Realismo e verdade fazem CAPITAL MUEDA uma obra-prima sobre a guerra

Leituras de escritores e militares

ONDE HÁ FACTOS  

Como ler Capital Mueda ?
Testemunho (com fractalização ficcional) de um repórter de guerra colonial; enunciação diarística de imagens de uma operação (verídica); reportagem ou fabulação?
Escritor historicista, um ficcionista da História? Capital Mueda, um evento arbitrário ou alegoria da recorrência histórica? A descrição, verosímil, apoia-se nas citações de Samora Machel e Basil Davidson. Epígrafes, advertem para a fase real a comprovação objectiva. Todavia, o texto de Jorge Ribeiro não é restritivo a considerações ideológicas, é indubitavelmente literatura.
Proporciona um relato de uma experiência com espontaneidade, num magnífico texto em que o envolvimento (a exortação política) não se exprime pelo panfleto (o que não exclui a reprovação da Guerra Colonial), mas pela intrusão de apreciações de descrença. Texto cinético que relata num plano narrativo a mesma lassidão (de sábado, 3 de Fevereiro, a sábado, 10 de Fevereiro), o que (um)a câmara de filmar registaria. A imagem estática ou o movimento de penetração da câmara, na construção da ambiência («No Planalto dos Macondes o nevoeiro repousa, denso, vê-se aqui de cima (…) Este interminável manto branco encanta, hipnotiza»), ou na predilecção pelo fim cinematográfico («Fixo para sempre na retina o admirável matiz de um pôr-do-sol no planalto»). Mas a imagem, outras imagens, remete(m) para a decantação analítica predominantemente realista.
A facilidade do registo suprimiu retóricas ficcionais para melhor se reviver uma experiência de guerra colonial. Recorre-se a um processo narrativo linear, permitindo a aproximação ao acontecimento sem rupturas, sem opções de complexidade, admitindo uma aparência de formulação individual, páginas de um quase guião para a cena «Coluna Mueda-Nangololo».
Realismo de repúdio, onde há factos.
Capital Mueda é um compromisso, uma acusação, um texto de insubstituível verdade.

                                                                                                             José Emílio-Nelson, 1993


O poeta José Emílio-Nelson (“Polifonia”, 1979; Polifemo, 1983; “Extrema Paixão”, 1984) exerce crítica literária em vários órgãos de comunicação. Este texto foi publicado na secção de Cultura do JN, em 23.3.93, a primeira referência a Capital Mueda surgida na imprensa.


FOTO 24
Foto 24 – O terror das minas marcou profundamente a tropa colonial.

 

MATÉRIA NECESSÁRIA

Felicito-o por este livro.
Capital Mueda é excelente e merecia um desenvolvimento em romance, tão boa matéria e tanto necessária sobre esses anos e factos que se incrustaram no imaginário português sem que os escritores lhe tenham dado – até à data – o tratamento que os Zurara, Couto e Mendes Pinto deram à outra época dramática da vossa nacionalidade.
Parabéns, Jorge Ribeiro.
Li Capital Mueda de um fôlego e reli.                 

                                                                                                         José Luandino Vieira, 1993


Luandino Vieira, escritor angolano. Trabalha uma “linguagem fonética”, o português quimbundo, que caracteriza a sua obra. Encarcerado várias vezes no regime anterior ao 25 de Abril, cumpriu oito anos no Tarrafal «por incitar à separação de Angola da Mãe-Pátria». O seu livro “Luuanda” recebeu o Grande Prémio (1965) da Sociedade Portuguesa de Escritores, cuja sede em Lisboa foi, por esse facto, assaltada, destruída e encerrada pela PIDE, sendo presos os membros do júri. 


 

TÓPICOS DA HISTORIOGRAFIA

Capital Mueda contém em si virtualidades importantes. Antes do mais, é um bom exemplo de que a historiografia não dá conta de tudo. De facto, é próprio da historiografia dedicar-se aos “grandes” temas e deixar escapar a pequena narrativa, que surge aparentemente destituída de finalidade e eivada de subjectivismo, o que costuma ser contrário à perspectiva da história-ciência. Depois, porque neste caso concreto se trata de uma narrativa duplamente ilegitimada, não só nesse campo estrito da historiografia como também naquele, mais vasto, da memória colectiva. Num outro sentido: do lado dos jovens africanos (de Moçambique, aqui), porque a história da tropa portuguesa – invasora, colonial – era a história do inimigo, e competia ao inimigo fazê-la (e, afinal de contas, talvez lhe devesse dizer respeito, na medida em que foram milhares de moçambicanos que envergaram a farda portuguesa); do lado português, porque lembrar era empresa difícil e dolorosa (sê-lo-á ainda, em grande medida).
Ficou assim, esta narrativa, remetida a um espaço marginal, verdadeira terra-de-ninguém. De qualquer forma, um espaço preenchido por milhares de lembranças domésticas que vão envelhecendo, sedimentadas em amarelecidas fotografias altamente significantes para os respectivos proprietários, mas inexpressivas e gratuitas para os restantes. Memórias que nem filhos (e, cada vez mais, netos) se interessam em ouvir. E, no entanto, elas são importantes pela questão crucial que levantam. Como foi possível tanto sofrimento, tanta crueldade, tanta heroicidade gratuita? E esta empresa tem que ser revisitada, cedo ou tarde, porque só ela traz respostas para a revolta daqueles que nela perderam grande parte da sua vida, ou mesmo parte do seu corpo (os que ali perderam tudo, obviamente já não se revoltam). Uma revolta que o tempo domestica mas que, a espaços, teima em voltar à superfície.
Capital Mueda trata da guerra no norte de Moçambique, operando no espaço cinzento da lembrança. Só quem foi protagonista poderia descrever a saga desta maneira. E o enredo que nos é apresentado percorre alguns dos tópicos importantes da historiografia. Em primeiro lugar, a coluna – simultaneamente fio condutor da pequena história, cobra que, contrariamente à cobra do mato que sabe por onde pisa, nos surge insegura, trôpega, cobra gigantesca e pesada que desperdiça homens em cada curva, picando o chão à procura de explosivos – o tópico do espaço. Afinal, e contrariamente à propaganda, o mato é dos guerrilheiros, enquanto as NT, acantonadas nos quartéis, só esporádica e penosamente nele penetram, de passagem, perplexas nesse mar desconhecido e estranho. E este é já um outro tópico, o do mato simultaneamente belo e ameaçador, insondável, o mato com “potencial de turismo”, como diz prosaicamente um personagem, mas ao mesmo tempo o mato das talacas, das cobras e das minas.
Outros tópicos desfilam, como o das diferenças entre soldados metropolitanos e provinciais, entre estes e oficiais caprichosos e distantes. E também alguns limites, como o desconhecimento de quem está do outro lado da floresta, na curva, os vultos de contornos imprecisos e ameaçadores, implacáveis, perante quem a coluna surge completamente vulnerável. E, ainda, o tópico central de entre todos, o projecto colonial – nesta fase já um projecto louco e sem direcção – que o autor cristaliza na absurdidade desta missão. Capital Mueda faz parte das dispersas lembranças individuais que, juntas, ganham uma nova dimensão – dimensão essa que poderá trazer respostas para as grandes inquirições da historiografia.

                                                                                                João Paulo Borges Coelho, 1998 


O professor João Paulo Borges Coelho é docente da cadeira de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, no Maputo, Moçambique.


 

A GUERRA POR DENTRO

Quando Jorge Ribeiro me convidou para apresentar outro livro seu, “Marcas da Guerra Colonial”, eu afirmei que o Autor contornava o tratamento linear da guerra, e como que a atacava pelos flancos e pela retaguarda. Ora, Capital Mueda é exactamente o inverso: é a guerra contada por dentro, com a sua brutalidade, a sua desumanização, os medos e as coragens, os desesperos e as ansiedades, as solidões e as solidariedades, as dúvidas e as certezas, os mortos-mortos e os mortos-vivos.
Tudo isso Jorge Ribeiro nos relata, numa linguagem viva, nos sete dias de uma coluna em Cabo Delgado, para fazer um percurso que poderia demorar meia hora. A “coluna” – talvez a operação-tipo mais comum nos três teatros de guerra, e pela qual passaram quase todos os combatentes do Exército – Jorge Ribeiro descreve-a metro a metro, minuto a minuto, emboscada a emboscada, mina a mina, numa linguagem crua e cruel, mas autêntica e realista, pois é esse o clima da guerra e ele viveu-o.
Vem-me à memória um livro do tenente Mário Costa, de título “É o inimigo que fala”, que fui repescar à minha estante para citar esta passagem: «As tribus armadas de espingarda usavam uma tática bastante curiosa. Começavam por abrir fogo à queima-roupa contra as colunas em marcha, para o que tinham emboscadas ao longo da estrada, por onde tinha de passar a coluna (…) Na retaguarda destas posições havia muitos caminhos para facilitar a fuga para o mato (…) Logo que disparavam as armas, fugiam para as tornarem a carregar, de forma a atacar a coluna, do mesmo modo, mais adiante».
Até parece que o tenente Mário Costa seguia na coluna de Jorge Ribeiro. Mas não, porque o livro do tenente é uma edição de 1932 e apenas citava a forma como os alemães se referiam aos «métodos indígenas para fazer a guerra» na antiga África Oriental Alemã, durante a Guerra 1914-1918 e no levantamento anti-alemão que a precedera, em 1905.
Afinal de contas, tão pouco tinha mudado e tão pouco tínhamos aprendido.

                                                                                                Pedro de Pezarat Correia, 1999


O Major-General Pezarat Correia é um militar da Revolução de Abril, membro destacado do Movimentro das Forças Armadas (MFA) que derrubou a ditadura e reinstaurou o regime democrático. Integrou o Conselho da Revolução desde a sua criação até que foi extinto. É autor de vasta bibliografia sobre a Descolonização. 


recorte Século
Para dar notícias de Angola os jornais de Lisboa recorriam a fontes em Bruxelas.

 

MEMÓRIA TRANSPARENTE 

Na sequência do 25 de Abril e da descolonização, os dois extremismos do nosso espectro político como que apostaram em ver qual deles conseguia mais sucesso em fazer passar à história as fantasias dos seus pesadelos sociais. Para o extremismo de direita, a Guerra Colonial estava a ser um grande sucesso militar, pelo que o 25 de Abril veio trair uma vitória que estava mais do que garantida. Para o extremismo de esquerda, o “exército colonial” era classificado como desumana máquina de repressão, responsável por terríveis crimes e gerador de todos os males de que padeciam os povos indígenas. Ainda hoje, passados 27 anos sobre o fim da guerra, grande parte da literatura sobre o conflito nas colónias portuguesas em África – ficção e não-ficção – se pode considerar como pertencendo a um destes campos político-ideológicos.
Não é, decididamente, o caso de Capital Mueda, de Jorge Ribeiro. Fazendo jus à sua condição de ex-Fotocine, o autor conta-nos um significativo episódio da sua experiência de guerra, com o colorido e o movimento de um bem conseguido filme de acção. E fá-lo, sublinhe-se, sem trair a verdade do cenário histórico em que, com grande mestria, coloca as personagens da sua narrativa.
Toda a acção descrita se encarrega de pôr em relevo o absurdo da missão do Exército nas colónias em guerra: um dispositivo em quadrícula – em muitos casos cobrindo extensas áreas com pouquíssima ou nenhuma actividade económica – que, para a sobrevivência das tropas, obrigava a penosas colunas de reabastecimento, em picadas que os guerrilheiros dominavam a seu bel-prazer, através de emboscadas e de implantação de minas. É uma dessas tormentosas viagens que Jorge Ribeiro nos relata em Capital Mueda, pondo em relevo como unidades então designadas, maioritariamente, por Caçadores, se haviam transformado, por ironia do destino, em caça para os grupos da FRELIMO. A narrativa deixa perceber, por outro lado, como as vantagens dos guerrilheiros sobre as tropas portuguesas os colocavam na confortável posição de poder saturar de minas os itinerários por elas utilizados e serem eles a escolher o momento e o local das acções de fogo. Estas, na generalidade dos casos, eram desencadeadas de surpresa e com curta duração, de modo a não permitir uma resposta minimamente eficaz.
Mas o interesse de Capital Mueda não se fica pela qualidade de descrição das acções de combate. No intervalo das mesmas, Jorge Ribeiro introduz-nos no mundo sombrio dos jovens militares que ali se encontram a queimar, sem perceberem bem porquê, os melhores anos da sua vida e a assistir à morte ou grave mutilação dos seus camaradas. Os diálogos entre soldados – incluindo os juízos errados que, naturalmente, por serem errados não deixam de ser parte da história – são apresentados com uma vivacidade e uma lógica que leva o leitor a sentir-se como testemunha presencial de toda a acção. Ouvimos, assim, desfilar as recordações do “antes” (Eu tinha a certeza que ia estar aqui a lembrar-me de tudo isto), animosidade para com os brancos que não reconhecem os sacrifício das tropas vindas da Metrópole, a incompreensão relativamente aos militares do Quadro Permanente – que, naquelas condições, são a incarnação do poder que impõe o prosseguimento da guerra – e, até, uma saborosa crítica à estratégia seguida pelo Exército, em sugestiva quanto perspicaz linguagem futebolística (Ganhar? Nem para o empate se joga!).
Volvido todo este tempo, ainda haverá algo para ganhar? Sim, sem dúvida. Ganhar a dimensão da História, com as suas sombras e os seus raios de sol – que também os houve -, sob a forma de uma memória transparente, que nos ensine sem nos torturar.

David Martelo, 2001


Investigador e ensaísta (autor de várias obras sobre a problemática das Forças Armadas durante o colonialismo e no «fim do império), o coronel na Reserva David Martelo é um ex-combatente, cumpriu duas comissões de serviço em Angola, e tem o Curso Avançado de Infantaria de Fort Benning (EUA). 


 

SEM ÓDIO NEM VINGANÇA

Eu estive do outro lado. A minha concepção da guerra, as minhas motivações, eram diferentes das dos portugueses, apesar de termos a mesma idade, estudado pelos mesmos livros, nas mesmas escolas.
Em 1963 estava a estudar em Portugal, e fui a casa passar as férias do Natal. O Governador ofereceu-me uma bolsa de estudo para prosseguir na Universidade. No entanto, no dia 23 de Dezembro, na Mesquita de Bissau, prestei Juramento de Fidelidade ao PAIGC, juntamente com Rafael Barbosa, Constantino Teixeira e Fernando Fortes. Já não compareci ao embarque de regresso a Lisboa. Éramos doze, universitários, numa caminhada até à fronteira que durou um mês.
Base de Mores, no Oio, com Osvaldo Vieira. Depois, a adaptação em Madina do Boé, e a «recruta» com Manuel Saturnino da Costa. Finalmente Quitafine, no sul, sob o comando de Nino Vieira – os portugueses sempre vigiados de perto, «debaixo de olho», como dizíamos. Ao mesmo tempo que nos conhecíamos a nós próprios, às nossas armas, estudávamos o inimigo, os seus hábitos, as suas acções, o seu equipamento, o seu perfil psicológico. Foi essa – é essa – uma das principais «armas» da guerrilha.
A operação do exército colonial narrada em «Capital Mueda» traça-nos a vida dos jovens militares no mato, desta vez do «lado contrário» ao meu e noutro teatro de guerra. Mas, ao ler o livro de Jorge Ribeiro, parece que estou na Guiné, dentro da acção, de AK na mão e cartucheiras à cintura, ajudando a carregar os morteiros pela picada fora. E a perseguir, atacando, «invisível», os portugueses, conferindo as suas reacções, os seus sentimentos.
Mueda foi um dos símbolos da guerra dura, muito dura, como também houve na Guiné. Para eles e para nós. Mas as comparações terminam por aqui. Os guerrilheiros guineenses estudavam pormenorizadamente os seus objectivos, tinham formação ideológica e um «horário de trabalho» que os colocava no mato à meia-noite, num esquema táctico de bi-grupo (9+9 homens). Regressavam à aldeia às 6 da manhã, tomavam banho, curavam-se os feridos, alimentavam-se, e iam descansar. De tarde assistiam às aulas, jantavam às 19 horas e, a seguir, liam o manual do partido e recebiam acção psicológica pelo comandante. À meia-noite voltavam para o mato.
Os portugueses encontravam-se a apenas 6 km da nossa aldeia e, quando raramente saíam do aquartelamento, espelhavam o que qualquer miliciano revelava em qualquer das três colónias em guerra: impreparação, pouco controle, desorientação nas horas de fogo, insegurança e medo. «Nós fomos obrigados a pegar em armas para libertar o nosso Povo», explicou Amílcar Cabral. Os portugueses, eles próprios perguntavam o que faziam ali, que não era a sua terra. A tensão em que viviam encontra-se fielmente retratada, nas mais dramáticas facetas, neste livro, uma situação que se vivia sempre que saíam para o mato, e cujos picos de desespero o PAIGC aproveitava intensificando os apelos à deserção, através das emissões da Rádio Libertação Nacional emitidas de Zinguichor e de Conacri.
Em Quitafine, fui incumbido de montar uma escola. E fiquei com 40 alunos, a quem dava aulas de manhã. À tarde, os bancos eram ocupados pelos guerrilheiros.
Tínhamos consciência e sofríamos na pele o napalm, as bombas de fósforo, as pessoas queimadas, as tabancas destruídas, os animais mortos. A maioria da tropa colonial nunca viu os resultados das suas acções. Mas, como se aprende em CAPITAL MUDEA, os soldados idos de Lisboa é que estavam desiludidos pela guerra, tinham sido enganados. Nós estávamos certos, com a razão do nosso lado. Se eu não acreditasse nisso, não tinha faltado à incorporação no exército colonial, e muito provavelmente, pelas garantias que me deram, seria um daqueles oficiais que nunca embarcaria para o Ultramar.
Os movimentos de libertação venceram também no plano ético. Cabral ensinou-nos um dia: «Não se pode lutar com ódio e espírito de vingança; na guerra, quando se levantam as mãos, pára tudo». E nós nunca massacrámos um branco na Guiné.
O livro de Jorge Ribeiro proporciona-nos a gesta da guerra colonial feita pelos portugueses, de forma explícita, de testemunha que ele também foi. Mas a do «inimigo», ainda que implícita, também lá está.

                                                                                                                   Inácio Semedo, 2002


O doutor engº Inácio Semedo, após três anos de guerrilha, foi chamado por Amílcar Cabral para seu adjunto na sede de Conakry do PAIGC. Após a morte do líder do partido, desempenhou as funções de assessor para a Economia com Aristides Pereira até ao 25 de Abril, ingressando então na carreira diplomática. É embaixador jubilado da Guiné-Bissau.


 

REALISMO E VERDADE 

Capital Mueda é um livro muito forte e autêntico, de um grande realismo e verdade. Além disso, muito bem escrito. Tocou-me muito.

                                                                                            Urbano Tavares Rodrigues, 2003


Nome grande das Letras, um dos mais prestigiados escritores da segunda metade do século XX, Urbano Tavares Rodrigues foi influenciado pelo existencialismo francês da década de 50. Professor expulso da Universidade por Salazar, esteve preso no Forte de Caxias durante a Guerra Colonial, afirmando-se já nessa altura autor maior da literatura de resistência. 


Foto 2 - A bordo DC3carga - MOZ - 1972 (c)
FOTO 2 – Capital Mueda passou ao papel ainda eu voava no Dakota de carga que me resgatou do mato, espreitando o inferno que vivi lá em baixo. Faz 45 anos. O regime que se seguiu ao Fascismo parece ter sentido peso da derrota e depreciou o negócio da guerra que fizemos em África. Primeiro ignorou, e depois condescendeu na sua reescrita. A ingratidão oficial aliou-se ao ressentimento subversivo, e as vítimas do Império foram diligentemente varridas para debaixo do tapete da ignomínia. O opróbrio. Mas Capital Mueda resiste. Talvez porque a verdade da guerra testemunhada continua aqui, contrariando as máquinas de efabulação da História.

 

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra