Mueda foi a capital do pesadelo português

“Eu li CAPITAL MUEDA há décadas.
Para esta edição redigi um prefácio.”
René Pélissier

Igreja de Nangololo
Foto 28 – Panorâmica do aquartelamento de Nangololo, no Planalto dos Macondes

En tant qu’historien et bibliographe de l’antigo Ultramar, j’ai lu au minimum trois centaines de livres lusographes sur les combats des Portugais pour s’emparer de leurs colonies en Afrique continentale et les conserver. Cela devrait suffire à invalider définitivement le «roman historique» que les élites métropolitaines avaient construit  pour montrer contre toute vrai semblance que leur colonisation était «unique» car elle avait résisté depuis «cinq siècles», avec l’assentiment des colonisés eux-mêmes.

Parmi ce corpus de plaidoyers et des mémoires, cette para-littérature de guerre récent portant sur le Nord-Mozambique entre 1964-1974 occupe quantativement une place privilégiée. Qualitativement, c’est une autre affaire, mais les historiens n’existent pas pour donner des satisfecit à tel ou tel auteur, ce qui ne les empêche pas de dire en quoi tel ou tel livre est important, malgré l’insignifiance de son sujet.

Capital Mueda est de ceux-là, car il s’agit bien d’un simple reportage de la fin de l’ère coloniale sur une petite opération – la réouverture de la picada (pas même 30km) reliant Mueda au poste de Nangololo – il faudra 8 jours en février 1973 à un convoi d’une centaine de soldats pour franchir les mines, les embuscades et l’exubérance de la végétation. Bilan : 5 morts à aller !

Certes, c’était dans le secteur le plus difficile di Plateau des Macondes, ethnie belliqueuse et xénophobe qui n’avait été conquise (partiellement) qu’en 1917 et que, 50 ans plus tard, bénéficiait de l’appui du FRELIMO et de la proximité de la frontière. Ces 8 jours de progression dans le cauchemar portugais montrent l’inanité des thèses de certains officiers supérieurs qui soutenaient – et soutiennent encore parfois – qu’ils avaient la situation bien en main au Cabo Delgado. Oui, il n’y avait pas de zones complètement interdites aux colonnes, mais s’il fallait perdre 5 morts (plus les blessés) pour circuler sur moins de 30 km, au bout de 9-10 ans de troubles, pour faire croire à une métropole pauvre et sous-peuplée que la guerre était gagné, c’était se tromper soi-même.

Ce texte mériterait une traduction pour que tous les lecteurs potentiels s’en convainquent.

Prefácio (tradução)

Enquanto historiador e bibliógrafo do “Antigo Ultramar”, eu li pelo menos três centenas de livros de lusófonos sobre os combates dos Portugueses para desfrutar das suas colónias na África continental e mantê-las. Isto deveria ser o suficiente para invalidar definitivamente o «romance histórico» que as elites metropolitanas tinham construído para mostrar contra toda a verosimilhança que a sua colonização era “única” porque tinha resistido durante «cinco séculos», com o consentimento dos próprios colonizados.

Entre corpus de alegações e de memórias, esta recente para-literatura sobre o Norte de Moçambique entre 1964-1974 ocupa quantitativamente um lugar privilegiado. Qualitativamente, essa é outra questão, mas os historiadores não existem para dar satisfecit a este ou àquele autor, o que não os impede de dizer que este ou aquele livro é importante, mesmo que o assunto seja insignificante.

Capital Mueda é um deles, porque é de facto uma simples reportagem do fim da era colonial sobre uma pequena operação – a reabertura da picada (nem mesmo 30 kms) ligando Mueda ao posto de Nangololo – que vai durar oito dias em fevereiro de 1973, numa coluna com uma centena de soldados que vão desativar minas, sofrendo emboscadas, por entre uma vegetação exuberante. Resultado: uns 5 mortos só na ida!

Este foi certamente o setor mais difícil do Planalto dos Macondes, etnia propensa à guerra e xenófoba que tinha sido conquistada (em parte) em 1917 e, 50 anos mais tarde, beneficiou do apoio da FRELIMO e da proximidade da fronteira. Estes 8 dias de progressão no pesadelo português revelam a inanidade das teses de alguns oficiais superiores que apoiaram – e, por vezes, ainda apoiam – a ideia de que tinham a situação sob controlo em Cabo Delgado. Sim, não havia zonas completamente interditas às colunas, mas se fosse necessário sofrer 5 mortos (mais os feridos) para percorrer menos de 30 km, ao cabo de 9-10 anos de dificuldades, para fazer acreditar uma Metrópole, pobre e pouco povoada, de que a guerra estava ganha, isso era enganar-se a si próprios.

Este livro merece uma tradução para que todos os leitores potenciais se convençam disso.

René Pélissier   Orgeval (France), 17 de maio de 2017

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