Mais um dia de fake-news

Quarenta e cinco anos após o arriar da “bandeira das quinas” em Luanda, vale a pena refletir sobre alguns dados históricos na vasta matéria que é (ainda) a guerra que os portugueses fizeram em África na segunda metade do século 20.

Em 50 anos saltámos da Censura total para aquilo que uns designam hoje por “realidade ficcionada” – entre a recriação do que se passou / do que não se passou e a mentira rotunda. «Informação» com dados manipulados. Categóricos e perentórios, mas falsos.

Na década de 60, era mais fácil descobrir a ação do Lápis azul do que hoje detetar o trabalho das idóneas tecnologias eletrónicas. Mente-se e cria-se uma outra realidade. Os seus autores, de carne e osso, ou enquanto máquinas programadas, gozam de espantosa inimputabilidade.

As notícias falsas (fake news, em inglês), pequenas ou grandes, serão sempre… falsas. Esta indústria tem os seus especialistas que hoje já não se dedicam apenas a «notícias» mas invadem outros géneros jornalísticos – como a reportagem. Em 2019 foram denunciadas mais algumas, talvez as que registaram maior impacto, como foi o caso de um premiado jornalista da prestigiada revista alemã Der Spiegel.

(2) PELÉ
Capa da revista ilustrada O CRUZEIRO publicada no Rio de Janeiro (edição nº 25, de 23
de junho de 1971).

Este “repórter” deu, dir-se-ia, a volta ao mundo sem sair de casa. Criava cachas estrondosas – mas falsas. As fontes que Claas Relotius referia declararam nunca o ter visto ou falado ao telefone. Aos textos que produzia juntava fotografias que comprava, entre outros, ao New York Times. “Respeitadíssimo e muito admirado”, foi várias vezes contemplado «jornalista do ano» na Alemanha (Die Zeit, Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt, Der Spiegel). A inefável CNN atribuiu-lhe o seu troféu mais importante. Quando revelou que tudo o que escreveu era “inventado”, o diário castelhano EL PAÍS chamou-lhe “vigarista”.

«Unimog capota em Angola e faz uma baixa»

No período histórico da Guerra Colonial as fake news sobre as “províncias ultramarinas” eram editadas em Lisboa pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação – ou sucedâneos, como os «Centros de Informação e Turismo» montados em Angola e em Moçambique.

Na realidade (da Ditadura), se não havia guerra nenhuma, para quê notícias? As que, de quando em vez, viam a luz do dia – e não eram notícias falsas – apresentavam por sistema «meia dúzia de linhas» com nomes de alguns “falecimentos”. Contornar este quadro garantia sérios problemas.

Recordo aqui um camarada da mesma especialidade, mas pertencendo a uma mobilização anterior – portanto, mais velho, como se dizia – e que um dia entrou no meu Destacamento instalado dentro no Quartel General. Vinha apresentar-se pois tinha acabado de cumprir uma pena de prisão. Solicitava guia de marcha para a Metrópole. Porque estiveste preso? – perguntei. Resposta: De uma reportagem que fiz no mato enviei umas fotos para uns amigos no Brasil, que as fizeram chegar a uma famosa revista ilustrada. E eles publicaram… com o meu nome! Levei uma porrada que chegou agora ao fim. Quero ir para casa!

(1) spiegel
Claas Relotius no dia em que recebeu o troféu CNN como recompensa pela obra
publicada no Der Spiegel. Este semanário alemão, quando conseguiu desmascarar
(22.12.2018) a mais recente fraude jornalística da era das fake-news, escreveu na
capa: “Dizer, o que é. / Como um dos nossos repórteres falsificou as suas histórias, por
sua conta, e porque é que com elas se safou”.

Este foi um caso especial, é certo, mas enviar fotos, tão só, para as famílias esteve sempre debaixo de olho da PIDE/DGS, que também exercia funções nos postos do SPM – Serviço Postal Militar. Fotografias quase nunca chegavam ao destino.

Nas contas do prestigiado historiador francês René Pélissier, de 1974 até agora foram editados perto de 800 livros sobre a guerra colonial nos seus 13 anos de duração. A sua maioria é constituída por testemunhos pessoais, relatando ou comentando experiências que sofreram nas colunas, em emboscadas, da vida nas aldeias e nos aquartelamentos, ações de patrulhamento e outras. Mas também em ambientes de guerra aberta. De qualquer forma, o que ressalta sempre é a vontade de contar o que lhes aconteceu e, fatalmente, o que não lhes aconteceu. Viver sempre no meio do mato, permanentemente debaixo de fogo, são cenários que encheram e encheram e encheram aerogramas e cartas. Perguntei muitas vezes, a operacionais, se contavam a verdadeira guerra à família e aos amigos. Respondiam Não, com a cabeça.

«Ia eu na picada, e à minha frente saltam dois leões»

A distorção dos factos com a caneta era tanto mais «real» quanto maior fosse o grau de imaginação. O terror das balas do inimigo a rasar as orelhas ou a cortar o cabelo eram imagens obrigatórias nas missivas para a mãe, para a namorada ou para a esposa. Ficou famoso o caso daquele batalhão em Angola que, em meia comissão que cumpriu no Leste, sofreu 150 baixas! Após o 25 de Abril, o comandante dessa unidade desmentiu o número – que, afinal, se fixou em três mortos…

Em 2018, o Festival de Cinema de Cannes anunciou na sua «seleção oficial» de documentários um filme de animação baseado num livro escrito em Varsóvia sobre “acontecimentos” ocorridos em Angola no Verão de 1975. O seu autor era um espião que cumpria missões no chamado «mundo ocidental» sob a capa de «jornalista» ao serviço da agência de notícias polaca (PAP). O seu nome é Kapuscinski – e em finais de 1975 foi enviado a Luanda porque só ele possuía passaporte.

O livro «Mais um dia de vida», editado por ele próprio, foi traduzido para português vinte e um anos depois. Aí revela que os movimentos de libertação angolanos eram exércitos de guerrilha maltrapilhos, e que as ruas de capital estavam cheias de cadáveres. Instalou-se no Hotel Tivoli, em Luanda. Já nem cães havia nas ruas, onde os habitantes aconselhavam a matar todos os russos, húngaros e polacos (…) Por isso decidi ir para a linha da frente – concluiu.

(3) Largo da Mutamba
Foto 29 – Largo da Mutamba, em Luanda (1974).

De caneta e arma na mão – como referia a promoção do tal filme no cartaz de Lisboa – este agente polaco acabou por fugir do teatro de guerra onde, garante ele no seu livro, esteve um incontável número de vezes na iminência de ser fuzilado. Na despedida de Angola recebeu cumprimentos de figuras como Júlio de Almeida – o célebre Comandante Ju-Ju do MPLA – que lhe terá oferecido um livro de Basil Davidson, e do próprio Presidente Agostinho Neto, com quem conversou sobre poesia e a quem recitou poemas da “Sagrada Esperança” que ele sabia de cor.

É tudo mentira! – diz o Grande Repórter de Guerra português, Luís Alberto Ferreira, que foi o único jornalista a cobrir (para a RTP) todos os momentos históricos das batalhas em Angola com o exército da África do Sul, até à Declaração da Independência em Luanda. O polaco tinha encontrado a equipa da televisão portuguesa em Benguela, implorando que o salvassem dali para fora. Regressado à Europa, descreveu os jornalistas portugueses como mercenários, aliciados pelo “estatuto quanto mais filmassem mais dinheiro ganhariam…

                                                                                             Jorge Ribeiro

Testemunho de Luís Alberto Ferreira

O trabalhinho fraudatório de Ryszard Kapuscinski evidencia do próprio uma tocante ingenuidade. Alguns dos episódios por ele narrados em “Mais um dia de vida” constituem mentiras tão ridículas quão lastimosas. Um entre muitos exemplos: nos dias preambulares da proclamação da independência, “as ruas de Luanda cheias de cadáveres”. De bradar aos céus. Desde 8 de Novembro chovia torrencialmente na capital angolana. No aeroporto esmaecia, até, a agitação dos dias iniciais da “ponte aérea” para os retornados. E, em bairros tradicionais como a Vila Alice, a Vila Clotilde, as Ingombotas, a Maianga, as rotinas seguiam o seu curso normal. No hotel “Tivoli” não existia qualquer “dona Cartagena”, nome nunca escrito ou falado em Angola! A Rádio Nacional punha no ar, a cada passo, uma canção muito em voga, “Valódia”, exaltação magoada do comandante do mesmo nome, um homem das FAPLA-MPLA mortalmente baleado num recontro com o então chamado “Batalhão Chipenda”.

O “repórter” polaco, inteirado do que se supunha uma opção ideológica do MPLA de então, o “socialismo científico”, dava mostras de se sentir pouco à vontade nas suas diligências. Isso notou-se em Benguela, onde o conhecemos. Benguela, o “desastre” que torna “Mais um dia de vida” o eixo nevrálgico da enorme falácia que ajudou Kapuscinski a recolher prémios internacionais, a par da fama de inigualável “repórter”. Como se não bastassem os “repórteres de hotel”, denunciados em Portugal quando das invasões do Iraque e do Afeganistão, e muito antes, durante a Guerra Civil de Espanha, desmascarados por Hemingway. De facto, a praga dos “repórteres de hotel” é um fenómeno antigo…

(4) benguela
Foto 30 – Chegada à estação de comboios de Benguela (1975).

Em Agosto de 1975, na qualidade de enviados da RTP a Angola, estávamos em Benguela: eu próprio, jornalista, e os operadores de imagem Sebastião Fernandes e José Carvalho, e de som, João Barbosa. O comando da Frente-Centro das FAPLA, braço armado do MPLA, ali estava sediado. Jorge Morais, “Monti”, era o comandante. Eu e o comandante “Monti”, ambos nascidos em Luanda, conhecíamo-nos desde os tempos da escola primária. Daí a presteza com que a nossa equipa, a da RTP, obteve luz verde para uma incursão até à vila do Balombo, não longe de Benguela e palco de alguns recontros das FAPLA, que ocupavam a praça, com as forças da UNITA.

Hospedados em Benguela no hotel “Ombaca”, entretidos estávamos com o pequeno-almoço quando da nossa mesa se acercou um sujeito tímido, a expressar-se com dificuldade em português. Era Kapuscinski. Ele confessou-se “desamparado” e, pior, “receoso”, Benguela era favorável ao promissor MPLA da época e Kapuscinski admitia que as pessoas vissem nele um “espião”. Inteirado de que iríamos partir para o Balombo (com escolta chefiada pelo próprio “Monti”), rogou-me Kapuscinski que o admitíssemos na comitiva. “Monti”, ao vê-lo, interpelou-me: “Quem é esse tipo?”. As explicações que lhe dei não o convenceram de todo, mas “Monti” transigiu. Ele, o polaco, percebeu que a sua presença suscitava alguma “incomodidade”. Não havia visto “Monti” jamais. No entanto, no seu livro, Kapuscinski afirma ter estado, no dia anterior, “no gabinete de “Monti”. Descreve-o como sendo “um homem branco”, o que tão-pouco é verdade. Toda a narrativa da incursão no Balombo é um carrossel de mentiras e deturpações. Kapuscinski não trocou uma única palavra com Carlota Machado, sub-comandante das FAPLA, limitando-se a fotografá-la. O “repórter” Kapuscinski não esboçou sequer um passo na direcção de Pepetela, que comandava a base (no Balombo).

(5) civil-war
«A guerra civil rebentou em 1974» / «Luanda devastada pela guerra civil» – título e
legenda de foto em WebSite oficial da África do Sul.

Kapuscinski mente, em absoluto, ao sugerir que os operadores de imagem e som da RTP haviam resistido e recusado a ida àquela frente, sob a alegação de que todos tinham mulher e filhos e planeavam a “compra de casas para os fins-de-semana em Cascais”. Também a viagem para o Balombo e a morte de Carlota, numa escaramuça com a UNITA, duas horas, ou menos, após o nosso regresso a Benguela, são objecto de falsidades e deturpações que repugnam. Acontece que Carlota viajou para o Balombo, com outros combatentes, num jipe, enquanto nós e o polaco o fizemos a bordo de um automóvel conduzido pelo comandante “Monti”. O polaco guardou gélido silêncio ao longo da deslocação. Grosseira invenção, a cena do “convite” de Fernandes: “Carlota, venha aqui para o banco de trás sentar-se sobre os nossos joelhos!”. Carlota não estava sequer a bordo do automóvel, nem “Monti” estava para brincadeiras. Os momentos que se viviam eram de grande tensão, Carlota disse à RTP que a independência de Angola lhe permitiria, na qualidade de enfermeira, e prestes a casar-se, ser útil deveras ao seu país. Nenhum elemento da RTP iria, pois, sugerir-lhe “venha connosco para Lisboa!”. O infortúnio ético do “repórter” Kapuscinski agudiza-se, de forma quase exasperante, no relato que ele faz das circunstâncias em que, de novo em Benguela, soubemos da trágica morte da sub-comandante Carlota Machado. A jovem não morreu em combate, foi vítima de uma cambalhota do jipe que ela conduzia quando se iniciou a fuzilaria. Estávamos, os quatro, com o polaco, no interior e não “numa esplanada” do restaurante onde, sugere o mentiroso, fruíamos a “aragem”. Kapuscinski relata a chegada abrupta de “um soldado negro”, feições abrutalhadas, que se nos dirige, ofegante, para anunciar: “Carlota morreu em combate no Balombo”. Pura mascarada. Quem, serenamente, entrou no restaurante e perguntou se teríamos já conhecimento da morte de Carlota foi um amigo meu, o enfermeiro luandense Frugiere dos Santos, na altura a viver em Benguela. Kapuscinski tão-pouco esteve no aeroporto quando partimos para Luanda, onde, segundo ele, “as ruas estavam pejadas de cadáveres”… No seu livro, ele reporta-se ao avião que me transportava, desaparecendo, ao longe, perdido nas nuvens. Com ele a cismar. Um fraudador que ousou considerar “Mais um dia de vida” obra de pura reportagem inspirada na veracidade factual.

                                                 Luís Alberto Ferreira – Lisboa, Janeiro 2020

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