas potencias, como a Inglaterra e a França.

Wiriyamu? Um horror, uma manha, indelével apenas para quem todo o massacre e genocídio são sempre indeléveis e infâmias suplementares quando negadas ou esquecidas. Não é a judeus expulsos há meio milénio que devemos reparação pública encerada. É aos vários Wiyriamu, aos nossos My Lai, cujos autores nunca foram julgados, que devíamos pedir perdão. Ou, na falta dele, registo nas imaculadas páginas da nossa História ontologicamente imaculada. Mas dada disto é novo entre nós. Foram padres italianos quem denunciou ao mundo a nossa barbárie igual à de outros. Foi outrora um António Vieira, soldado de Cristo, que não quis fechar os olhos diante de épicos bandeirismos e como tal celebrados ainda hoje. O Poder, entre nós, é naturalmente sacralizado. O contrapoder é hábito recente e a sua isenção rara. 

Não há muito, um jornal consagrou uma excelente evocação a esse episódio negro da nossa guerra colonial. Não me lembra que tenha despertado nenhum eco à altura dessa tragédia. A regra não-escrita do discurso euforista tão típico da nossa cultura é o silêncio. Talvez por sermos um país pequeno, onde, como em todas as aldeias do Mundo, a lei da «ementa» se confunde com a da sobrevivência. Ou, em linguagem nobre, com o patriotismo. 

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(*) Aix-les-Bains é uma comuna francesa na região de Auvergne-Rhône-Alpes onde viveu Eduardo Lourenço. «Uma cultura do silencio» teve pré-publicação no Jornal de Notícias em setembro de 1997 e integra a primeira edição do livro Marcas da Guerra Colonial, da Editora Campo das Letras, no Capítulo “Os Crimes de Guerra” (pág. 220) em Abril de 1999. ©

Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte Notícias da Guerra 

A guerra no tempo em que estes pivots não eram nascidos

As doenças contraídas pelas tropas portuguesas durante a Guerra Colonial podem ser divididas em três grupos: Infecciosas e parasitárias; Ortotraumatológicas; e Neuropsiquiátricas. Notícias da Guerra socorre-se aqui do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL (1ª edição em abril de 1995) no seu capítulo «As doenças na guerra» (páginas 45 a 64).

Nesta altura (2020) em que o país e o mundo sofrem efeitos do vírus “Covid-19”, em pandemia, e a imaginação dos apresentadores de telejornal não lhes permitiu melhor caraterização deste assunto que não seja o uso constante da palavra «guerra», cabem aqui algumas linhas sobre esse fenómeno histórico: as doenças colhidas e sofridas em África. Onde a palavra guerra teve a sua aplicação apropriada. Com o devido respeito pela terrível dimensão da presente virose e os seus nefastos resultados, nunca é demais evocar a Guerra Colonial onde gerações inteiras sofreram inúmeras doenças, entre 1960 e 1974. Foi um período muito mau, afetando, pesadamente, várias gerações, que os mais novos, hoje, quando pretendem classificar uma situação terrível – como a presente virose e os seus efeitos – utilizam esse termo de triste memória para os mais velhos: guerra.

O Paludismo (Malária, na sua designação médica) foi a doença mais frequente na vida dos militares na chamada «África Portuguesa» ao longo de todos aqueles anos. Qualquer um podia contrair a doença através da picada do mosquito e em qualquer altura da Comissão de Serviço. Há vários tipos de malária, conforme a área geográfica: África é quase exclusiva da malária ovale, mas também se pode ser atacado por malária falciparum. Esta tem um período de incubação de 1 a 3 semanas (média 12 dias). Uma e outra, na sua forma mais grave, podem conduzir à morte do paciente.

Curiosamente, Portugal tinha erradicado o paludismo nos Anos 50. Até essa altura, onde houvesse plantação de arroz e, principalmente, onde se registassem altas temperaturas, “rebentavam” aquilo a que o povo chamava «sezões», acessos de paludismo – que também se verificavam em pleno Alto Douro. Durante a Guerra em África, a malária podia ser tratada no mato, não obrigando necessariamente a uma evacuação para o hospital do sector. A quimioprofilaxia antimalária era, por regulamento, obrigatória. Quarenta e um graus de febre durante três a quatro dias, conduziam a uma recuperação muito lenta: 7 dias, na melhor hipótese. Dores de cabeça, náuseas, vómitos, calafrios e dores musculares eram os sintomas mais frequentes. Naquele tempo, o paludismo por Plasmodium foi responsável por elevado número de mortes por todo o continente africano e, na maioria dos casos, sempre que ocorria obstrução de vasos sanguíneos no cérebro. Numa fase posterior os médicos detetaram resistência à resoquina (cloroquina, princípio ativo dos comprimidos receitados, pelo menos, duas vezes por semana).

A malária e os exércitos têm uma história comum. Alexandre, o Grande foi morto aos 33 anos por esta doença. Napoleão disseminou, com êxito, mosquitos na Holanda e na Inglaterra. Em 1895, os franceses invadiram Madagascar registando apenas 13 baixas em combate mais 4.000 mortos por malária. Da Guerra Colonial que Portugal fez em África não são conhecidos dados de saúde credíveis nesta matéria. Nas colónias portuguesas havia zonas em que os combatentes dormiam vestidos, tentando proteger-se do mosquito, na melhor maneira possível, já que não estava prevista a distribuição de mosquiteiros. Desconhecem-se quaisquer «números oficiais» de vítimas portuguesas. Os medicamentos utilizados na altura não eram eficazes. No fim da década de 70, a OMS estimava que cerca de 200 milhões de pessoas estariam expostas à doença e, anualmente, cerca de 500 mil morriam – incluindo crianças com menos de cinco anos.

Da bisnaga antivenérea à febre “quebra ossos”

No primeiro patamar de doenças que atingiram os portugueses em África – militares e colonos – as sexualmente transmissíveis também se destacaram pela gravidade e dimensão. Para além da falta de educação sexual dos nossos jovens, vítimas de um ensino puritano e hipócrita nos costumes, a estrutura militar limitava-se a fornecer, se solicitada para tal, uma estranha «bisnaga antivenérea». Era uma pomada gorda sem qualquer grau de eficácia e de que os próprios médicos desconheciam a composição.

Já naquele tempo ocorriam situações de gonorreia que eram resistentes à penicilina. Não tratado, o “cavalo” (na gíria) provocava um rosário de complicações que podiam chegar à ablação dos órgãos genitais. No capítulo das doenças venéreas destaca-se, mais uma vez, a escassez, se não mesmo a ausência de dados oficiais. Para este estado não deixava de contribuir uma parte considerável de militares que escondiam as doenças. No regresso a casa, quem queria confessar: «Eu trago uma doença»?

A febre amarela, também provocada por um vírus transmitido por mosquito, originava doenças muito graves, por vezes mortais. Em Angola, para além das terríveis febres hemorrágicas, ficou na memória de muitos a «febre quebra ossos».

A Filária era transmitida por um insecto que introduzia no sangue um parasita. A Doença-do-Sono desenvolvida rapidamente pela picada da Mosca Tsé-Tsé, propagava-se no leste de Angola, no norte de Moçambique (Niassa) e em S. Tomé. Esta doença deixou, estranhamente, de ser controlada durante a guerra: a Tripanosomíase exprimia-se por febre alta, aumento dos gânglios e um grande cansaço. A fase avançada era o sono, a que se seguia a morte.

As águas não correntes e a dos poços eram o veículo mais importante das doenças gastrointestinais: toxi-infeções alimentares, amebíase intestinal (diarreia com sangue), abcessos no fígado, elefantíase e schistosomíase. E a onchocercose – a cegueira dos rios.

Claro que a tropa era vacinada antes da partida para África. Vacinados contra quê? Apenas, Febre Amarela, Cólera e Febre Tifóide. A longa lista que fica para trás e consta do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL ainda aborda as hepatites (A e B), tuberculose, meningite, VIH1, VIH2 e outras.

Foto 27 – Nas datas festivas da Igreja Católica, como a Páscoa e o Natal, as “excelsas senhoras” do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha, enquadradas por altas patentes do Exército, deslocavam-se aos hospitais militares de Lisboa e do Porto distribuindo “chocolatinhos e cigarritos para os nossos doentinhos”. Nesta foto, o figurante deitado na cama não é um enfermo.

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte Notícias da Guerra

Há um tempo para julgar os crimes de guerra

A evocação do Coronel Tomaz Ferreira no dia da sua morte

O Coronel do Exército Tomaz Ferreira foi um destacado «Militar de Abril» que, no período mais criativo da Revolução dos Cravos, exerceu o cargo de chefe do Estado Maior da Região Militar do Norte comandada pelo brigadeiro Eurico Corvacho. Ambos figuras históricas do Movimento das Forças Armadas que derrubou a ditadura fascista em Portugal, abrindo as portas à Liberdade e à Democracia.

Tomaz Ferreira participou num estudo sobre o tema “Crimes de Guerra nas colónias portuguesas – é cedo ou tarde para julgar?”. Esse trabalho foi publicado em sucessivas edições do Jornal de Notícias durante o ano de 1997, integrando depois um dos capítulos do livro Marcas da Guerra Colonial. Tomas Ferreira juntou a sua opinião às de Alfredo Margarido, Almeida Santos, Costa Gomes, Eduardo Lourenço, Lemos Pires, Luís Reis Torgal, Mário Tomé e Pezarat Correia.

O maior crime de guerra é perdê-la (*)

Quando Jorge Ribeiro me propôs falar de crimes de guerra| na Guerra Colonial |, a minha primeira tentação foi correr tratados, rever definições, esclarecer dúvidas. Enfim, procurar construir uma opinião que pecaria por falta de espontaneidade. Decidi pois, refletir sobre o tema, recordar a experiencia vivida e tentar a resposta. Começo por ter dificuldade em lidar com o conceito de crimes de guerra, porque creio, à luz do Direito Internacional, que não se terá tratado de crimes de guerra, mas de crimes contra o direito dos povos, contra os direitos humanos, contra pessoas simplesmente.

Crimes houve, mas também não foram monopólio nem privilégio só dos portugueses que estavam na posição de ditadores ou colonialistas, que se arrogavam de povo civilizador e civilizado, portanto com imensamente acrescida. Mas Portugal reconheceu logo no 25 de abril, ao colocar a descolonização em primeira prioridade, que tinha conduzido uma luta injusta, com nefastas consequências para os povos dominados e para si próprio.

Penso, sem dúvida, que todo o crime de guerra deve ser julgado e punido, se for o caso. Mas penso também que, para haver inteira justiça, é fundamental que ela se exerça na oportunidade do tempo e que dela resulte um efeito pedagógico, sem o que a sua importância sai radicalmente diminuída.

Quem julgar agora? Onde estão os principais responsáveis? Noutros países que também reagiram mal ao desejo de autodeterminação dos povos que colonizaram, que julgamentos foram feitos? Que justiça foi realizada? Porquê esse legítimo direito justifica a morte de tantos inocentes? – velhos, mulheres, crianças.

As respostas são óbvias. Todo o esforço deve ser feito para evitar a guerra, porque, depois de desencadeada, quando o problema é vida ou morte, não faltará quem lance mão de tudo para não a perder, quaisquer que sejam a as medidas previstas no Direito Internacional. Os julgados seriam os vencidos.

O maior crime da guerra é perdê-la. E quem já viveu o suficiente, para recordar até Nuremberga, sabe que assim é. Foram lá julgados crimes hediondos, mas não foram todos. Mesmo de entre os vencidos houve um tratamento, por exemplo, para Rudolf Hess, e outro para Werner Braun.

Nas circunstâncias atuais, não conheço nenhum instrumento capaz de inteira e boa justiça; oportuna também não será. Parece, pois, preferível deixar as coisas como estão, e promover o esforço principal de que não se repitam situações como esta da Guerra Colonial. Por outro lado, também nos pouparemos ao espetáculo da hipocrisia e oportunismo que tem acompanhado muitas vezes esses atos.

Tomaz Ferreira, Capitão de Abril

(*) Depoimento recolhido em Penafiel, em novembro de 1996, e publicado no livro Marcas da Guerra Colonial (Campo das Letras, 1ª edição/abril 1999 p.183)

QG da RMN
Foto 17 – Fachada do «eterno» Quartel General do Porto na Praça da República, antiga “Praça de Santo Ovídio”. Após a insurreição militar de 1 de maio de 1851, que levou à queda de Costa Cabral, o largo adotou o nome de “Campo da Regeneração”. Fora aqui que as tropas liberais se tinham concentrado em 1820. Com o 5 de outubro, o nome foi alterado para Praça da República, pela importância que teve na Revolta de 31 de Janeiro de 1891. O Quartel de Santo Ovídio foi mandado construir em 1790 por Maria I e serviu como aquartelamento para Infantaria (1798 / 1952), Comando da I Região Militar do Porto (1926 / 1970), Região Militar do Porto (1970 / 1975) e Região Militar do Norte (1975 / 2006). Nos últimos 12 anos, segundo a Wikipédia, «alberga o Comando do Pessoal».

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra