De Ceuta a Macau foram seis séculos

O Conselho Português Para a Paz e Cooperação – CPPC promoveu nesta data no Porto (Palacete Viscondes de Balsemão) uma sessão pública para evocar «45 anos da Revolução de Abril e o fim do Colonialismo português». Notícias da Guerra reproduz aqui a intervenção de Jorge Ribeiro.
Quando chegamos ao Brasil, em 1500,
Portugal não ultrapassava um milhão de habitantes.

A perda de preeminência no Oriente e a declaração de independência do Brasil abalaram Lisboa para sempre. O propalado poder de Portugal no mundo foi definhando. Mas só em 1951 o chamado Império Colonial Português foi abolido nos livros. O Estado Novo ainda batizou o que restava como Províncias Ultramarinas. Mas a era das descolonizações já tinha começado.
Na Conferencia de Berlim em 1884-85, onde se desenhou África a régua e esquadro, Portugal apresentara-se a defender as suas propostas e pretensões com base no «Direito Histórico», isto é, por termos sido «os primeiros a chegar às terras». Nesta conferência, dominada pelos interesses comerciais, o fake rei Leopoldo consegue autorização para construir o chamado “Congo Belga” ignorando os interesses de Portugal. E o patrão da Conferencia, o prussiano Bismark, por pressão do primeiro-ministro inglês, Lord Salisbury, rejeitou o plano de Portugal para materializar o mapa-cor-de-rosa.
Ato Colonial, Ditadura Militar, Estado Novo, morte de Salazar e os militares dão um golpe de estado com navegação à vista, sem apoios internacionais, planeamento em prol de reivindicações castrenses prontamente reequacionadas em favor de valores mais profundos: queda do regime fascista e implantação da democracia. O fim do colonialismo não entrou em cena ao mesmo tempo.

FOTO 25
Foto 25 – Nós não vimos nada em África…

Os novos lideres militares não estão isentos de contradições de classe: os que despoletaram a liberdade são os mesmos que fizeram a guerra. Então, e as colónias? Consequências e custos, planos had-hoc para tudo, calendário extemporâneo do MFA, impreparação geral para as novas situações, intervenção da banca estrangeira, reações dos idos de abril. Então e os territórios ultramarinos? É este o lado errado da revolução: não encerrou o assunto e não o resolveu.
O colonialismo português durou seis séculos, de 1415 (ocupação de Ceuta) até 1999 (hand over de Macau). Os portugueses desenvolveram a cartografia, as tecnologias navais, a astromia e outras ciencias. E provaram que o mundo é redondo. A presença portuguesa, durante todo esse tempo espalhou-se por 53 países (pelo traçado atual). Sempre de armas na mão, que era a linguagem que fazia a diferença. Só com a Holanda estivemos em guerra durante 75 anos (1588 – 1663).
Agora andamos há 60 anos a esconder a guerra que fizemos nas colónias. Isto, apesar de que, no cair do pano em 1974, todas as famílias portuguesas integravam alguém que esteve na guerra. Que ficou ferido. Que contraiu doença. Que morreu. Ainda hoje se manipulam ou censuram os resultados do desastre coletivo que constituiu a Guerra Colonial do século 20.
O preço do nosso colonialismo – chegados ao 25 de abril – passa por um milhão e meio de emigrantes, 40% de analfabetos numa população com pouco mais de 8 milhões habitantes. E a fatura mais pesada: 10.500 mortos, mais de 40.000 estropiados e 230.000 (140 mil combatentes, mais 80 mil mulheres que os esperavam) sofrendo de Síndrome Pós-Traumático do Stresse de Guerra. Em apenas duas gerações, os portugueses já apresentam muita dificuldade em falar sobre esta Guerra Colonial. Experimentamos dois dos piores sentimentos: perda (pessoal e coletiva) e vergonha.
A importância e o peso da Guerra Colonial, a forma como caiu o Império, as derrotas militares e as pesadas consequências com que a sociedade foi castigada não permitiram, durante muito tempo, avaliar estragos. Até que chegamos ao perverso desabafo «Isso agora já não interessa. Já passou!»
O Canal televisivo «História» prova diariamente, desde há anos, que os americanos ganharam a II Guerra Mundial e também a Guerra no Vietname.

FOTO 26
Foto 26 – Como foi tratada a grande maioria dos retornados?

O sistemático apagamento da guerra portuguesa na nossa opinião pública, e o seu significado para os países descolonizados, atrasam e impedem a análise da violência, da opressão, da escravatura, do racismo. Sempre se disse que o colonialismo português era benigno. E eram famosos os nossos mui estimados «brandos costumes». Portugal, que chegou a liderar a História, acabou por chegar atrasado aos seus encontros com ela.
Perante o isolamento externo de Portugal, este “país de marinheiros” recusava a inviabilidade da guerra e a inevitabilidade do seu fim. Em 1972, o presidente americano Richard Nixon propôs a Marcelo Caetano a seguinte «solução»: 1. Abandonar a Guiné. 2. Vietnamizar Moçambique – isto é, damos o norte e ficamos com o sul. 3. Quanto a Angola: é nossa! – como se ouvia pelo coro e orquestra da Emissora Nacional no encerramento dos Serões para Trabalhadores organizados pela Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho.
O Colonialismo chegou ao fim, acabou. Mas, como escreveu Joaquim Chissano, «Não foi Portugal que descolonizou. Foram os africanos que lutaram pelas independências».

Jorge Ribeiro

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra