S. João Batista D’Ajudá

Artigo de José Capela, investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto – CEAUP, publicado na revista científica internacional AFRICANA STUDIA, edição nº 21 / 2º Semestre 2013, páginas 159 / 161 – Faculdade de Letras do Porto

Peça impressionista, esta obra de Jorge Ribeiro exibe o condão raro de embalar e circunscrever uma etiologia daquilo que foi a colonização portuguesa, fazendo-o a partir da forma como se processou o desmantelamento de um dos marcos físicos mais representativos da sua história, a saber: a Fortaleza de S. João Baptista D’Ajudá, o «Enclave», à sombra de cujas muralhas se haviam abrigado não apenas os traficantes de pessoas como os mesmos escravos na iminência do embarque. Bem à vista, a pequenez dos agentes coloniais em função no local, tudo materialmente reduzido a cinzas pelas chamas lançadas sobre o edifício, em sintonia temporal e física com o desmoronamento do todo colonial.

Se, de um ponto de vista de competência em que preponderava a perspectiva comercial a longo prazo, exponencialmente afirmada e com o maior êxito praticada, conforme testemunham os marcos arquitectónicos portugueses implantados desde o extremo oriente ao extremo ocidente, a leitura aqui exaltada, por antonomásia, tem o condão de nos remeter para a pequenez em que tudo acabou. Sem desmerecer do que foi a razão de templo edificado à eficiência da prática do tráfico de escravos, este o grande suporte da colonização então em curso. O que o reveste de particular afirmação do carácter essencial de elemento vital na mesma colonização. Testemunho levado até ao fim. O abandono da fortaleza pelos Portugueses, com atitudes de comicidade patética, leit motiv para a explanação do que foi e do que representou o Enclave.

Se a tragédia das guerras que puseram fim ao estado colonial encerra em si mesma não apenas um marco histórico mas, por igual, define um tempo e um espaço em que as pessoas envolvidas ultrapassam as suas capacidades de acomodação e se deixam subverter pela irracionalidade, então, não menos que perante o confronto físico, estamos face ao choque visceral entre mundividências cujo carácter ontológico se situava em posições frontalmente opostas.

Em tal contexto, não correspondendo a uma colónia propriamente dita, uma vez que se reduzia a fortaleza implantada na costa atlântica, espaço de soberanias clânicas e estas não menos interessadas no tráfico de escravos do que os Portugueses, por isso mesmo Ajudá terá figurado, pela concentração física e simbólica, lugar privilegiado de expressão de um tipo de colonização cuja marca substantiva se terá fixado nesse mesmo tráfico. O que de um ponto de vista histórico (não apenas historiográfico) se expressou na Fortaleza, isolada na dimensão de edifício sem outra valia mais do que a do armazenamento da mercadoria aguardando embarque. Nem sequer se tendo revestido dos enobrecimentos prestados por terreno onde se hajam desenvolvido feitos bélicos de dimensão histórica.

Não pouca evidência universal foi emprestada a São João Baptista de Ajudá pelo famigerado traficante de escravos, Francisco Félix de Souza, que aí se terá instalado em princípios do século XIX, governador intermitente da fortaleza, inspirador de uma bibliografia de carácter mais literário do que propriamente historiográfico. Sem se demitir do rigor do percurso bibliográfico aí se distingue Francisco Félix de Sousa, Mercador de Escravos publicado em 2004 por Alberto Costa e Silva. Figura de aventura levada a extremo, aspiração de escrita desde a adolescência do autor, não desdenhando botar mão da conjectura, nem por isso deixa de figurar convincentemente o exportador de escravos e o ambiente em que actuou. Tudo girando à volta do mesmo tráfico.

A historiografia já calculou as quantidades homéricas atingidas pela transumância humana a partir daí lançada ao percurso do Atlântico. Mas para além da contabilidade estatística ficaram por circunscrever os quotidianos susceptíveis de matizarem panoramas alargados dos grandes acontecimentos históricos. É o que Jorge Ribeiro contempla com aticismo de antologia. Nomeadamente aquele expresso na displicência mesquinha com que os agentes portugueses, quer em Lisboa quer no local, se confrontaram, primeiro com a decadência, depois com o desmoronamento de marco historicamente tão importante da colonização portuguesa como foi esse na costa atlântica: «Até ministros haverá que desconhecem a singularidade de um padrão com estatuto simbólico tão marcante na civilização […]». É Portugal a despedir-se dos seus padrões em África, pela boca do «Representante do Império», agora e simplesmente «Residente». A segunda figura do enclave, o Secretário. Governador é o de S. Tomé. Figuração histórica desconcertante a presença do Residente e do Secretário na Embaixada de França, no dia seguinte ao Catorze Juillet. Desde o 10 de Junho o representante do Império não mais passara a porta de armas. «Para ele, o corredor dos escravos continua repleto, ad aeternum, filas e filas de desgraçados para meditação e registo».

«O Dia da Raça de 1961 em Ajudá mistura insegurança, apreensão, dúvida, medo, solidão e terror, um pouco de cada um e de todos os sentimentos já experimentados nesta praça, dia após dia, ano após ano – e o que se afigura inacreditável – século após século».

Muito bem salientada a missão da Fortaleza na presença e domínio do Português no mundo: «São a sua grandeza e a sua civilização. Com as fortalezas, os Portugueses continuam a imprimir a sua identidade, a desafiar o tempo, a distância e as diferenças de cultura. Não é preciso falar, basta contemplar o que os navegadores trouxeram e construíram».

Finalmente estão à porta militares com edital do governo do Daomé para tomarem conta da Fortaleza. De harmonia com instruções recebidas de Lisboa, o Residente incendeia a Fortaleza, após o que exige a cerimónia do arrear da bandeira Portuguesa.

De alguma maneira, não se tratando de colónia, exclusivamente de armazém aduaneiro de escravos, eficaz na execução de sua incumbência imediata, suscitadora de pruridos nacionalistas levados ao extremo de desesperos individuais e de uma forma de abandono sem qualquer outro tipo de dignidade por parte do até então ocupante mais do que o despejo de uns tantos tambores de gasolina incendiária sobre o imóvel.

O autor, que visitou os locais, pôde aperceber-se de forma se não íntima pelo menos muito próxima, do estertor que foi o do abandono forçado dessa marca da colonização portuguesa. Dada a ficção cultivada pelo Estado Novo da bondade dessa mesma colonização, em contraste com os restantes abandonos, este foi o reduto imaginário, provavelmente mais apregoado do que acreditado, que se poderia manter, presença meramente física que fosse, para além do termo da colonização. Nada restou.

Este Ajudá tem o condão de se fixar no momento em que tudo se desmoronou. Detalhes porventura ficcionistas enriquecem o imaginário pobre e medíocre dos ocupantes do castelo nos tempos imediatamente antecedentes ao seu fim, assim matizando quanto sofria de mesquinhez a representação de Portugal.

José Capela

JR na Porte du non-retour
FOTO 9 – Jorge Ribeiro em Ajudá / Ouidah ao lado do “táxi local” onde se deslocou à Porte du non-retour – monumento que evoca o local onde os portugueses embarcavam os escravos para o Brasil – 2003 ©Notícias da Guerra.

 

Velório do Império em Ajudá

Apresentação do livro “S. João Batista d’Ajudá” pelo jornalista João Paulo Guerra

|Esta sessão é também uma| Evocação de uma velha amizade e de alguns focos de interesse partilhados: a experiência da guerra colonial em Moçambique, a pesquisa sobre questões do colonialismo e da guerra colonial, o desafio de penetrar em muitos séculos de história – de Portugal e de outros países e territórios. Dos outros livros do Jorge Ribeiro destaco sempre as Marcas da Guerra Colonial, um livro que mereceu uma recomendação de leitura por parte de René Pélissier, historiador francês e uma autoridade mundial em questões de estudo e divulgação da história de África e do colonialismo. Escreveu Pélissier, sobre Marcas da Guerra Colonial, de Jorge Ribeiro: “Um livro que se aconselha aos jovens leitores para os ajudar a combater os velhos demónios portugueses.” In Análise Social, vol. XXXV (154-155), 2000, 407-427.

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FOTO 3 – Praça de Armas no Forte de Ajudá – 2001 © Notícias da Guerra

Combater os velhos demónios foi um grande lapso da democracia portuguesa: desmistificar os demónios da guerra, as questões dos massacres, os aspetos mais medonhos de uma história que em grande parte ficaria por contar se não fosse alguns autores, entre os quais está o Jorge Ribeiro, e se podem também assinalar historiadores militares, como Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, ou cronistas que usaram meios audiovisuais para fazer a crónica do sistema e da guerra, como é o da exaustiva pesquisa de Joaquim Furtado, na série A Guerra. E o próprio Jorge Ribeiro, na rádio.

Este livro do Jorge Ribeiro é um valioso documento pesquisado por um jornalista que assume a forma de uma narrativa ficcionada. Trata-se de um romance histórico, no sentido em que é uma obra romanesca construída sobre uma investigação histórica. A ficção contribui para caracterizar melhor a situação e o destino histórico do território de São João Batista de Ajudá, enclave administrado por Portugal no território do antigo Daomé, colónia francesa desde 1892, independente desde 1960, atual República do Benin.

Devo dizer que – em meu entender- que a expressão: administrado por Portugal, é demasiado pomposa para a situação do Enclave. Os navegadores portugueses conheciam e frequentavam a região desde o século XV; mas foi no final do século XVII que foi decidido construir a Fortaleza na cidade de Ouidá para proteger os embarques de escravos.

A Fortaleza foi chamada de São João Batista de Ajudá, ou simplesmente Ajudá. Os mitos da missão de civilização e da propagação da fé caíam pela base logo no batismo das intenções e dos interesses dos colonizadores. Não ficou para a História nenhuma Costa da Fé, nem nenhum Golfo da Civilização Cristã e Ocidental. A costa ocidental africana, por exemplo, foi sendo muito pragmaticamente conhecida por diferentes designações, consoante os produtos preponderantes do tráfico local: costa da malagueta, costa do grão, costa do ouro, costa do marfim, costa dos escravos.

A Fortaleza teve importância estratégica para o tráfico de escravos, enquanto este durou. O trabalho forçado, modalidade de escravatura que perdurou nas colónias sob administração portuguesa após a abolição da escravatura, não precisava de um entreposto. Mas Ajudá, sendo formalmente uma possessão portuguesa – termo que se usou, oficialmente, em determinada fase da história: possessão – nunca foi propriamente administrada pelos portugueses, no sentido de que ali foi exercida a administração.

Ajudá era um entreposto, ou um aposto ou continuado, um anexo, um apenso, da administração de São Tomé e Príncipe que, apesar do cacau, também ela própria era uma colónia de segundo grau na hierarquia e nas preocupações do império, exceto quando os santomenses se rebelaram, em Batepá. Aí, o orgulho ou o gorgulho do império despertou e reprimiu.

O romance de Jorge Ribeiro ilustra muito bem esta ausência portuguesa presente em Ajudá. Uma ausência presente, onde os criados dos funcionários portugueses falam entre si francês – a língua do colonizador do Daomé – ou em português afrancesado, praticam a cuisine française e seguem o vudu dos retornados do Brasil, isto é, dos escravos que ganharam a alforria no Novo Continente e retornaram à Mãe África: nem a língua nem a religião deixaram marcas consideráveis naquele ponto do mapa. Pode mesmo admitir-se que a língua e a cultura portuguesas teriam mais influência no Daomé que na Feitoria. E o ponto do mapa era mesmo um ponto. Ponto final: a guarnição militar da Fortaleza veio a ser substituída por dois funcionários coloniais perdidos na escala hierárquica do sistema.

O governador-capitão-intendente -residente – tinha muitos títulos para disfarçar o facto de não ter nenhum – e o respetivo secretário – ambos despachados para aquela insignificância do império na sequência de pequenos problemas disciplinares -, mais as primeiras damas e o pessoal doméstico, constituem o elenco do romance de Jorge Ribeiro.

O Secretário não é uma figura menor deste enredo. É até uma figura bem curiosa e muito bem trabalhada que, de algum modo, se contrapõe ao colonialista empedernido que é o governador – capitão – intendente – residente. Mas é uma figura-tipo de um figurino que existiu no pronto-a-vestir do colonialismo. Ele defende as posições ditas moderadas que a oposição tradicional republicana preconizara para a saída do beco colonial. Um “colonialismo honrado e progressivo”, como defendia, em 1958, o Dr. Cunha Leal, que chegou a ser candidato à Presidência apoiado pelo PCP. Aliás, o candidato que veio a arrastar consigo toda a oposição, o general Humberto Delgado, não andava, por essa altura, longe das emoções e conceitos de Cunha Leal ou de Norton de Matos quanto à «Nação Una» do Minho a Timor.

O Intendente que ocupou o cargo máximo da hierarquia portuguesa em São João Batista de Ajudá até 1 de Agosto de 1961 chamava-se António Agostinho Saraiva Borges; o do romance dá pelo nome de Bernardo Augusto Serras Correia. É este homem que, a certa altura do enredo, vai ter que tomar uma decisão. Ou aceitar uma decisão que alguém tome por ele. E cumprir ordens. Foi o que aconteceu.

Como disse, São João Batista de Ajudá – ou simplesmente Ajudá – era um ponto no mapa, quanto mais não fosse para que o aprendêssemos na escola, no rosário de glórias e grandezas do Império. E quando os ventos da história mudaram, Ajudá não mereceu qualquer atenção, cuidado ou esforço imperial. Não valia a pena: já não havia tráfico de escravos e o comércio da malagueta tinha sido revisto em baixa. Aliás, apesar do regime propagandear que defendia o chamado Ultramar por razões de princípios, de História e de razão, houve quem defendesse que a própria Guiné-Bissau não justificava o esforço de guerra – que para além de dispendioso corria muito mal do ponto de vista militar. Estava-se, no primeiro trimestre de 1974, à beira da derrota militar.

O general Kaulza de Arriaga, um cabo-de-guerra que nos últimos anos do regime aspirava comandar em simultâneo as tropas de Moçambique e Angola – um mapa cor-de-rosa sem hinterland – disse-me, numa entrevista, que a questão essencial para o regime era a de manter esses dois territórios, Angola e Moçambique. Acrescentando: Lá perder-se a Guiné, enfim… Mas não tinha grande importância.

Quando o edital do Governo do Daomé deu por extinto o prazo concedido por ultimato em 1960, para que Portugal abandonasse a Fortaleza, o Intendente não aceitou o conselho de um refugiado angolano, ancorado no Enclave…

… Fique na história senhor governador, dê um abraço aos pretos…

Posto perante a responsabilidade de decidir, o Residente resolveu o assunto da forma mais simplista, garantida que estava a impunidade e a cobertura da fuga: A história da administração portuguesa do enclave de S. João Batista de Ajudá terminou em fogo posto, um ato previsto e punido pelo Código Penal. Despejados os jerricãs… em poucos minutos o incêndio alastra a todo o palácio… o altar da igreja também é pasto das chamas (pág 188). Salazar e Thomaz estão pregados na parede…

A pesquisa do jornalista Jorge Ribeiro acrescenta em extratexto ao romance uma nota da Agência Geral do Ultramar segundo a qual os funcionários da Residência de Ajudá receberam instruções do ministro do Ultramar – que cumpriram inteiramente – procedendo à destruição, por meio de incêndio, do edifício da Fortaleza e anexos. Já na vigência da democracia, Portugal pagou o restauro do Forte, onde ficou instalado um Museu. O Jorge Ribeiro é que conhece Ajudá.

Li a pesquisa e o romance de Jorge Ribeiro e encontrei duas excelentes definições que o autor dá a uma situação e aos protagonistas desta obra e deste episódio da História: o autor designa os protagonistas por «náufragos do império»; e define todo este desfecho de um episódio colonial por «velório»: «velório por Ajudá…» Só Dona Geninha cortou o ensaio de velório por Ajudá com uma súbita chamada de atenção à governanta e cozinheira. – Assiba, como é que deixaste entrar tantas moscas cá para dentro? Pág 166

O império às moscas, num final de opereta.

A narrativa de Jorge Ribeiro – onde a ficção é sempre cotejada com a história – é uma desmontagem muito perspicaz, por vezes irónica, do melancólico fim do império em São João Batista de Ajudá: um velório. E este episódio tem um contexto: a África das independências, das guerras pela independência, das guerras coloniais, o contexto também das golpadas separatistas – como era então emergente o caso do Biafra, no qual o regime colonial iria desempenhar ativo papel, usando a placa giratória de São Tomé e, de algum modo, o apeadeiro de Ajudá.

O contexto, enfim, do estertor sangrento do colonialismo, das suas galerias de fantasmas e de horrores: Batepá, em São Tomé, Pidjiguiti na Guiné, Planalto de Mueda em Moçambique, Baixa do Cassange, em Angola… E depois Wiryamu, centenas de Wiryamus… E no entanto, por essa altura, a francesa Christine Garnier voltava a Lisboa, depois de umas romanceadas Férias com Salazar, dessa segunda vez para férias a convite do almirante Sarmento Rodrigues – a francesa era muito dada ao gozo de férias -, e escrevia: «Toda a gente sabe que a dominação portuguesa foi sempre exercida com doçura…» O que confirma que já naqueles tempos não havia férias grátis…

Condenado às chamas, ao fogo, o Império, na sua projeção no ponto do mapa que era São João Batista de Ajudá, apaga-se antes mesmo que a Fortaleza arda. Mas alguma coisa renasce das cinzas.

O enredo continua, com a geração seguinte, Leninha e Dédé – que leio sempre como um sucedâneo do Zequinha e da Lelé das comédias portuguesas. Um escrivão da Fortaleza, durante o século XIX, de nome Francisco Félix de Sousa, espalhou Sousas pela costa ocidental do continente africano e em particular pelo Benin – porque, aliás, esse era um dos desígnios da colonização portuguesa: espalhar a fé, o império e os Sousas.

E o romance do Jorge Ribeiro, demostrando que a proliferação dos Sousas também pode acontecer em sentido inverso, não termina, antes segue em próximo episódio, para além da chaise longue no Palácio de Ajuda.

Leiam e deem a ler este livro. Este livro diz-nos respeito.

Lisboa, Livraria Bulhosa,7 de Novembro de 2013

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