O impacto historiográfico de O Último Massacre

Primeira apresentação pública da obra INHAMINGA por Maciel Santos, Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Entre 1995 e 2011, Pélissier recenseou cerca de 850 autores (não obras) que publicaram sobre a África colonial portuguesa (mais Timor, que para este efeito pouco conta). São cerca de 50 autores/ano e aqui ficam de fora as dissertações académicas não publicadas nem muito dos autores incluídos em livros de edição colectiva. Uma tal profusão de estudos não é uma especificidade lusófona. As comunicações apresentadas aos colóquios bianuais da AEGIS – Africa Europe Group of Interdisciplinary Studies, a rede europeia para os estudos sobre África, contam geralmente com mais de seis centenas de participantes.

Há certamente uma relação entre esta pletora científica e o contexto geopolítico recente do continente africano. África conta já com vários estados candidatos a “pré-emergentes”, cujo crescimento médio, já depois da recessão de 2008, esteve à volta dos 5% e com alguns petro-estados muito “promissores”, sobretudo os situados na região que os EUA chamam o “outro Golfo”. Nota-se ainda que um outro factor alimenta nos últimos anos tanto a concorrência comercial como a produção editorial sobre os estudos africanos: a entrada de “terceiros” interessados em África, isto é, exteriores às ex-metrópoles ou aos Estados Unidos. Os Bric – e no que toca em especial à África lusófona, o Brasil – têm investido cada vez mais na produção de conhecimento sobre África e mesmo em áreas muito afastadas da rentabilidade imediata como é o caso da historiografia.

Inhaminga Livro

Perante o que já começa a ser uma pequena floresta editorial no caso da África lusófona, torna-se agora mais difícil fazer balanços e até avaliar o grau de novidade de cada uma dessas publicações. Mas não é o caso desta, de hoje.

Inhaminga – O Último Massacre é o resultado de uma investigação que se centra sobre uma série de episódios militares ocorridos entre 1970 e 1974 na região central de Moçambique, o distrito de Tete. Vem assim juntar-se a uma longa sequência de obras sobre a história militar da última guerra colonial portuguesa.

Mas há uma diferença essencial: o foco desta investigação é uma sequência de crimes de guerra da responsabilidade do poder político português. Talvez seja mais correto enuncia-la desta forma visto que os operacionais envolvidos nem sempre foram os efetivos regulares do Exército: como se explica num capitulo especial, os “executores” incluíram também as milícias (OPVDCM), os Grupos Especiais (a nova versão da chamada “tropa de 2ª linha” dos primeiros tempos da ocupação colonial), a PSP e  naturalmente a PIDE.

Ao escolher uma sequência de crimes de guerra, o livro de Jorge Ribeiro ganha imediatamente uma posição de destaque no panorama bibliográfico português e internacional. Como ele próprio diz (p. 141) ao comparar a divulgação de episódios semelhantes da guerra do Vietnam (como My Lay ou My Khe, na região de Da Nang em 1968), os massacres de populações civis durante a última guerra colonial portuguesa não tiveram o reconhecimento que mereciam, quer na historiografia quer até na memória coletiva portuguesa. Não a poderiam ter na época durante a época em que ocorreram em Portugal, mas poderiam tê-la tido fora de Portugal (o caso de Wyriamu foi, como se verá, a excepção); poderiam igualmente tê-la tido em Portugal e internacionalmente depois de 1974. Mas assim não aconteceu em qualquer situação. Mesmo a excepção constituída por Wyriamu foi incompleta. É sabido que o efeito da denúncia do massacre de Wiriamu (Dezembro de 1972) foi imediato e suficientemente forte para prejudicar a visita oficial de Marcelo Caetano a Londres do ano seguinte. É também um facto que o relatório da Comissão de Inquérito da ONU, concluído em 1974, teve um esboço de apresentação pública. No entanto, a conjuntura portuguesa pós-Abril teve o efeito perverso de lhe retirar a publicação integral e, mais ainda, de retirar completamente esse episódio da vida politica e dos tribunais portugueses. Nos anos seguintes não haveria, relativamente a factos que já deveriam constar da opinião pública internacional, nem sanções individuais, nem condenações judiciais, nem consequências politicas (e muito menos análises historiográficas) do episódio de Wyriamu.

Mais: Wyriamu é apenas uma de três localidades moçambicanas onde em Dezembro de 1972 ocorreram massacres (as outras duas foram Chavola e Juvau). Além disso, esses massacres de Dezembro de 1972 estiveram longe de ser os únicos da região centro de Moçambique entre 1972-74. Este livro mostra que foram ultrapassados em escala pelos acontecimentos de Inhaminga, ocorridos entre os finais de 1973 e Abril de 1974. Este é um dado qualitativamente novo e constitui sem qualquer dúvida o principal contributo deste livro.

jornal Bispo Tete
Mozambique bishop maintains his silence on reports of massacres – Sete meses após Viriamu, a imprensa estrangeira continuava a queixar-se do silêncio do Bispo de Tete. Augusto César Alves Ferreira da Silva também recusou apresentar qualquer relatório nas sessões da Conferencia Episcopal sobre o que passava em Inhaminga.

– As características do massacre de Inhaminga foram diferentes dos episódios anteriores. Resultaram do processo de transferência/assassinato de população adulta, retirada de localidades consideradas suspeitas e ocorreram ao longo de pelo menos três meses.

Com base no objetivo prioritário de dar conhecer os FACTOS, tanto quanto é possível conhece-los através das ordens de serviço e relatórios operacionais, Jorge Ribeiro tinha necessariamente de coloca-los em destaque, sem o qual a inteligibilidade da narrativa ficaria comprometida. Começou portanto o livro por uma secção que designa “Noticias do massacre” e onde expõe a sequência dos principais acontecimentos – à escala diária –entre 1/1 e 25/4/1974. Os restantes capítulos do livro destinam-se a contextualizar esta sequência de factos e, na medida do possível, a explica-los.

A organização formal do livro segue assim com eficiência o método da descrição jornalística: os eventos e depois a sua contextualização. Não é pelo facto de as dissertações historiográficas seguirem normalmente a ordem inversa que este livro perde um só átomo de relevância ou da sua capacidade de impacto. Em ambos os casos – notícia ou tese – há o objetivo comum de descrever e compreender. Se a compreensão (a racionalização do real, para falar epistemologicamente) é atingida da frente para trás ou inversamente, é indiferente para o resultado. A lógica científica não obriga a qualquer convenção de sentido descritivo. Deve referir-se este ponto porque, contrariamente ao que por vezes se pensa, a sequência braudeliana da exposição historiográfica que a partir de uma certa altura se tornou consagrada – a estrutura, a conjuntura, o acontecimento – é, para dizer de modo simples, uma convenção. Explica-se eficientemente – quando se consegue – sem ter de prestar tributo a nenhum circuito. A coruja de Minerva voa ao anoitecer mas não tem itinerário de voo.

Além disso, do ponto de vista da comunicação imediata, O Último Massacre cumpre o seu propósito sem qualquer dúvida. Os leitores ganham a informação do que mais interessa e ficam a compreender melhor o que poderá ter levado à sequencia de acontecimentos.

Para terminar, algumas considerações sobre a explicação do massacre, que Jorge Ribeiro desenvolve do seguinte modo:

– Uma secção/capítulo sobre a história recente de Moçambique, e em especial sobre a exportação de capital metropolitano e internacional. Útil porque, apesar de genérico, foca a especificidade de Tete e do centro de Moçambique. Deve notar-se que Moçambique demorou muito a ser “Moçambique” – no fundo, eram pelo menos três países coloniais que a administração portuguesa amalgamou: o norte camponês, o centro onde se instalaram as plantações, o sul que entretanto se tinha tornado num reservatório de emigração para a África do Sul

– Uma outra secção mais conceptual (o que é juridicamente um genocídio, um massacre, um crime de guerra, etc.)

-Quatro secções/capítulos sobre o enquadramento político-militar da guerra: a PIDE, os outros operacionais, as igrejas;

-Uma outra de história comparada entre o Vietname e a guerra colonial portuguesa 1961-74

-Uma última de confrontação/denúncia em que se aborda a questão dos apagões historiográfico e judicial que se seguiram ao final da guerra e à descolonização

Esta obra tem 172 páginas e é evidente que não se pode falar do desenvolvimento capitalista de Moçambique, da sua sociedade colonial, da politica externa portuguesa entre 1961-74, da guerra do Vietname ou do que se seguiu ao 25 de Abril com o mesmo grau de intensidade. Mas o caráter desigual destes capítulos:

– não retira a oportunidade explicativa de qualquer um deles;

– não diminui o grau de novidade absoluta de alguns. Jorge Ribeiro desenvolveu uma investigação científica séria e demorada: é portanto natural que em função dela e do que constituíam os seus principais objetivos tivessem resultado muitas pistas  inovadoras.

Devem destacar-se três em particular, susceptíveis de desenvolvimentos “urgentes”:

– o envolvimento da guerra portuguesa no quadro rodesiano e sul africano, materializado no plano ALCORA, o que poderá contribuir para uma avaliação da posição portuguesa face à NATO, aos EUA e alguns aliados em particular, como a RFA; (para esta pista, é de suspeitar que muita coisa exista de interessante em arquivos não portugueses, nomeadamente sul-africanos)

– a necessidade de uma história comparada com outras guerras coloniais europeias recentes, onde os fenómenos do “tipo Inhaminga” foram igualmente recorrentes e esquecidos (repressão francesa em Madagáscar e nos Camarões, na Argélia; britânicos na Rodésia do Norte nos anos 1930, no Quénia em 1951-54, no Nyassa (Malawi) nos anos 1950). Isto para não falar no que aconteceu nas guerras coloniais de ocupação (1890-1940), que ainda não foram reescritas nesta perspectiva (exclusão feita aos massacres alemães na sua colónia do SW Africano em 1904-05). Nada temos em português, por exemplo, sobre a guerra do planalto angolano de 1902, as revoltas do Congo em 1914, a guerra do Seles em 1917, a I Guerra na Zambézia e no Norte de Moçambique, as guerras de Timor, etc.). Para quase tudo, os trabalhos já com mais de três décadas de Pélissier continuam ainda referencias únicas.

– a necessidade de ter uma visão de conjunto sobre as missões religiosas em África e as inflexões das suas relações com o poder colonial. Moçambique entre 1968-1970 teve uma dessas reviravoltas de política. Explicar as reorientações do Vaticano ou a política das missões protestantes poderá trazer muitas coisas novas sobre a transformação das nossas próprias sociedades, de que as igrejas (e em especial a igreja católica) são um indicador particularmente útil e por vezes mal estudado.

Em resumo, trata-se de um livro cujo título (mediático, sem dúvida) esconde apesar de tudo a importância do seu impacto historiográfico. Trata-se também de um livro necessário, em termos de memória coletiva; e, como se vê, o resultado de uma pesquisa que contribui para abrir outras, e importantes.

Maciel Santos

Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 12 de outubro de 2015

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra

Não consigo evitar emoção e um nó na garganta

Intervenção pública do Professor Joaquim Barbosa (FLUP) sobre INHAMINGA

Jorge Ribeiro já nos habituou aos seus textos sobre a Guerra Colonial, contra a tentativa do seu branqueamento: em reportagens, em artigos, em livros, ou na rádio. Pessoalmente, já tive prazer de apresentar outro livro sobre o colonialismo português, sobre o forte de S. João Batista de Ajudá, em que o autor faz uma incursão no domínio da ficção, para mostrar a nudez crua da verdade, sob o manto diáfano da fantasia – como diria Eça de Queiroz em “A Relíquia” do que foi o nosso colonialismo.

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Tratando um episódio ignorado pela maior parte dos portugueses, Inhaminga – O Último Massacre é mais um contributo do autor para que a Guerra Colonial não fique esquecida, como aconteceu ao alferes miliciano Manuel Guilherme a quem o livro é dedicado: ferido em combate em 1971, esteve em coma durante 28 anos num hospital militar esquecido e ignorado por sucessivos governos.

O que temos neste livro é a narrativa do massacre — e não passemos à pressa por cima da palavra massacre –, conhecido como de Inhaminga, no centro de Moçambique, nas faldas do Parque Natural da Gorongosa, nos últimos meses do fascismo português, em que participaram tropas regulares, tropas especiais (comandos e paraquedistas), mercenários, PIDE, PSP, colonos brancos, força aérea rodesiana e empresas privadas, e em que pereceram e foram sepultados — sepultados não, enterrados — em valas comuns um número incalculável de habitantes de Inhaminga e arredores.

O que temos neste livro é o relato do maior dos massacres da história colonial, como dirá — na página 125 –, o Padre José de Sousa, Superior dos Jesuítas, que trabalhou na Beira com D. Manuel Vieira Pinto

No preâmbulo, o autor faz, como é das normas, uma introdução aos factos que vão ser relatados introduzindo os atores e as ideias-chave que vão estar em jogo nos acontecimentos dos últimos dias do colonialismo português; ideias e atores a que voltará depois do relato da tragédia, para os caracterizar com mais pormenores: o colonialismo e o racismo portugueses; as riquezas naturais; a avidez capitalista; o instinto de sobrevivência; o isto é nosso!; a autodefesa; a subversão e o seu esmagamento; o controlar e conquistar a população; o aldear; o descontrolo absoluto.

A Notícia do massacre começa, como diriam os clássicos quase in medias res, quase no meio do calendário da agonia, quando a 9 de fevereiro de 74 o administrador da Fabrica de Cimento de Nova Maceira, que pertencia a António Champalimaud, acompanhado por um agente da PIDE, por um madeireiro local, pelo subchefe da Organização de Defesa Civil de Moçambique e por um militar, visitavam a pedreira de calcário que servia a fábrica de cimento e eram informados de que, cito, “Este sistema de limpeza já vigora há uns meses e é o mas eficaz para acabar com a guerra. As valas, lá atrás, já têm à volta de uns três mil turras”.

Numa analepse, o autor volta a meados de 1973 para dar notícia do agravamento da situação militar provocada pela abertura da frente de guerrilha de Manica e Sofala pela FRELIMO. Ficámos a saber que apesar da tentativa de reorganização das nossas tropas, do apoio da força aérea rodesiana — que despejou toneladas de napalm sobre a região –, e do trabalho da PIDE — que inaugurou as novas instalações em Inhaminga com a detenção do padre Josep Martens, Superior da Missão Católica -, no fim do ano, a guerrilha atingia a Beira, os comboios da Trans-Zambézia tinham sido praticamente parados pela guerrilha e os colonos brancos entravam em descontrolo clamando mais tropas.

A narrativa dos acontecimentos a partir de 1 de Janeiro de 1974, até ao 25 de Abril, a que o autor chama O Calendário da Agonia, é feita quase na forma de um diário, e mostra-nos algo de impensável. Num relato seco, quase livre de adjetivos e de advérbios, como que um relatório militar, Jorge Ribeiro descreve, quase dia a dia, o processo que consistia em Matar todos, destruir tudo!.

Recorrendo a textos oficiais, incluindo relatórios de operações militares, e outros testemunhos pessoais, são descritas as perseguições; as torturas e execuções; os incêndios de palhotas; o movimento dos camiões da morte e das bulldozers militares a abrir valas para enterrar milhares de nativos; as operações militares das tropas regulares, dos comandos, dos paraquedistas, da PIDE, da Defesa Civil; da força aérea, portuguesa e rodesiana; das milícias; dos Grupos Especiais; as ações dos colonos brancos — a mostrar à tropa como é que se fazia a limpeza! — as manifestações dos bons católicos; a detenção de padres da missão católica e as reclamações de membros da diocese.

No último registo desse calendário da agonia, referente ao dia 25 de Abril de 1974, somos informados de que dos cerca de 45 mil habitantes africanos de Inhaminga, 35 mil estavam em fuga ou tinham sido assassinados.

Nos capítulos seguintes, o autor faz a apresentação pormenorizada do que esteve em jogo em Inhaminga, começando pela riqueza dos recursos naturais; e pela incapacidade de a Administração Central conseguir gerir e administrar o território e pela consequente concessão, ainda no século XIX, da exploração das riquezas a empresas majestáticas, que ficavam não só com a capacidade de explorar ou subconcessionar a exploração das riquezas, mas também, inclusivamente, da recolha de impostos, dos correios, e até da emissão de moeda. Este modelo de administração colonial foi, de resto, seguido por ouras potências coloniais. Interessante, para o caso de Inhaminga, será comparar o edital de 1909 da Companhia de Moçambique, fundada nos fins do século XIX, transcrito na página 40, com o discurso de Samora Machel ao anunciar a abertura da frente de Manica e Sofala nas comemorações do 11º aniversário da FRELIMO, em Junho de 73, transcrito na página 73/74.

A importância estratégica da região, referida por Samora Machel, merece um capítulo deste livro, O enquadramento da guerra, onde é vista a política colonial portuguesa e o papel da NATO e dos Estados Unidos da América no contexto da Guerra Fria, no esforço para manter a África Austral fora da esfera do comunismo. Em capítulo próprio, o autor faz o enquadramento dos acontecimentos de Inhaminga, e dos campos de concentração, à luz dos Direitos Humanos e do Direito Internacional.

A polícia política, A PIDE, com os vários nomes que foi tendo ao longo do tempo, responsável pelos campos de concentração — às vezes chamados presídios –, do Tarrafal à Machava, e um dos executores do massacre de Inhaminga, merece um capítulo próprio, O anjo da guarda das Forças Armadas, que precede a descrição e a história de todas as forças envolvidas na chacina de 1974 em Inhaminga, como muitos documentos oficiais de testemunhos pessoais.

Outro tema explorado e estudado neste livro é o das relações da Igreja Católica, ou das estruturas oficias, com o fascismo e o colonialismo portugueses. Jorge Ribeiro mostra como, no terreno, os missionários católicos, e de outras religiões, quando Salazar resolveu diversificar, não é compatível com a ideia que muitos ainda mantemos de um apoio cego da Igreja, personalizado no Cardeal Cerejeira. Não sei se é caso para lembrarmos a distinção entre a Igreja de Pedro e a Igreja de Constantino, mas se é verdade que houve padres e dignitários da Igreja Católica que, mesmo em Moçambique, se recusaram a ter olhos para ver, também é verdade que muitos padres, e outros dignitários, não tiveram medo e foram perseguidos.

Jorge Ribeiro dá-nos uma lista extensa de padres Presos pela Ditadura e esquecidos pela Igreja; durante a narrativa é, de resto, referida a perseguição da PIDE e sua ânsia pelas listas dos padres.

O livro inclui um capítulo dedicado aos inquéritos e aos responsáveis pelos crimes do colonialismo português, onde nos é apresentado o pensamento estratégico de alguns dos responsáveis militares do colonialismo.

Outro capítulo — Trocar África pelo Vietname — é dedicado à comparação entre as duas guerras com testemunhos de portugueses que preferiram ir para o Vietname, alistando-se nas tropas americanas.

Para terminar: Inhaminga — o Último Massacre não é um livro de História. Nem Jorge Ribeiro pretende que seja. Nele não vamos encontrar as características dos manuais, ou sequer dos ensaios de História, com referências bibliográficas e citações convenientemente datadas e localizadas e com uma bibliografia arrumadinha conforme as normas mais ou menos recomendadas pelas instituições académicas.

O que encontramos neste livro de 172 páginas, publicado pelas Edições Afrontamento, é um relato de acontecimentos históricos muito próximo de uma reportagem em que, no meu entender, a preocupação da objetividade domina. São disso indicadores as seis páginas de Fontes e bibliografia que incluem consultas a arquivos, em Portugal e Moçambique, monografias, publicações periódicas, documentos militares, reportagens, entrevistas, etc., com imensas transcrições de documentos originais, para além da experiência pessoal do autor como jornalista durante e depois do serviço militar.

Não sei se a preocupação com a objetividade impediu que a emoção se manifestasse, como, penso, devia — sobretudo no relato do Calendário da Agonia –, ou se foi usada como defesa contra a emoção; se calhar, sem o autor se dar conta disso. Mas apesar da “secura” do discurso, ou talvez por isso, não consegui evitar que a emoção e um nó na garganta me apertasse a alma e abrisse as gavetas das minhas memórias, deixando sair algumas recordações e emoções que, como todos os que fomos soldados e combatentes, muitas vezes teimamos em não deixar sair. Por isso dizemos que uma guerra só acaba verdadeiramente quando morre o último dos seus combatentes.

Na vida de todos, penso, há imagens, sons, cheiros, sensações que nos marcaram e que pelas mais diversas razões se tornaram parte de nós. Por exemplo, eu não consigo evitar a emoção ao ouvir a Marselhesa no filme Casablanca, sobrepondo-se ao cântico dos oficiais nazis. O horror da descrição das execuções de Inhaminga fez-me recordar outra situação que me marcou: as imagens do massacre do Cemitério de Santa Cruz, Dili, em 1991. Em algumas dessas imagens ouve-se claramente, como pano de fundo daquele caos, a população a rezar a Avé Maria em português, por baixo do som das sirenes e das metralhadoras.

Ao ler o relato das execuções de Inhaminga, apesar da secura do discurso do Jorge Ribeiro, dei comigo a ouvir os executados a rezar, como os mártires de Santa Cruz, a Avé Maria que lhes foi ensinada, em português, pelos padres da Missão Católica, talvez pelo padre José, como chamavam ao padre Josep Martens, Superior da Missão. Só que, em Inhaminga, a língua que disparava as G3, que conduzia os camiões de indígenas para a morte, ou manobrava as buldózeres que abriam as valas, e arrastavam cabeças, era também a minha língua, a língua de onde se vê o mar, no dizer de Vergílio Ferreira, também em 1991.

Porto, Livraria da UNICEPE, 30 de novembro de 2015

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra

Inhaminga e calar

Portugueses dissimulam traumas da guerra com ignorância induzida

O livro «INHAMINGA – O último massacre» (Edições Afrontamento) completa em breve dois anos de edição. Para o seu lançamento realizaram-se várias sessões de apresentação. Na primeira, muito me sensibilizaram reações de quem já o tinha lido e se deslocou à Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto para dizer que a publicação de Inhaminga constituía um «acontecimento histórico». Luís Alberto Ferreira, o Grande Repórter da Descolonização Portuguesa, escreveu depois que «ninguém saberá agradecer este enorme serviço à Humanidade consubstanciado em “Inhaminga – O Último Massacre” (…) obra extraordinária. É mesmo uma obra excecional».

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FOTO 1 – Inhaminga – MOZ 2014 – Notícias da Guerra

Na intervenção do autor, da praxe, e centrada no estranho fenómeno «nunca ouvi falar disso…», eu comecei por dizer que «os contemporâneos deste período ouviram falar disto, sim. Os que participaram ou assistiram é que se recusam falar. Ao fim de 40 anos, o que é estranho é que a boa e já volumosa literatura sobre a guerra nunca tenha abordado este tema, elencando – quando muito – o nome de Inhaminga nas politicamente corretas listas de massacres». E ponto.

Ao Massacre de InhamingaI, apesar da sua gravidade, aconteceu o mesmo que a outros crimes de guerra. Com o fim da Ditadura, o grito de alívio e alegria Acabou a guerra!, transversal a toda a sociedade, escondeu alguns responsáveis e deixou fugir outros. Para o registo histórico foi um desastre. Para os investigadores, o processo heurístico neste caso abriu falência.

Mas eu mantive no topo da minha agenda Inhaminga. Quando voltei a localizar os principais atores da história, nessa altura nasceu este livro.

A estrutura que lhe dei está minada pela técnica jornalística: à tese académica peguei pelo fim e coloquei-o a abrir o livro. A sua essência é a notícia do massacre, onde a página 17 pode cumprir as funções de lead. O enquadramento do facto, o contexto em que se desenrola, guardando uma opinião pessoal par um pequeno posfácio com que a obra encerra – tudo isto pode ajudar o leitor a entender o acontecimento com que no plano militar a Guerra Colonial chegou ao fim em Moçambique.

Em março de 1974, os missionários são expulsos. Os generais Luz Cunha e Kaulza de Arriaga entregam o seu plano «Fim à subversão comunista do Exército». Demitem-se os generais Costa Gomes e António de Spínola. O Comité de Descolonização da ONU impõe, por unanimidade, o cessar-fogo nas colónias portuguesas. E a Igreja declara que não está contra a autonomia ou independência das Colónias.

Em Abril, no terreno – nesta área geográfica da guerra – a guerrilha avança com um plano capturando as aldeias de Sena, ocupa as instalações da Polícia em Vila Pery, agentes da PSP são mortos em Manica, a estrada para Mavonde é cortada, o comboio para Rodésia atacado com rockets, três aviões da Rodésia são abatidos em Tete e, talvez o mais alarmante, na estrada que liga a Beira à capital Lourenço Marques os camiões de transporte começam a ser atacados e os seus motoristas mortos. O Dondo encontra-se paralisado com a greve dos trabalhadores da cimenteira. E agora?

Termino, recordando algumas frases que Eduardo Lourenço escreveu para outro livro meu (*): «A antiga Grécia ou a Inglaterra elizabetiana incorporaram os seus horrores transfigurando-os graças aos sófocles e aos shakespeares. Como os Estados Unidos do Vietname, pelo olhar de Coppola. Nós nunca tivemos nenhum Shakespeare nem nenhum Coppola. Tragédias (Alfarrobeira, D. João II, Alcácer Quibir) ou minitragédias foram silenciadas ou incorporadas com duas ou três alusões épico-líricas. Por isso nada tem de singular ou escandaloso que tragédias nem sequer vividas como familiares, tal a de Viriamu, e logo ocultadas na sua versão oficial ficassem (e continuarão a ficar) como acidentes lamentáveis que em nada comparam a imagem beata que os portugueses têm de si mesmos e do seu destino exemplar».

Este livro, sobre Inhaminga, pode ser um grito.                                        JORGE RIBEIRO

(*) Marcas da Guerra Colonial / Edição Campo das Letras, 1999 ( p.220 )

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra