A Derrota na Guiné

Marcelo Caetano tomou posse a 28 de setembro de 1968. Poucos meses depois aterrava em Bissau. Na receção ao chefe do Regime, Spínola não podia dizer mais do que isto: «Nesta fase confusa da evolução do mundo (…) a presença de Vossa Excelência na secular linha de rumo da Nação (…) significa uma nova era da ação». Caetano puxou de um cliché tantas vezes ecoado em igrejas como Santa Cruz em Coxim, Senhora do Rosário e São Benedito no Mato Grosso, ou mesmo em S. João Batista d’Ajudá: «Trago a minha homenagem aos que seguem o portuguesismo nesta Parcela da Pátria». Em maio de 1972 foi aflorada a hipótese de Spínola contactar com o próprio Amílcar Cabral. «É preferível perder a guerra a negociar a paz» – decretou o chefe do Governo em Lisboa.

Antes do final de 1973 (16 de Outubro) a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu o PAIGC como “Representante do povo”, condenando em simultâneo Portugal enquanto “ocupante ilegítimo da Guiné Bissau”. Na mesma sessão,  Amílcar Cabral anunciou para breve a proclamação da independência. Em janeiro (20.1.73) a PIDE assassinou Cabral. E o PAIGC introduziu no teatro de guerra viaturas anfíbias, carros de combate T 34, aviões PT16 e BTR 40, MIG 17, foguetões de 122mm e os mísseis SAM7. O primeiro avião Fiat da FAP é abatido com um míssil STRELLA. Durante o mês de maio o PAIGC realizou mais de 200 ações militares contra as tropas portuguesas por toda a Guiné.

É neste contexto que decorre a célebre reunião magna dos comandos militares na Guiné, marcada para 15 de maio – a cerca de quatro meses da Declaração de Independência do território em Madina do Boé (24.9.1973), e a menos de um ano do “25 de Abril”.

Dez anos após o desembarque na Guiné da Companhia de Caçadores de Infantaria 617 e do Batalhão de Artilharia 645, os mais altos responsáveis pela condução da guerra nesta colónia declaram irremediavelmente comprometida a missão das Forças Armadas de Portugal neste teatro de operações. Numa tradução pragmática: «A guerra na Guiné está perdida!»

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Foto 20 – Amílcar Cabral com o lendário comandante “Manecas” dos Santos, algures na Guiné, enquadrados pela Segurança que os acompanhava pela Guiné.

Spínola deu 48 horas

A abertura dos trabalhos dessa reunião foi feita pelo próprio Comandante – Chefe, que constatou: «Estas reuniões de comandos, que se realizavam com periocidade mensal, passaram a ter lugar esporadicamente – quando a necessidade de reajustamento da nossa manobra impõe agora medidas imediatas (… face) aos aspetos mais prementes da nova ofensiva que defrontamos». Spínola pediu a todos os responsáveis que abordassem «as nossas dificuldades e as nossas necessidades» e passou a palavra ao Chefe da Repartição de Informações, Ten-Cor de Infantaria Batista Beirão. «A presente manobra inimiga – classificou este oficial superior – apresenta um grau de perigosidade jamais atingido: disponibilidade de meios aéreos próprios e carros anfíbios; transferencia para Boé do local para implantação do novo Estado, analisando a perda de liderança do PAIGC com o assassínio de Amílcar Cabral, as contradições internas do partido e a oposição dos cabo-verdianos, a presença no terreno de militares cubanos, argelinos, russos e líbios, e o papel de Sekou Touré.

A seguir o chefe da Repartição de Operações, Ten-Cor Pinto de Almeida, que traçou as atuais incidências da atual situação do IN na manobra militar, contra o qual é urgente reforçar os efetivos das guarnições mais isoladas – disse. As «necessidades» comportam mais 6 companhias para o Setor Oeste, outras tantas para o Setor Leste, e 3 o Sul. Mais 3 batalhões com Reservas disponíveis e, para controlo de unidades, 3 comandos de agrupamento, e ainda comandos de batalhão mais uma cobertura extraordinária de Artilharia.

Andávamos «desarmados»!…

O comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, Cor – PILAV Moura Pinto, requereu 8 aviões SKYVAN para substituição das DO-27, 5 helicópteros equipados com armamento axial para substituir os Alouette III, 12 aviões Mirage com 300 milhas náuticas de raio de ação para substituir os T6 e os Fiat G-91, um radar de longo alcance, e mísseis REDEYE terra-ar. O responsável pelos meios aéreos e defesa aérea referiu também que a utilização pelo IN de mísseis STRELLA tem originado profundas alterações nos procedimentos da Força Aérea. Como resultado, todas as aeronaves passaram a aterrar em parelhas (…) as missões de transporte ficaram restringidas a 4 pistas, e as cargas limitadas a 60% nos NordAtlas e nas DO. Foram interditadas 36 pistas para as DO–27 e para os ataques ao solo já estão eliminados os T–6. Ações aéreas com Fiats e Alouettes têm que ficar canceladas, acrescentou. E, a concluir a sua intervenção: «Sem meios de deteção e interceção de aeronaves, e com a limitada eficácia de defesa com armas antiaéreas, temos de «reconhecer que nos apresentamos desarmados». «A vulnerabilidade a ações do IN, com ataques ao solo por aeronaves tripuladas por pilotos mercenários ao serviço PAIGC, é uma realidade»

O comandante do CITG, Brigadeiro Silva Banazol, propôs «uma reflexão sobre os reabastecimentos às unidades «em face do previsível». «O problema ficará resolvido no que respeita a víveres frescos». Banazol aplaude o chefe da 3ª Reparticão quando este refere a necessidade de mais três companhias de Engenharia para construção de estradas. E ainda: «Temos de encarar o aumento dos mortos na luta que irá decorrer daqui para o futuro (…) Há que estar preparado para a utilização de cemitérios de unidade». A terminar, garante que «o CITG não está em condições de apoiar logisticamente a Zona do Boé».

O comandante da Defesa Marítima da Guiné, Comodoro Almeida Brandão informou, por sua vez, que «o IN vai intensificar a sua atuação contra os nossos meios navais, com utilização de minas aquáticas. Não há draga-minas – que são imprescindíveis e urgentes». Sugeriu a requisição do SAO (Serviço de Assistência Oficinal da Marinha)  ao Comando Naval de Cabo Verde.

O Comandante-Adjunto de Operações no CCFAG, Brigadeiro Leitão Marques, ex-adido militar em Washington durante a Guerra no Vietname, dissertou sobre as manobras psicológicas que incorporam captura de prisioneiros que o IN aproveitará ao máximo para desmoralização da retaguarda das NT. Ele próprio assistiu a este fenómeno durante 4 anos no Vietname, que levou à capitulação dos EUA, apesar de todo o seu poderio militar.

O General Spínola encerrou a reunião reconhecendo que se vive uma «nova fase da guerra, mas que se mantêm as mesmas «Coordenadas: 1. Manter a soberania; 2. Restabelecer a paz e a ordem; 3. Assegurar as fronteiras». Na conclusão desta reunião o comandante supremo e governador da Guiné destacou que «o Inimigo e a sua ação obriga a um substancial reforço dos meios, impondo-se tomar medidas no plano interno (face à quebra no potencial de combate), e no externo (reforço de meios). «No primeiro, já foram tomadas medidas» – anunciou Spínola. Quanto ao externo, «devem os senhores comandantes-adjuntos apresentarem-me uma estimativa dos meios necessários dentro de 48 horas».
                                                                                                                                          Jorge Ribeiro

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Foto 21 – Aristides Maria Pereira, o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau durante o discurso da sua tomada de posse, no Boé.

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra


“O objetivo a conquistar numa guerra deste tipo é a população… (mas) a população ainda não está em posição de compreender qualquer esforço de guerra.”

António de Spínola, Bissau 15 de maio 1973


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Atas da Reunião