Evocar o fim da Guerra: Memória e Civismo

Que fazer? para que os mais novos evidenciem algum interesse em saber da Guerra Colonial mais alguma coisa que as magérrimas referencias do Ensino?

Em plena era do «jornalismo pós-verdade», das rendosas fake-news e das estórias ficcionadas, para o um aluno do 9º ano um massacre das tropas coloniais em África será muito menos atrativo que uma dessas reportagens fantásticas com emoção induzida, cujos autores confessarão mais tarde que é tudo invenção (“criatividade”!) produzida sob lucrativos patrocínios.

Quem se propõe a ensinar – ou, tão só, a chamar a atenção, por impulso cultural, acerca desta pesada e tão séria Página da segunda metade do Século 20 -, vai deparar-se com penosas e desencorajadoras dificuldades. Lutará no terreno adverso da iliteracia. Da ignorância.

Bem diferente dos tempos da ditadura salazarista, que enquadrou a Guerra nas Colónias, os portugueses de hoje sabem ler e escrever. Mas não praticam. O resultado mostra-nos quase sempre uma sociedade amorfa. E esse estádio social é manipulável, com espantosas técnicas eletrónicas, através do perigoso universo mediático.

É imperioso juntar os combatentes, cada ano que passe, em torno das associações para evocar o fim da Guerra Colonial enquanto consequência da Revolução de Abril.

tropa a marchar
Foto 18 – À partida e no regresso marchava-se – sair do comboio, entrar no barco – e vice-versa. Toca a marchar!

R E S P E I T O

Intervenção pública sobre o fim da Guerra Colonial / Vila do Conde, 25 de abril 2019

O acontecimento político-militar mais grave para Portugal no século XX não foi a Primeira Guerra Mundial, que continua a ser exacerbada, cem anos depois, em grandiosas celebrações de Estado. Muito mais grave foi a nossa Guerra Colonial. Acontecimento da segunda metade do século, que começou por ser escondido e, apesar do 25 de abril, tem vindo lenta e progressivamente a ser desvalorizado pelos programas oficiais do ensino. Mas o que nos interessa hoje é a justeza do que estamos agora a evocar, a justiça por que o fazemos, e o merecimento indiscutível dos que a isso têm direito.

O ato em si tem a ver com um sentimento muito profundo que cada vez é mais raro na sociedade portuguesa: o respeito. E a falta dele por quem um dia nos entrou casa adentro, nos levou para a guerra e nos deixou morrer ou ficar feridos para sempre, cobrindo-nos com um extenso e insuportável manto de esquecimento. Promover evocações como esta também se tornou mais raro – e para a nossa sociedade injusta o seu fim já terá mesmo data marcada – que será o dia em que morrer o último combatente.

O sistema em que vivemos é sinistro pelo facto singular de a Guerra Colonial entre 1961 e 1975 ter afetado todas as famílias portuguesas, isto é, cada família “teve alguém” na Guerra, ficou ligada ao fenómeno. Contudo, apenas uma geração passada e o tema já tinha saído dos escaparates das livrarias. Hoje, se não fosse uma data de importância indisfarçável como é – o fim da guerra – o universo mediático quase já referia o assunto como curiosidades.

Mas os combatentes resistem e as suas associações, como a que temos aqui em Vila do Conde, não desistem de lembrar aos outros, a todos, o significado dos dias da Guerra que os marcaram física e mentalmente. Chama-se a isto, também, civismo porque tem sentir e respeito da sociedade que constituímos.

A partir de 1970 a Guerra Colonial dá uma reviravolta: os números dos orçamentos de Estado disparam de forma exponencial, a contabilidade da emigração, dos refratários e dos desertores emagreceu dramaticamente o chamado «corpo expedicionário». No terreno, quem reforçou as tropas e apresentou novas armas foi o “Inimigo”. As Nações Unidas exigiram Portugal fora de África e a Organização dos Países Africanos apoiou os movimentos que nos combatiam. A Guerra estava perdida, era uma questão de mais mortos e mais feridos.

Vila do Conde não era dos maiores concelhos do território que hoje equivalerá à Área Metropolitana do Porto. Não era – mas já registava mais baixas que outros municípios de maior dimensão e população. No fim da guerra, Vila do Conde tinha sofrido meia centena de mortos – um grande desastre para esta terra.

Não podemos deixar a Guerra Colonial cair no esquecimento. Será a mais dolorosa falta de respeito.

Jorge Ribeiro, Combatente mobilizado Dezembro 1971 / regresso Abril 1974

25A cerimonia
Foto 19 – O sacrifício da vida ainda é dos temas que reúne as «forças vivas». Vila do Conde homenageia os seus.

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