Retrato da guerra em Mueda

A inanidade da tropa quando ia para o mato

«Estes oito dias de progressão no pesadelo português revelam a inanidade das teses de alguns oficiais superiores que apoiaram – e, por vezes, ainda apoiam – a ideia de que tinham a situação sob controlo em Cabo Delgado (…) para fazer uma Metrópole pobre e pouco povoada acreditar que a guerra estava ganha – e isso era enganarem-se a si próprios». São palavras do insigne historiador francês René Pélissier no prefácio desta nova edição de CAPITAL MUEDA.

Seis anos depois da primeira edição de CAPITAL MUEDA, Eduardo Lourenço escreveu noutra obra de Jorge Ribeiro – «Marcas da Guerra Colonial», Editora Campo das Letras – 1999 – que «Portugal é um país que não soube nunca viver a sua História senão como história santa. Por isso nada tem de singular ou escandaloso que tragédias nem sequer vividas como familiares, e logo ocultadas na sua versão oficial, ficassem como acidentes lamentáveis que em nada comparam a imagem beata que os portugueses têm de si mesmos e do seu destino exemplar».  

CM a
Foto 22 – A mesa na apresentação da obra: (da esquerda para a direita) José Sousa Ribeiro, Jorge Ribeiro e David Martelo.

A apresentação do livro decorreu na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, com intervenções do diretor da Editora Afrontamento, José Sousa Ribeiro, e do Coronel David Martelo de quem se destacam aqui as primeiras linhas de uma importante crítica que escreveu em 2001 sobre esta obra. E cujas opiniões mantém hoje em absoluto:

«MEMÓRIA TRANSPARENTE 

Na sequência do 25 de Abril e da descolonização, os dois extremismos do nosso espectro político como que apostaram em ver qual deles conseguia mais sucesso em fazer passar à história as fantasias dos seus pesadelos sociais. Para o extremismo de direita, a Guerra Colonial estava a ser um grande sucesso militar, pelo que o 25 de Abril veio trair uma vitória que estava mais do que garantida. Para o extremismo de esquerda, o “exército colonial” era classificado como desumana máquina de repressão, responsável por terríveis crimes e gerador de todos os males de que padeciam os povos indígenas. 

(…) grande parte da literatura sobre o conflito nas colónias portuguesas em África – ficção e não-ficção – pode considerar-se como pertencendo a um destes campos político-ideológicos. Não é, decididamente, o caso de Capital Mueda, de Jorge Ribeiro.»

CM c
Foto 23 – «… faziam a Metrópole acreditar que a guerra estava ganha ,,,»

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra