A guerra no tempo em que estes pivots não eram nascidos

As doenças contraídas pelas tropas portuguesas durante a Guerra Colonial podem ser divididas em três grupos: Infecciosas e parasitárias; Ortotraumatológicas; e Neuropsiquiátricas. Notícias da Guerra socorre-se aqui do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL (1ª edição em abril de 1995) no seu capítulo «As doenças na guerra» (páginas 45 a 64).

Nesta altura (2020) em que o país e o mundo sofrem efeitos do vírus “Covid-19”, em pandemia, e a imaginação dos apresentadores de telejornal não lhes permitiu melhor caraterização deste assunto que não seja o uso constante da palavra «guerra», cabem aqui algumas linhas sobre esse fenómeno histórico: as doenças colhidas e sofridas em África. Onde a palavra guerra teve a sua aplicação apropriada. Com o devido respeito pela terrível dimensão da presente virose e os seus nefastos resultados, nunca é demais evocar a Guerra Colonial onde gerações inteiras sofreram inúmeras doenças, entre 1960 e 1974. Foi um período muito mau, afetando, pesadamente, várias gerações, que os mais novos, hoje, quando pretendem classificar uma situação terrível – como a presente virose e os seus efeitos – utilizam esse termo de triste memória para os mais velhos: guerra.

O Paludismo (Malária, na sua designação médica) foi a doença mais frequente na vida dos militares na chamada «África Portuguesa» ao longo de todos aqueles anos. Qualquer um podia contrair a doença através da picada do mosquito e em qualquer altura da Comissão de Serviço. Há vários tipos de malária, conforme a área geográfica: África é quase exclusiva da malária ovale, mas também se pode ser atacado por malária falciparum. Esta tem um período de incubação de 1 a 3 semanas (média 12 dias). Uma e outra, na sua forma mais grave, podem conduzir à morte do paciente.

Curiosamente, Portugal tinha erradicado o paludismo nos Anos 50. Até essa altura, onde houvesse plantação de arroz e, principalmente, onde se registassem altas temperaturas, “rebentavam” aquilo a que o povo chamava «sezões», acessos de paludismo – que também se verificavam em pleno Alto Douro. Durante a Guerra em África, a malária podia ser tratada no mato, não obrigando necessariamente a uma evacuação para o hospital do sector. A quimioprofilaxia antimalária era, por regulamento, obrigatória. Quarenta e um graus de febre durante três a quatro dias, conduziam a uma recuperação muito lenta: 7 dias, na melhor hipótese. Dores de cabeça, náuseas, vómitos, calafrios e dores musculares eram os sintomas mais frequentes. Naquele tempo, o paludismo por Plasmodium foi responsável por elevado número de mortes por todo o continente africano e, na maioria dos casos, sempre que ocorria obstrução de vasos sanguíneos no cérebro. Numa fase posterior os médicos detetaram resistência à resoquina (cloroquina, princípio ativo dos comprimidos receitados, pelo menos, duas vezes por semana).

A malária e os exércitos têm uma história comum. Alexandre, o Grande foi morto aos 33 anos por esta doença. Napoleão disseminou, com êxito, mosquitos na Holanda e na Inglaterra. Em 1895, os franceses invadiram Madagascar registando apenas 13 baixas em combate mais 4.000 mortos por malária. Da Guerra Colonial que Portugal fez em África não são conhecidos dados de saúde credíveis nesta matéria. Nas colónias portuguesas havia zonas em que os combatentes dormiam vestidos, tentando proteger-se do mosquito, na melhor maneira possível, já que não estava prevista a distribuição de mosquiteiros. Desconhecem-se quaisquer «números oficiais» de vítimas portuguesas. Os medicamentos utilizados na altura não eram eficazes. No fim da década de 70, a OMS estimava que cerca de 200 milhões de pessoas estariam expostas à doença e, anualmente, cerca de 500 mil morriam – incluindo crianças com menos de cinco anos.

Da bisnaga antivenérea à febre “quebra ossos”

No primeiro patamar de doenças que atingiram os portugueses em África – militares e colonos – as sexualmente transmissíveis também se destacaram pela gravidade e dimensão. Para além da falta de educação sexual dos nossos jovens, vítimas de um ensino puritano e hipócrita nos costumes, a estrutura militar limitava-se a fornecer, se solicitada para tal, uma estranha «bisnaga antivenérea». Era uma pomada gorda sem qualquer grau de eficácia e de que os próprios médicos desconheciam a composição.

Já naquele tempo ocorriam situações de gonorreia que eram resistentes à penicilina. Não tratado, o “cavalo” (na gíria) provocava um rosário de complicações que podiam chegar à ablação dos órgãos genitais. No capítulo das doenças venéreas destaca-se, mais uma vez, a escassez, se não mesmo a ausência de dados oficiais. Para este estado não deixava de contribuir uma parte considerável de militares que escondiam as doenças. No regresso a casa, quem queria confessar: «Eu trago uma doença»?

A febre amarela, também provocada por um vírus transmitido por mosquito, originava doenças muito graves, por vezes mortais. Em Angola, para além das terríveis febres hemorrágicas, ficou na memória de muitos a «febre quebra ossos».

A Filária era transmitida por um insecto que introduzia no sangue um parasita. A Doença-do-Sono desenvolvida rapidamente pela picada da Mosca Tsé-Tsé, propagava-se no leste de Angola, no norte de Moçambique (Niassa) e em S. Tomé. Esta doença deixou, estranhamente, de ser controlada durante a guerra: a Tripanosomíase exprimia-se por febre alta, aumento dos gânglios e um grande cansaço. A fase avançada era o sono, a que se seguia a morte.

As águas não correntes e a dos poços eram o veículo mais importante das doenças gastrointestinais: toxi-infeções alimentares, amebíase intestinal (diarreia com sangue), abcessos no fígado, elefantíase e schistosomíase. E a onchocercose – a cegueira dos rios.

Claro que a tropa era vacinada antes da partida para África. Vacinados contra quê? Apenas, Febre Amarela, Cólera e Febre Tifóide. A longa lista que fica para trás e consta do livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL ainda aborda as hepatites (A e B), tuberculose, meningite, VIH1, VIH2 e outras.

Foto 27 – Nas datas festivas da Igreja Católica, como a Páscoa e o Natal, as “excelsas senhoras” do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha, enquadradas por altas patentes do Exército, deslocavam-se aos hospitais militares de Lisboa e do Porto distribuindo “chocolatinhos e cigarritos para os nossos doentinhos”. Nesta foto, o figurante deitado na cama não é um enfermo.

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