Jornalistas também foram mobilizados para a Guerra

Sílvia Torres (Mogofores, 1982) é licenciada em jornalismo, tendo trabalhado no Diário de Coimbra. Como oficial da Força Aérea Portuguesa (FAP) desempenhou funções nas Lajes, em Lisboa e em Timor, entre 2008 e 2014. Bolseira FCT, prepara a obtenção do grau de Doutoramento em Ciências da Comunicação. Dos seus trabalhos de investigação sobre a «Cobertura jornalística da Guerra Colonial», Sílvia Torres selecionou entrevistas e artigos de opinião de profissionais, académicos e militares – que preenchem o livro «O Jornalismo Português e a Guerra colonial» (Guerra e Paz Editores, Lisboa 2016). A entrevista a Jorge Ribeiro integrada neste livro (pp. 289 – 296), foi realizada a 11 de Dezembro de 2015, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

«Um fotocine na Guerra Colonial»

Ao serviço do Exército, o fotocine Jorge Ribeiro filmou a Guerra Colonial em Moçambique. Das imagens que captou ao longo de 27 meses de comissão, “só uma pequena parte foi exibida: a que não mostrava a realidade atroz da guerra”.

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FOTO 11 – Jorge Ribeiro no Estádio Salazar, em Lourenço Marques, a 5 de agosto de 1973. Recolhia imagens de um jogo de futebol em videotape para a inauguração do serviço interno de televisão do Destacamento de Fotografia e Cinema 3026. ©noticiasdaguerrra.com

Cresceu a ouvir falar da guerra que se passava “lá longe” e que enviava os jovens para a África portuguesa, mas nem sempre os trazia de volta. “Era este o drama das famílias com jovens: havia muito medo de perder os filhos na guerra ou de a guerra os devolver sem uma perna, sem um braço ou até sem vida.” O irmão mais velho de Jorge Ribeiro teve sorte: “Na alvorada do conflito foi chamado para a tropa por duas vezes mas em nenhuma delas foi mobilizado para a guerra. Acredito que isto tenha acontecido por falta de organização do Exército”. Já Jorge Ribeiro não se livrou do “inferno” descrito por vizinhos e amigos que já lá tinham estado – “com o avançar da guerra e com a deserção de muitos, as recrutas começaram a ter menos gente e os que já estavam na guerra, finda a comissão, tinham que permanecer mais tempo nas colónias à espera de serem rendidos. Alguns, não poucos, até morreram neste período extra. No meu tempo (final dos anos 60, princípio dos anos 70), poucos eram dispensados porque já se sentia a falta de pessoal”.

Foi no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, que Jorge Ribeiro, “um menino das Antas”, se estreou no jornalismo, ao escrever no jornal escolar Prelúdio. Quando ainda frequentava o último ano do liceu, por influência de colegas e amigos, começa a trabalhar no Rádio Clube do Norte (estação aglutinada nos Emissores do Norte Reunidos). O relacionamento com figuras da rádio e jornalistas da imprensa revelou-se “um ensino diferente e único. Os mais velhos achavam piada aos mais novos e tratavam-nos bem. Transmitiam-nos conhecimentos em qualquer momento”. Pouco tempo depois, começou também a colaborar com os jornais O Primeiro de Janeiro e Norte Desportivo, como repórter informador, “o primeiro nível da profissão”. “Eu sou do tempo em que os jornalistas se levantavam da cadeira quando o redator principal, que n’O Primeiro de Janeiro era o poeta Alberto de Serpa, entrava na redação. Ainda me lembro de ver jornalistas a usar manguitos, a escrever à mão e com pala na testa para proteger os olhos da luz do candeeiro. Recordo também que, na tipografia do jornal, havia umas casotas de madeira onde os agentes da censura desempenhavam funções. Era lá que, por uma janela, entravam os textos para vistoria e, por outra, saíam os mesmos textos com o resultado do exame”. Mais tarde, deixando para trás a rádio, Jorge Ribeiro passa também a colaborar no semanário lisboeta Actualidades, cujo “diretor era chamado com frequência à PIDE para explicar as notícias que publicava”. Na imprensa e na rádio não se noticiava a guerra: “Algumas, poucas, linhas de raros comunicados oficiais informavam nomes de feridos e mortos lá para os confins do jornal. De resto, silêncio absoluto, até porque, segundo o Governo, não havia guerra nenhuma”.

“Naquele tempo, quem estudava, desde que nunca reprovasse, tinha direito a adiar o Serviço Militar Obrigatório. Nesta condição, um aluno do liceu podia seguir para o ensino universitário. Eu chumbei a Latim [no último ano do liceu] e fiquei a aguardar chamada para a tropa”. Neste compasso de espera, dedicando-se apenas à imprensa, Jorge Ribeiro procurou saber mais sobre a guerra: “colegas mais velhos disseram-me que havia um serviço – especialidade fotografia e cinema – para onde, em princípio, eram canalizados os jornalistas. Um brigadeiro-general, conhecido da família, também me aconselhou a declarar a profissão, mesmo antes de chegar aos testes psicotécnicos, para seguir essa especialidade e assim ter uma vida calma, evitando a mobilização – dizia ele. Como fotocine, a probabilidade de ser destacado era muito reduzida no curso de oficiais milicianos – apenas era mobilizado para a guerra um alferes por comissão, para cada província”. Quando foi chamado para cumprir o Serviço Militar Obrigatório, na primeira semana de janeiro de 1970, Jorge Ribeiro, sabendo que nos meses seguintes não abririam vagas para a especialidade que queria, faltou à chamada para iniciar a recruta. “Fui detido em casa pela PIDE. Levaram-me para o Distrito de Recrutamento Militar e fui alistado nas Tropas Territoriais. Nove meses depois, recambiaram-me para o Curso de Sargentos onde acabaria por tirar a tal especialidade de fotocine. Ia completar 22 anos de idade”.

Os fotocines, nome dado aos milicianos – oficiais, sargentos e praças – aprovados no Curso de Fotografia e Cinema, iniciavam-se na vida militar, tal como qualquer mancebo, com a recruta, que tinha a duração aproximada de três meses. De seguida, eram obrigados a obter aprovação na especialidade de atirador e, só depois, iniciavam então o curso de fotocine, ministrado na Divisão de Fotografia e Cinema dos Serviços Cartográficos do Exército, em Lisboa. O curso intensivo, teórico-prático, tinha a duração de 15 semanas e era constituído por várias disciplinas, como Eletricidade, Filmagem, Projeção, Som, Fotografia, História, Laboratório. “Aquela escola formou técnicos instruídos e capazes. Quem já era profissional, saiu reforçado na sua cultura. No meu caso, a minha formação académica só se completa depois de terminar o serviço militar (em Paris, Praga e Madrid), mas devo dizer que o curso que frequentei nos Cartográficos do Exército foi de extraordinária utilidade na minha vida”.

A classificação obtida no curso de atirador contava para a média final da especialidade de fotocine. A pontuação era importante porque, na hora de mobilizar um militar para Angola, Guiné Portuguesa ou Moçambique, eram chamados em primeiro lugar os piores classificados. “Nós lutávamos até às milésimas para obter uma boa nota”. Contudo, no meu caso, essa «luta» de nada adiantou porque, nesse ano, foram totalmente mobilizados, para os três teatros de operações, os últimos três cursos”. Em dezembro de 1971, depois de uma curta passagem pelo Quartel-General de Tomar, onde fora colocado após terminar o curso, Jorge Ribeiro recebeu guia de marcha para Moçambique, “sabendo mais sobre a Guerra do Vietname do que propriamente sobre a nossa guerra”. “Inicialmente estava previsto que a viagem se fizesse no navio Niassa mas, como uma bomba da ARA [Ação Revolucionária Armada] destruiu parte do navio na véspera do embarque, fomos de avião. A partir desta altura, o transporte de militares para o Ultramar deixou de fazer sentido por barco. E o Niassa nunca mais navegou”.

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FOTO 12 – A 25 de dezembro de 1973, a visita do Comandante-Chefe das Forças Armadas ao Magoé Velho, em Tete, é acompanhada por Jorge Ribeiro. ©noticiasdaguerrra.com

Na Região Militar de Moçambique, Jorge Ribeiro é colocado na Secção de Reportagem do Destacamento de Fotografia e Cinema[1], no Quartel-General, em Nampula. “Esta estrutura, que obedecia às ordens do comando-chefe, era constituída por fotógrafos e operadores de cinema”. Com as câmaras de filmar Beaulieu R16 Automatic (marca francesa) e Paillard Bolex H16 Reflex (marca suíça) – máquinas que “apresentavam dispositivos mecânicos extremamente melindrosos, artes de relojoaria que obrigavam a um cuidado especial no seu transporte e uso[2]” – Jorge Ribeiro gravava vários cenários: “aquartelamentos, operações previstas das forças do Exército, saídas do general, cerimónias públicas, chegada e a partida de tropas, encerramento de cursos de tropas africanas, ou seja, pouco combate e respetivas consequências. Não filmei, por exemplo, aquele mercenário que trabalhava no Niassa para as nossas tropas que afogava crianças em bidões de água – para que, se chorassem, não denunciassem a sua emboscada. Também não me enviaram com os comandos africanos para filmar a ‘Operação Marosca’ mais conhecida por Massacre de Viriamu”. As imagens eram captadas em vários locais da província. “Para cumprir a minha missão, tinha que ter mobilidade total e por isso estava constantemente a requisitar transportes ao Exército e à Força Aérea. Tenho mais de 400 horas de voo só em Moçambique. Por vezes, tinha que me sujeitar a longas esperas no mato para que me viessem buscar e assim regressar à base, em Nampula. Normalmente, eu atuava sozinho. Por vezes, acompanhavam-me colegas que iam fazer a reportagem fotográfica”. As imagens que recolhia eram depois enviadas, em bruto, em bobines de filme 16 milímetros, devidamente seladas e com uma memória descritiva, para os Serviços Cartográficos. O material seguia para Lisboa “numa espécie de mala diplomática militar”.

O Destacamento de Fotografia e Cinema era também responsável por captar imagens para o Telejornal da RTP. “O diretor de programas da televisão desempenhava simultaneamente a função de chefe dos destacamentos”. O material, em bruto, seguia para Lisboa em mão dos comandantes de voo da TAP: “entregávamos-lhes a encomenda e enviávamos uma mensagem para Lisboa a dizer que o material ia a caminho. Depois, alguém ia buscar a encomenda ao Aeroporto da Portela. O material seguia depois diretamente para a Tobis – Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros. Em Moçambique, não havia a possibilidade técnica de tratar os filmes, isto é, revelar, positivar, montar e censurar imagens”.

Outra das tarefas da secção era filmar as mensagens de Natal que depois eram transmitidas na televisão. “Normalmente eram gravadas no meio de um capim seguro. Os militares escreviam a frase (quase sempre a mesma) que iam dizer num papel, para não se enganarem. Mas havia sempre quem não conseguisse abrir a boca em frente ao microfone, e nós ajudávamos. Dizíamos aos militares para continuarem como se nada fosse, em caso de engano, e para não perderem a vez, já que os metros de película estavam contados. Mesmo assim, de quando em vez, lá saíam ‘Boas Festas para a esposa e para a noiva’ ou ‘um Ano Novo cheio de propriedades’. Eram momentos divertidos, mas havia homens que ficavam a chorar. Isto não aparece nas imagens que captei”. Também para a RTP, Jorge Ribeiro fazia a cobertura da visita a Moçambique de “certas” figuras públicas, como os fadistas Amália Rodrigues e Carlos do Carmo, “que iam cantar para a tropa”. “No entanto, nem tudo o que eu fazia tinha interesse para os censores. A entrevista que fiz em 1974 ao Ministro do Ultramar, Baltasar Rebelo de Sousa, em Lourenço Marques, nunca foi para o ar.”

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FOTO 13 – No mato do distrito de Cabo Delgado – Nangololo, Planalto dos Macondes -, Jorge Ribeiro, de câmara nas mãos, observa danos provocados pelo rebentamento de uma mina anti-carro. ©noticiasdaguerrra.com

Em Moçambique, Jorge Ribeiro, que nunca andou armado nos 27 “longos” meses de comissão, continuou a fazer peças jornalísticas para O Primeiro de Janeiro e para o Norte Desportivo. “Sempre que encontrava por lá futebolistas que cá eram conhecidos e que também estavam a cumprir comissão, fazia-lhes uma entrevista, com fotografias, que depois enviava por correio. Eram publicadas na íntegra”. O jornalista colaborou ainda nos jornais Notícias da Beira e Voz Africana e com a revista Tempo. “Sobre a guerra, disseram-me logo que ‘não valia a pena fazer nada, deixe estar”.

Madrugada de 24 de abril de 1974. Jorge Ribeiro regressa à metrópole três meses depois da data inicialmente prevista. Quando se deu a Revolução dos Cravos já estava em casa, no Porto. Nessa manhã, acorda com um telefonema do pai: “Há tanques de guerra no centro de Lisboa”. “Em Moçambique também” – respondeu, calmamente, pensando que se tratava de uma brincadeira.

Em Portugal, Jorge Ribeiro regressa ao jornalismo. Começou por trabalhar na Emissora Nacional, a convite da direção de Manuel Alegre, e passou ainda pela Rádio Renascença. Após o golpe de 25 de novembro de 1975, volta para o lugar que lhe estava reservado n’O Primeiro de Janeiro. Passa em 1977 para o Jornal de Notícias, onde termina a carreira como chefe de redação (2009).

Este antigo combatente é autor conhecido pelos seus livros sobre a Guerra Colonial e o Império Português em África: Capital Mueda (1993), Marcas da Guerra Colonial (1999), Lá longe onde o Sol castiga mais (2008) – livro infantil que explica a Guerra Colonial “aos filhos dos filhos dos nossos filhos”, S. João Batista d’Ajudá (2013), Inhaminga – O Último Massacre (2015), Lutas laborais nos primórdios da Guerra Colonial (2017).

Tudo o que Jorge Ribeiro sabe sobre o conflito português ultramarino, fruto da própria experiência vivida e das pesquisas que fez, tem sido partilhado não só nos livros, como também em cursos, seminários, congressos, artigos nacionais e estrangeiros. Desta lista faz ainda parte um programa da TSF, onde se debatia o tema Guerra Colonial, entre 1992 e 1993, intitulado “Noites de África”. “Não me interessa guardar seja o que for só para mim. Não me sentiria bem comigo próprio se o fizesse. Sofri os crimes da censura. E hoje, quanto mais investigo, mais admirado fico com o que se passou. É muito injusto o silêncio com que, de uma forma ou outra, sempre se tentou abafar esta parte da nossa História contemporânea, onde as vítimas parecem não ter qualquer importância,” – diz Jorge Ribeiro.

              A organizadora do livro «O Jornalismo Português e a Guerra Colonial» dedica (p.9) o seu trabalho Aos “heróis”, do jornalismo e da guerra. Em jeito de singela homenagem, noticiasdaguerra.com não pode deixar de referir aqui os primeiros repórteres a chegar ao Norte de Angola em 1961: ARTUR MOURA e SERRAS FERNANDES. E também: António Silva que, no 4 de Fevereiro, se encontrava em Luanda para cobrir outro acontecimento distinto; Jacinto Godinho, enviado diretamente para Maquela do Zomba; e Neves da Costa, que a 15 de março partiu para Nambuangongo.

 

 © Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra

[1] Este destacamento era ainda composto por uma secretaria administrativa, laboratórios para tratamento fotográfico e acabamentos, estúdios de fotografia, de gravação sonora, de rádio e, a partir de finais de 1973, de videotape.

[2] In Capital Mueda (Ribeiro, 1993: 118).