Cinzas do Império ainda estão quentes

Sentaram o Exército no banco dos réus

Enquanto não morrer o seu último Combatente, uma guerra tem direito a ser discutida e merece ser tratada, mesmo na pior das situações – a de perdedor, como é o caso de Portugal em relação ao conflito armado que sustentou em África no século XX. O Golpe do 25 de abril de 1974 criou condições para o fim dos combates e o regresso a casa das tropas coloniais. Impunha-se a cura das feridas dos sobreviventes e o dever de respeitar os seus mortos – 30 vezes mais que a matança sofrida em La Lys na Guerra de 1914 – 18. 

Hoje, as “máquinas” das chefias dos estados-maiores das Forças Armadas já não tem lá, naturalmente, alguém que participou na Guerra Colonial. O atual CEME, por exemplo, fez os seus primeiros estudos militares na década de 80. Terá sido compelido a ler o defetivo Volume I da inefável “Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África”. Com o tempo, contudo, estou certo que apreendeu, como todos os camaradas, a realidade dos 13 difíceis anos da Guerra Colonial. Mas a sociedade civil não foi educada da mesma maneira. O chamado «ensino oficial», paulatina e diligentemente, foi desvalorizando esta parte da nossa História nos compêndios, e hoje temos gerações inteiras incapazes de alinhavar duas linhas sobre essa catástrofe que se abateu sobre todas as famílias portuguesas – do continente e das antigas colónias.  

Foto 32 – Recepção no Dondo, em 1956, ao Presidente da República Craveiro Lopes para uma visita à LUSALITE – futura “casa” dos GEP

Terminada a guerra, passados à História os principais cenários em que se administraram as colónias – na economia, no ensino, na cultura, na justiça, na indústria, no comércio… – as reestruturações político-administrativas necessárias foram, por certo, mais fáceis de realizar pelo lado do colonizador do que pela parte dos novos países. Por motivos que não cabe aqui equacionar, ainda deparamos com fenómenos que, cinquenta anos depois do regresso definitivo de África, continuam a confundir-nos.

Hoje, ainda somos assaltados por fenómenos que causam profunda perplexidade. Como este, narrado na imprensa em Portugal no dia 12 de julho de 2020:

Uma peça de estratografia

«Um tribunal condenou o Exército Português a reconhecer como tempo de serviço três anos que um militar, hoje com 70 anos, passou a combater em Moçambique, durante a Guerra Colonial. O período entre 1972 e 1975, em que o antigo militar (que o jornal não identifica) integrou o Grupo Especial Pára-quedista (GEP), não aparecia na sua folha de serviço, embora estivessem os restantes anos em que foi também militar, de 1969 a 1972 e de 1975 a 1983. O homem que levou o Exército a tribunal queria que lhe fosse reconhecido esse intervalo temporal para efeitos do cálculo da reforma. No entanto, a instituição militar alegava que os elementos que constavam no seu processo eram “manifestamente insuficientes” para permitirem essa contagem e que o GEP era uma força de carácter paramilitar. A juíza, de 43 anos de idade e que assina a sentença, discordou, sentenciando que o réu “deveria ter feito uma análise meticulosa” não só da prova documental como testemunhal que ele apresentou em sua defesa quando pediu o averbamento do tempo. A magistrada sublinhou também que o tempo ao serviço destes grupos especiais foi reconhecido a outros indivíduos para efeito de pensão. O queixoso em causa esperava por uma decisão há quatro anos, pois, embora a ação tenha dado entrada no tribunal em 2017, o antigo militar tinha já pedido ao Exército, a 14 de Julho de 2016, que lhe reconhecesse o tempo de serviço no Centro de Instrução de Grupos Especiais (CIGE), entre 1972 e 1975. Algo que não aconteceu, obrigando-o a recorrer à justiça. O Exército mantinha que o militar tinha passado à disponibilidade em Setembro de 1972 (o que significa o fim da comissão de serviço), tendo sido apenas readmitido em 18 de Junho de 1975. 

A sentença é de 6 de Abril deste ano mas, por causa do alargamento dos prazos motivado pelo estado de emergência, só no passado dia 3 de Julho transitou em julgado. O Exército não recorreu desta decisão de primeira instância. Este caso tem várias nuances, a começar pela natureza do GEP, um grupo não formalmente integrado na estrutura das Forças Armadas Portuguesas, instruído essencialmente por oficiais brancos e composta na maioria por soldados negros da então província ultramarina de Moçambique. Acontece que o queixoso, que é negro e nasceu na cidade da Beira (Moçambique), veio a Tancos fazer a instrução, em 1969, quando tinha 19 anos. Foi voluntário e incorporou depois o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 31, em 1970, quando regressou à antiga colónia.

O Exército sustentava que o GEP era uma força irregular ou de carácter paramilitar, um argumento contestado tanto por oficiais que fizeram parte dessa mesma força. Também o tribunal considerou que o serviço prestado nestes grupos especiais “substituía as obrigações de serviço efectivo das forças armadas, estando os mesmos sob dependência operacional do Comando Militar, sendo que o serviço aí prestado era considerado, para todos os efeitos, como sendo serviço efectivo nas forças armadas respectivas”. Não havendo registos muito completos, o jornal cita, sem identificar, uma testemunha que afirma: Por motivos de segurança, muita da documentação foi incinerada. Na ordem de serviço do CIGE de 15 de Março de 1973 o combatente em causa é dispensado de usar botas por oito dias. Em Julho do mesmo ano, recebeu um louvor do comandante do CIGE porque, “prestando serviço há cerca de dois anos nos GE e GEP, quer no CIGE, mostrou um perfeito espírito de missão e sacrifício”. O mesmo comandante morreu em 2008, mas deixou escrito, em 1982, que o militar serviu nos GEP de 14 de Abril de 1972 a 30 de Abril de 1975. Há vários outros oficiais, superiores hierárquicos do queixoso, que testemunharam a seu favor, embora não tenham assistido ao desfecho do processo. O tribunal terá aceitado os depoimentos de outras duas testemunhas que assegurava que o queixoso depois da guerra regressou a Portugal tendo construído aqui a sua vida, esteve no CIGE em pelo menos parte do intervalo que estava em branco no processo. Estas duas testemunhas morreram em 2019 e 2018, respetivamente.

“O réu Exército, disse a juíza, “não podia ter ficado alheio a todas estas evidências que demonstram” que o queixoso “efectivamente, integrou os GEP, pelo menos durante o período de 14/04/1972 a 30/04/1975.» «De uma forma regular ou irregular”, a verdade é que o queixoso esteve lá, tendo “servido a pátria e colocado a sua própria vida em risco” na expectativa de que esse período “seria, pelo menos, considerado tempo de serviço efectivo”.

Escreveu ainda a magistrada: “O não reconhecimento do direito ao averbamento dos três anos configura uma violação dos princípios da boa-fé e da igualdade e, como tal, do princípio da justiça e da razoabilidade que, em bom rigor, consome aqueles dois.”

E a terminar: “Uma sentença não é um convite a cumprir. O Exército tem de averbar o tempo de serviço”. O Exército (e não a Força Aérea) “tem agora três meses para cumprir espontaneamente a sentença. Terá também que pagar as custas do processo.»

As “forças irregulares” na Guerra do Ultramar (Wikipédia)

Nos finais da década de 60, a evolução do que se passava nos três teatros de Operações criou a necessidade de aplicar uma miríade de forças irregulares para auxílio das Forças Armadas Portuguesas. Não porque estas, diretamente, fossem incompetentes e incapazes de «acabar com o terrorismo». Mais para alijar responsabilidades dos diferentes comandos sentados às secretárias. 

Essas forças englobavam vários tipos, em termos de origem e dependência: milícias de colonos brancos, milícias e forças nativas, forças de exilados estrangeiros, forças de ex-guerrilheiros, forças dependentes da Administração Colonial, nas três Forças Armadas e da PIDE.

Oficialmente, estas forças – na sua maioria constituída por mercenários – eram ainda designadas por “Forças Auxiliares”. Na Guiné, o General António de Spínola preferiu o termo “Forças Africanas”.

Por cada Teatro de Operações, as principais dessas forças alinharam como segue:

                                                          Em Angola

Organização Provincial e Voluntários de Defesa Civil de Angola – milícia fundamentalmente urbana, constituída por colonos brancos armados.

Guarda Rural – milícia da Polícia de Segurança Pública (PSP), vocacionada para a defesa de empresas e fazendas dos colonos.

Formações Aéreas Voluntárias – milícia aérea privada.

Grupos Especiais – unidades auxiliares formadas em 1968, constituídas por africanos de etnia local, que operavam adidas às autoridades locais na zona leste de Angola (99 grupos de 31 homens cada).

Tropas Especiais – 1.200 desertores da UPA que passaram a combater por Portugal em Cabinda e em várias regiões do norte de Angola em 1966.

Fiéis Catangueses – força composta por 5.000 militares e polícias zairenses da região do Catanga, exilados em Angola com as suas famílias. O exército português organizou com eles 3 Batalhões de 5 companhias cada, colocados em Chimbila, Camissombo e Gafaria.

Leais Zambianos – força composta por exilados zambianos.

Flechas – Força paramilitar da PIDE, composta por membros de etnias locais, convocados à força, e por dissidentes dos movimentos de guerrilha em Angola.

                                                              Na Guiné

Corpo de Milícias – formação constituída exclusivamente por nativos para «funções de auto-defesa de povoações». Dividiam-se em dois tipos, as milícias normais (organizadas em 45 Companhias de 200 homens) e especiais (23 grupos de 31 homens).

Comandos Africanos – 3 companhias constituídas por africanos, inclusive os “oficiais”, sob o «Comando do Batalhão da Guiné».

Fuzileiros Especiais Africanos – Nativos da Guiné constituíam os dois Destacamentos de «fuzileiros navais» existentes.

                                                           Em Moçambique

Organização Provincial e Voluntários de Defesa Civil de Moçambique – organização semelhante à OPVDCA de Angola, mas de menor dimensão e importância.

Formações Aéreas Voluntárias – milícia aérea privada.

Aviação do Gabinete de Planeamento do Zambeze – serviço de aviação civil, dependente do Ministério do Ultramar encarregue de dar apoio à construção e segurança da Barragem de Cahora-Bassa.

Grupos Especiais (GE) – auxiliares do Exército constituídos por nativos da etnia da região onde atuavam, que recebiam alguma preparação semelhante ao treino dos CTOE. Afirmavam dispor 84 grupos de 90 homens cada.

Foto 33 – Jorge Jardim, graduado da Brigada Naval da Legião Portuguesa, e a sua filha Carmo, «madrinha» dos GEP

Grupos Especiais Paraquedistas (GEP) – unidades semelhantes aos grupos especiais, mas com treino de tropas paraquedistas, estavam organizados em 12 grupos de 70 homens cada

Grupos Especiais de Pisteiros de Combate (GEPC) – unidades treinadas especialmente para descobrir pistas e indícios que levassem à localização de terroristas.

A guerra que não resultou

O denominado «Curso de Paraquedismo GEP» nunca foi homologado como “Curso de Paraquedismo Militar”, tal com está definido no Decreto-Lei N.º 42075 de 31DEZ58. Apenas o RCP – e, sucessivamente, o Corpo de Tropas Paraquedistas (CTP); o Comando das Tropas Aerotransportadas (CTAT); e a Escola de Tropas Paraquedistas (ETP) da Brigada de Reação Rápida – se encontravam habilitados em Portugal a formar pessoal especializado em paraquedismo.

Na instrução do «CPGEP» verificou-se sempre a ausência de condições técnicas como, por exemplo, uma torre para treino das aterragens (tipo Torre Francesa) e das saídas (tipo Torre Americana). Raramente, ou nunca, era efetuado o tradicional «voo de adaptação» que antecede o primeiro salto em paraquedas. Qualquer designação homónima à das Tropas Paraquedistas Portuguesas carece de suporte legal.

Ainda segundo as mesmas fontes avalizadas na Wikipedia, apesar do contexto traçado, os GEP recebiam uma ”gratificação” paga pela Região Militar de Moçambique (RMM), e tinham direito a «abonos de subvenção de campanha independentemente de estarem ou não numa zona de intervenção». Além do mais, eram concedidas aos GEP «regalias» como: rápida promoção de Praça a Furriel e de Furriel a Alferes, após aprovação de uma proposta.

Os «vencimentos» comportavam também os seguintes quantitativos:

1) Furriel – igual ao vencimento de um Furriel paraquedista em zona de subvenção de campanha, acrescido de uma «gratificação especial» de 1.500$00, o que perfazia um total de 8.080$00 por mês, recebido quer em zona de100% ou de 50%;

2) Alferes – Igual ao vencimento de um Alferes em zona de subvenção de campanha, acrescido de uma gratificação de 2.000$00, o que perfazia um total de 11.185$00, recebido quer em zona de 100% ou de 50%.

3) As demais que o pessoal com o mesmo posto já auferia, como era o caso do «prémio por cabeça».

Na prática, espantável, graduar cabos em sargentos, sargentos em oficiais subalternos, e oficiais subalternos em capitães constituía o principal aliciante junto de militares dos quadros regulares para ingressar nos Grupos Especiais (GE). De resto, as “gratificações” que estes recebiam acabaram por ser estendidas aos GEP, suportadas pelas dotações da própria Região Militar de Moçambique e de acordo com o constante na alínea h) do número 2 da “Carta de Comando” do Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas da Colónia datada de 19 de novembro de 1970.

Os “oficiais brancos” – igualmente voluntários para não comprometer as Armas das tropas convencionais – podiam ser «destacados e organizar ações». Destes, há a referenciar a morte de um major, já em pleno período de cessar-fogo, durante o qual decorriam as negociações com a FRELIMO para aprovar a Declaração de Independência da República de Moçambique.

A concepção da guerra que um conjunto de elementos faz coincidir na defesa do chamado mapa colonial português – o “custe o que custar” e o “seja como for” –, já permitia visualizar a derrota, cada vez mais nítida. E o Governo em Lisboa cedeu então à tentação de recorrer à guerra suja, envergonhando principalmente os excelentes quadros de que dispunha no terreno e, sobretudo, os sucessivos contingentes de jovens milicianos obrigados, se fosse necessário, a morrer pela Pária. E mais de onze mil deram a vida numa guerra que «respeitava as convenções internacionais» mas, na verdade, praticava uma guerra aética e fratricida.

Estes homens, em conjunto, designados de forma algo absurda Grupos Especiais Paraquedistas – constituíram pequenas unidades de assalto criadas no papel  em meados de 1971 pelo novo Comandante-Chefe das Forças Armadas Portuguesas em Moçambique, General Kaulza de Arriaga. 

Foto 34 – «Gépês» estudam um exemplar de paraquedas.

Pela Portaria Nº 15671, de 26 de dezembro de 1955, tinha já sido criado o Batalhão de Caçadores Paraquedistas (BCP), e por iniciativa do mesmo oficial quando este desempenhava o cargo de Subsecretário de Estado da Aeronáutica. Mas os GEP nunca estiveram integrados nas Forças Armadas Portuguesas. Considerados voluntários, eram nativos da mesma etnia de onde eram arrebanhados. Submetidos, no Dondo, perto da cidade da Beira, a um treino supostamente semelhante ao dos verdadeiros Caçadores Paraquedistas, os GEP eram instalados em terrenos da Lusalite, de António Champalimaud, empresa administrada por um antigo membro do governo de Salazar, Jorge Jardim. Nunca executaram um salto em teatro de guerra.

Em finais dos anos 60, o ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, e o Chefe da PIDE, Inspetor Silva Pais, acordaram criar grupos de mercenários em Angola e em Moçambique que, atuando na sombra das tropas portuguesas, eliminassem as populações suspeitas de «apoiar o terrorismo». Ambos estavam convencidos do sucesso da ideia: selecionar e treinar nativos que abatessem membros da sua própria etnia. A instalação do “projeto” foi entregue a um operacional da PIDE, Óscar Cardoso, que em 1968 já tinha formado os “Flechas” nas Terras do Fim do Mundo, em Angola, e agora dispunha do apoio do chefe do governo da Rodésia, Ian Smith, do general Hendrik van der Bergh, diretor-geral do South African Bureau of State Security – BOSS, e de Kenneth Flower, diretor-geral do Rhodesian Central Intelligence Organisation – CIO. Os Selous Scouts, que nunca respeitaram as fronteiras com Moçambique, tinham enviado recentemente ao interior do distrito de Tete os comandos do seu Special Branch. As permanentes críticas de Salisbury ao «modo de atuar das tropas de Lisboa», corroboradas por uma África do Sul assustada com o «terrorismo ao pé da porta», estavam na origem de todas estas movimentações. Neste contexto, Cardoso fez as malas e partiu para Moçambique para criar mais “Flechas”. Apercebendo-se disto, o General Kaulza de Arriaga institui (em 1971) os seus flechas pessoais: os GEP. Mas não será isto que vai afastar Kaulza. O que promove o “despedimento” do general Comandante-Chefe da Região Militar de Moçambique é o Massacre de Wiriyamu. A guerra começa então a inclinar-se, de forma  inexorável, para o fim em janeiro de 1974, com o Massacre em Inhaminga. Em abril o Regime cai, em Lisboa. E todos os Grupos desaparecem.

Na sua despedida de África, no aeroporto de Nampula, os jornalistas perguntaram a Kaulza:

– Que balanço faz da sua Comissão?
Houve muito de positivo…
– O que é que falhou?
Os grupos especiais não resultaram...

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte Notícias da Guerra

Mais um dia de fake-news

Quarenta e cinco anos após o arriar da “bandeira das quinas” em Luanda, vale a pena refletir sobre alguns dados históricos na vasta matéria que é (ainda) a guerra que os portugueses fizeram em África na segunda metade do século 20.

Em 50 anos saltámos da Censura total para aquilo que uns designam hoje por “realidade ficcionada” – entre a recriação do que se passou / do que não se passou e a mentira rotunda. «Informação» com dados manipulados. Categóricos e perentórios, mas falsos.

Na década de 60, era mais fácil descobrir a ação do Lápis azul do que hoje detetar o trabalho das idóneas tecnologias eletrónicas. Mente-se e cria-se uma outra realidade. Os seus autores, de carne e osso, ou enquanto máquinas programadas, gozam de espantosa inimputabilidade.

As notícias falsas (fake news, em inglês), pequenas ou grandes, serão sempre… falsas. Esta indústria tem os seus especialistas que hoje já não se dedicam apenas a «notícias» mas invadem outros géneros jornalísticos – como a reportagem. Em 2019 foram denunciadas mais algumas, talvez as que registaram maior impacto, como foi o caso de um premiado jornalista da prestigiada revista alemã Der Spiegel.

(2) PELÉ
Capa da revista ilustrada O CRUZEIRO publicada no Rio de Janeiro (edição nº 25, de 23
de junho de 1971).

Este “repórter” deu, dir-se-ia, a volta ao mundo sem sair de casa. Criava cachas estrondosas – mas falsas. As fontes que Claas Relotius referia declararam nunca o ter visto ou falado ao telefone. Aos textos que produzia juntava fotografias que comprava, entre outros, ao New York Times. “Respeitadíssimo e muito admirado”, foi várias vezes contemplado «jornalista do ano» na Alemanha (Die Zeit, Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt, Der Spiegel). A inefável CNN atribuiu-lhe o seu troféu mais importante. Quando revelou que tudo o que escreveu era “inventado”, o diário castelhano EL PAÍS chamou-lhe “vigarista”.

«Unimog capota em Angola e faz uma baixa»

No período histórico da Guerra Colonial as fake news sobre as “províncias ultramarinas” eram editadas em Lisboa pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação – ou sucedâneos, como os «Centros de Informação e Turismo» montados em Angola e em Moçambique.

Na realidade (da Ditadura), se não havia guerra nenhuma, para quê notícias? As que, de quando em vez, viam a luz do dia – e não eram notícias falsas – apresentavam por sistema «meia dúzia de linhas» com nomes de alguns “falecimentos”. Contornar este quadro garantia sérios problemas.

Recordo aqui um camarada da mesma especialidade, mas pertencendo a uma mobilização anterior – portanto, mais velho, como se dizia – e que um dia entrou no meu Destacamento instalado dentro no Quartel General. Vinha apresentar-se pois tinha acabado de cumprir uma pena de prisão. Solicitava guia de marcha para a Metrópole. Porque estiveste preso? – perguntei. Resposta: De uma reportagem que fiz no mato enviei umas fotos para uns amigos no Brasil, que as fizeram chegar a uma famosa revista ilustrada. E eles publicaram… com o meu nome! Levei uma porrada que chegou agora ao fim. Quero ir para casa!

(1) spiegel
Claas Relotius no dia em que recebeu o troféu CNN como recompensa pela obra
publicada no Der Spiegel. Este semanário alemão, quando conseguiu desmascarar
(22.12.2018) a mais recente fraude jornalística da era das fake-news, escreveu na
capa: “Dizer, o que é. / Como um dos nossos repórteres falsificou as suas histórias, por
sua conta, e porque é que com elas se safou”.

Este foi um caso especial, é certo, mas enviar fotos, tão só, para as famílias esteve sempre debaixo de olho da PIDE/DGS, que também exercia funções nos postos do SPM – Serviço Postal Militar. Fotografias quase nunca chegavam ao destino.

Nas contas do prestigiado historiador francês René Pélissier, de 1974 até agora foram editados perto de 800 livros sobre a guerra colonial nos seus 13 anos de duração. A sua maioria é constituída por testemunhos pessoais, relatando ou comentando experiências que sofreram nas colunas, em emboscadas, da vida nas aldeias e nos aquartelamentos, ações de patrulhamento e outras. Mas também em ambientes de guerra aberta. De qualquer forma, o que ressalta sempre é a vontade de contar o que lhes aconteceu e, fatalmente, o que não lhes aconteceu. Viver sempre no meio do mato, permanentemente debaixo de fogo, são cenários que encheram e encheram e encheram aerogramas e cartas. Perguntei muitas vezes, a operacionais, se contavam a verdadeira guerra à família e aos amigos. Respondiam Não, com a cabeça.

«Ia eu na picada, e à minha frente saltam dois leões»

A distorção dos factos com a caneta era tanto mais «real» quanto maior fosse o grau de imaginação. O terror das balas do inimigo a rasar as orelhas ou a cortar o cabelo eram imagens obrigatórias nas missivas para a mãe, para a namorada ou para a esposa. Ficou famoso o caso daquele batalhão em Angola que, em meia comissão que cumpriu no Leste, sofreu 150 baixas! Após o 25 de Abril, o comandante dessa unidade desmentiu o número – que, afinal, se fixou em três mortos…

Em 2018, o Festival de Cinema de Cannes anunciou na sua «seleção oficial» de documentários um filme de animação baseado num livro escrito em Varsóvia sobre “acontecimentos” ocorridos em Angola no Verão de 1975. O seu autor era um espião que cumpria missões no chamado «mundo ocidental» sob a capa de «jornalista» ao serviço da agência de notícias polaca (PAP). O seu nome é Kapuscinski – e em finais de 1975 foi enviado a Luanda porque só ele possuía passaporte.

O livro «Mais um dia de vida», editado por ele próprio, foi traduzido para português vinte e um anos depois. Aí revela que os movimentos de libertação angolanos eram exércitos de guerrilha maltrapilhos, e que as ruas de capital estavam cheias de cadáveres. Instalou-se no Hotel Tivoli, em Luanda. Já nem cães havia nas ruas, onde os habitantes aconselhavam a matar todos os russos, húngaros e polacos (…) Por isso decidi ir para a linha da frente – concluiu.

(3) Largo da Mutamba
Foto 29 – Largo da Mutamba, em Luanda (1974).

De caneta e arma na mão – como referia a promoção do tal filme no cartaz de Lisboa – este agente polaco acabou por fugir do teatro de guerra onde, garante ele no seu livro, esteve um incontável número de vezes na iminência de ser fuzilado. Na despedida de Angola recebeu cumprimentos de figuras como Júlio de Almeida – o célebre Comandante Ju-Ju do MPLA – que lhe terá oferecido um livro de Basil Davidson, e do próprio Presidente Agostinho Neto, com quem conversou sobre poesia e a quem recitou poemas da “Sagrada Esperança” que ele sabia de cor.

É tudo mentira! – diz o Grande Repórter de Guerra português, Luís Alberto Ferreira, que foi o único jornalista a cobrir (para a RTP) todos os momentos históricos das batalhas em Angola com o exército da África do Sul, até à Declaração da Independência em Luanda. O polaco tinha encontrado a equipa da televisão portuguesa em Benguela, implorando que o salvassem dali para fora. Regressado à Europa, descreveu os jornalistas portugueses como mercenários, aliciados pelo “estatuto quanto mais filmassem mais dinheiro ganhariam…

                                                                                             Jorge Ribeiro

Testemunho de Luís Alberto Ferreira

O trabalhinho fraudatório de Ryszard Kapuscinski evidencia do próprio uma tocante ingenuidade. Alguns dos episódios por ele narrados em “Mais um dia de vida” constituem mentiras tão ridículas quão lastimosas. Um entre muitos exemplos: nos dias preambulares da proclamação da independência, “as ruas de Luanda cheias de cadáveres”. De bradar aos céus. Desde 8 de Novembro chovia torrencialmente na capital angolana. No aeroporto esmaecia, até, a agitação dos dias iniciais da “ponte aérea” para os retornados. E, em bairros tradicionais como a Vila Alice, a Vila Clotilde, as Ingombotas, a Maianga, as rotinas seguiam o seu curso normal. No hotel “Tivoli” não existia qualquer “dona Cartagena”, nome nunca escrito ou falado em Angola! A Rádio Nacional punha no ar, a cada passo, uma canção muito em voga, “Valódia”, exaltação magoada do comandante do mesmo nome, um homem das FAPLA-MPLA mortalmente baleado num recontro com o então chamado “Batalhão Chipenda”.

O “repórter” polaco, inteirado do que se supunha uma opção ideológica do MPLA de então, o “socialismo científico”, dava mostras de se sentir pouco à vontade nas suas diligências. Isso notou-se em Benguela, onde o conhecemos. Benguela, o “desastre” que torna “Mais um dia de vida” o eixo nevrálgico da enorme falácia que ajudou Kapuscinski a recolher prémios internacionais, a par da fama de inigualável “repórter”. Como se não bastassem os “repórteres de hotel”, denunciados em Portugal quando das invasões do Iraque e do Afeganistão, e muito antes, durante a Guerra Civil de Espanha, desmascarados por Hemingway. De facto, a praga dos “repórteres de hotel” é um fenómeno antigo…

(4) benguela
Foto 30 – Chegada à estação de comboios de Benguela (1975).

Em Agosto de 1975, na qualidade de enviados da RTP a Angola, estávamos em Benguela: eu próprio, jornalista, e os operadores de imagem Sebastião Fernandes e José Carvalho, e de som, João Barbosa. O comando da Frente-Centro das FAPLA, braço armado do MPLA, ali estava sediado. Jorge Morais, “Monti”, era o comandante. Eu e o comandante “Monti”, ambos nascidos em Luanda, conhecíamo-nos desde os tempos da escola primária. Daí a presteza com que a nossa equipa, a da RTP, obteve luz verde para uma incursão até à vila do Balombo, não longe de Benguela e palco de alguns recontros das FAPLA, que ocupavam a praça, com as forças da UNITA.

Hospedados em Benguela no hotel “Ombaca”, entretidos estávamos com o pequeno-almoço quando da nossa mesa se acercou um sujeito tímido, a expressar-se com dificuldade em português. Era Kapuscinski. Ele confessou-se “desamparado” e, pior, “receoso”, Benguela era favorável ao promissor MPLA da época e Kapuscinski admitia que as pessoas vissem nele um “espião”. Inteirado de que iríamos partir para o Balombo (com escolta chefiada pelo próprio “Monti”), rogou-me Kapuscinski que o admitíssemos na comitiva. “Monti”, ao vê-lo, interpelou-me: “Quem é esse tipo?”. As explicações que lhe dei não o convenceram de todo, mas “Monti” transigiu. Ele, o polaco, percebeu que a sua presença suscitava alguma “incomodidade”. Não havia visto “Monti” jamais. No entanto, no seu livro, Kapuscinski afirma ter estado, no dia anterior, “no gabinete de “Monti”. Descreve-o como sendo “um homem branco”, o que tão-pouco é verdade. Toda a narrativa da incursão no Balombo é um carrossel de mentiras e deturpações. Kapuscinski não trocou uma única palavra com Carlota Machado, sub-comandante das FAPLA, limitando-se a fotografá-la. O “repórter” Kapuscinski não esboçou sequer um passo na direcção de Pepetela, que comandava a base (no Balombo).

(5) civil-war
«A guerra civil rebentou em 1974» / «Luanda devastada pela guerra civil» – título e
legenda de foto em WebSite oficial da África do Sul.

Kapuscinski mente, em absoluto, ao sugerir que os operadores de imagem e som da RTP haviam resistido e recusado a ida àquela frente, sob a alegação de que todos tinham mulher e filhos e planeavam a “compra de casas para os fins-de-semana em Cascais”. Também a viagem para o Balombo e a morte de Carlota, numa escaramuça com a UNITA, duas horas, ou menos, após o nosso regresso a Benguela, são objecto de falsidades e deturpações que repugnam. Acontece que Carlota viajou para o Balombo, com outros combatentes, num jipe, enquanto nós e o polaco o fizemos a bordo de um automóvel conduzido pelo comandante “Monti”. O polaco guardou gélido silêncio ao longo da deslocação. Grosseira invenção, a cena do “convite” de Fernandes: “Carlota, venha aqui para o banco de trás sentar-se sobre os nossos joelhos!”. Carlota não estava sequer a bordo do automóvel, nem “Monti” estava para brincadeiras. Os momentos que se viviam eram de grande tensão, Carlota disse à RTP que a independência de Angola lhe permitiria, na qualidade de enfermeira, e prestes a casar-se, ser útil deveras ao seu país. Nenhum elemento da RTP iria, pois, sugerir-lhe “venha connosco para Lisboa!”. O infortúnio ético do “repórter” Kapuscinski agudiza-se, de forma quase exasperante, no relato que ele faz das circunstâncias em que, de novo em Benguela, soubemos da trágica morte da sub-comandante Carlota Machado. A jovem não morreu em combate, foi vítima de uma cambalhota do jipe que ela conduzia quando se iniciou a fuzilaria. Estávamos, os quatro, com o polaco, no interior e não “numa esplanada” do restaurante onde, sugere o mentiroso, fruíamos a “aragem”. Kapuscinski relata a chegada abrupta de “um soldado negro”, feições abrutalhadas, que se nos dirige, ofegante, para anunciar: “Carlota morreu em combate no Balombo”. Pura mascarada. Quem, serenamente, entrou no restaurante e perguntou se teríamos já conhecimento da morte de Carlota foi um amigo meu, o enfermeiro luandense Frugiere dos Santos, na altura a viver em Benguela. Kapuscinski tão-pouco esteve no aeroporto quando partimos para Luanda, onde, segundo ele, “as ruas estavam pejadas de cadáveres”… No seu livro, ele reporta-se ao avião que me transportava, desaparecendo, ao longe, perdido nas nuvens. Com ele a cismar. Um fraudador que ousou considerar “Mais um dia de vida” obra de pura reportagem inspirada na veracidade factual.

                                                 Luís Alberto Ferreira – Lisboa, Janeiro 2020

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De Ceuta a Macau foram seis séculos

O Conselho Português Para a Paz e Cooperação – CPPC promoveu nesta data no Porto (Palacete Viscondes de Balsemão) uma sessão pública para evocar «45 anos da Revolução de Abril e o fim do Colonialismo português». Notícias da Guerra reproduz aqui a intervenção de Jorge Ribeiro.
Quando chegamos ao Brasil, em 1500,
Portugal não ultrapassava um milhão de habitantes.

A perda de preeminência no Oriente e a declaração de independência do Brasil abalaram Lisboa para sempre. O propalado poder de Portugal no mundo foi definhando. Mas só em 1951 o chamado Império Colonial Português foi abolido nos livros. O Estado Novo ainda batizou o que restava como Províncias Ultramarinas. Mas a era das descolonizações já tinha começado.
Na Conferencia de Berlim em 1884-85, onde se desenhou África a régua e esquadro, Portugal apresentara-se a defender as suas propostas e pretensões com base no «Direito Histórico», isto é, por termos sido «os primeiros a chegar às terras». Nesta conferência, dominada pelos interesses comerciais, o fake rei Leopoldo consegue autorização para construir o chamado “Congo Belga” ignorando os interesses de Portugal. E o patrão da Conferencia, o prussiano Bismark, por pressão do primeiro-ministro inglês, Lord Salisbury, rejeitou o plano de Portugal para materializar o mapa-cor-de-rosa.
Ato Colonial, Ditadura Militar, Estado Novo, morte de Salazar e os militares dão um golpe de estado com navegação à vista, sem apoios internacionais, planeamento em prol de reivindicações castrenses prontamente reequacionadas em favor de valores mais profundos: queda do regime fascista e implantação da democracia. O fim do colonialismo não entrou em cena ao mesmo tempo.

FOTO 25
Foto 25 – Nós não vimos nada em África…

Os novos lideres militares não estão isentos de contradições de classe: os que despoletaram a liberdade são os mesmos que fizeram a guerra. Então, e as colónias? Consequências e custos, planos had-hoc para tudo, calendário extemporâneo do MFA, impreparação geral para as novas situações, intervenção da banca estrangeira, reações dos idos de abril. Então e os territórios ultramarinos? É este o lado errado da revolução: não encerrou o assunto e não o resolveu.
O colonialismo português durou seis séculos, de 1415 (ocupação de Ceuta) até 1999 (hand over de Macau). Os portugueses desenvolveram a cartografia, as tecnologias navais, a astromia e outras ciencias. E provaram que o mundo é redondo. A presença portuguesa, durante todo esse tempo espalhou-se por 53 países (pelo traçado atual). Sempre de armas na mão, que era a linguagem que fazia a diferença. Só com a Holanda estivemos em guerra durante 75 anos (1588 – 1663).
Agora andamos há 60 anos a esconder a guerra que fizemos nas colónias. Isto, apesar de que, no cair do pano em 1974, todas as famílias portuguesas integravam alguém que esteve na guerra. Que ficou ferido. Que contraiu doença. Que morreu. Ainda hoje se manipulam ou censuram os resultados do desastre coletivo que constituiu a Guerra Colonial do século 20.
O preço do nosso colonialismo – chegados ao 25 de abril – passa por um milhão e meio de emigrantes, 40% de analfabetos numa população com pouco mais de 8 milhões habitantes. E a fatura mais pesada: 10.500 mortos, mais de 40.000 estropiados e 230.000 (140 mil combatentes, mais 80 mil mulheres que os esperavam) sofrendo de Síndrome Pós-Traumático do Stresse de Guerra. Em apenas duas gerações, os portugueses já apresentam muita dificuldade em falar sobre esta Guerra Colonial. Experimentamos dois dos piores sentimentos: perda (pessoal e coletiva) e vergonha.
A importância e o peso da Guerra Colonial, a forma como caiu o Império, as derrotas militares e as pesadas consequências com que a sociedade foi castigada não permitiram, durante muito tempo, avaliar estragos. Até que chegamos ao perverso desabafo «Isso agora já não interessa. Já passou!»
O Canal televisivo «História» prova diariamente, desde há anos, que os americanos ganharam a II Guerra Mundial e também a Guerra no Vietname.

FOTO 26
Foto 26 – Como foi tratada a grande maioria dos retornados?

O sistemático apagamento da guerra portuguesa na nossa opinião pública, e o seu significado para os países descolonizados, atrasam e impedem a análise da violência, da opressão, da escravatura, do racismo. Sempre se disse que o colonialismo português era benigno. E eram famosos os nossos mui estimados «brandos costumes». Portugal, que chegou a liderar a História, acabou por chegar atrasado aos seus encontros com ela.
Perante o isolamento externo de Portugal, este “país de marinheiros” recusava a inviabilidade da guerra e a inevitabilidade do seu fim. Em 1972, o presidente americano Richard Nixon propôs a Marcelo Caetano a seguinte «solução»: 1. Abandonar a Guiné. 2. Vietnamizar Moçambique – isto é, damos o norte e ficamos com o sul. 3. Quanto a Angola: é nossa! – como se ouvia pelo coro e orquestra da Emissora Nacional no encerramento dos Serões para Trabalhadores organizados pela Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho.
O Colonialismo chegou ao fim, acabou. Mas, como escreveu Joaquim Chissano, «Não foi Portugal que descolonizou. Foram os africanos que lutaram pelas independências».

Jorge Ribeiro

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra