No Reino Unido ensinam as guerras do Império Britânico na pré-primária

Em Portugal, a Guerra Colonial no Ensino surge tarde, de forma efémera e insignificante. Há exceções raras, de iniciativa privada

Na comemoração dos 25 anos sobre o fim da guerra, a Universidade Popular do Porto – UPP (*) lançou um curso de 24 horas, duas aulas por semana, em horário pós-laboral, com início a 18 de Janeiro. Dos conteúdos programáticos, foram abordados os temas “As Forças Armadas no Estado Novo”, “Enquadramento político da Guerra Colonial”, “Natureza, preparação e missão das NT e do IN”, “Orgânica e funcionamento das forças em presença nos teatros de guerra”, “A Igreja na Guerra Colonial”, “A Guerra Colonial em Angola”, “A Guerra Colonial em Moçambique”, “A Guerra Colonial na Guiné”, “Crimes de guerra: massacres e guerra química”, “Os destroços da Guerra Colonial” e Stress de guerra”.

OLivroDaTerceiraClasse 1958
Na Ditadura, a Censura cortava os mortos no Ultramar, como cortava os mortos nas cheias. Em Democracia, as diferentes censuras entendem que os «acontecimentos de África» não têm interesse – porque são aborrecidos, não criam audiências e, assim, não promovem negócio.

O corpo docente, coordenado por Jorge Ribeiro, foi constituído por: Coronel David Martelo, Professor universitário Manuel Loff, Padre Mário Oliveira, Coronel Alves Serra, Abel Fortuna, presidente da ADFA, Psicóloga Ana Conde, e Major-General Lemos Pires. A última aula, já na semana do 25 de Abril desse ano (1999), foi dada no Museu da Guerra Colonial, em Famalicão. O corpo discente foi ainda convidado para assistir à apresentação da primeira edição do livro «Marcas da Guerra Colonial», da Editora Campo das Letras.

Durante quarenta anos, esta iniciativa no âmbito académico foi a única que se registou em Portugal promovendo o conhecimento e o estudo do acontecimento político e militar mais importante da História de Portugal do século XX. O progressivo alheamento de uma das suas páginas mais caras é uma evidência, para o que contribuíram, por omissão, os livros e os compêndios do Ensino ao longo de décadas, transformando a Guerra que Portugal executou em África numa “coisa” distante, quase um fait-divers que, ao cabo de 13 anos de sofrimento, afetava todas as famílias.

No ano letivo 2015 / 2016, a UPP aceitou a proposta de repetir a iniciativa sobre o tema, programando-a para o horário regular da Escola com 36 aulas de 90 minutos. Cada módulo ficava a cargo de um convidado cujo conteúdo era acertado com a direção do curso. Os preletores, na sua maioria, são especializados nas áreas que construíram o fenómeno histórico, permitindo-se facilmente o debate.

Participaram no segundo curso sobre a Guerra Colonial na UPP (por ordem alfabética): Abel Fortuna, Presidente da ADFA – Porto, Antigo Combatente. Anquises Carvalho, Diretor Museu da Guerra Colonial, Antigo Combatente. António Graça, Médico na Guerra, Antigo Combatente. António Marques Lopes, Coronel de Infantaria, Antigo Combatente. César Príncipe, Jornalista e Escritor. David Martelo, Coronel de Infantaria, ex-Chefe do Estado-Maior RMN, Antigo Combatente. Graciete Cruz, Psicóloga, especialista em Stress de Guerra. João Paulo Dupont, Arquiteto, Antigo Colono de África. Joaquim Barbosa, Professor da FLUP, Antigo Combatente. José Eduardo Mendonça, Diretor do Curso de Cinema na UPP, Antigo Combatente. José Manuel Duarte, Antigo Combatente e Antigo Prisioneiro de Guerra. Julião Soares Sousa, primeiro Guineense Doutorado, Investigador do CEIS20-Coimbra. Bernardo Leite Rodrigues, Capitão de Cavalaria, Antigo Combatente. Maciel Santos, Catedrático na FLUP, Presidente do Conselho Científico do CEAUP. Manuel Tavares, Antigo Combatente como Fuzileiro, participante da Invasão de Conakry. Mário Oliveira, Padre da Igreja Católica, Antigo Combatente. Nuno Fidalgo Oliveira, Capitão-de-Mar-e-Guerra, especialista em Armamento e Balística – e Jorge Ribeiro, Professor, Investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, Antigo Combatente.

Na introdução ao primeiro curso (1999) escreveu-se:

Vinte e cinco anos depois, as feridas da Guerra – que o colonialismo português produziu em África – aí estão, abertas e a rever. Continuar a esquecer não parece ser a solução: os mortos estão “vivos” e os mutilados à vista, incómodos, para lembrar. Este curso sobre a Guerra Colonial é um contributo para a consciencialização de um problema que andamos a arrastar há demasiado tempo.

Da apresentação do segundo curso (2015 / 2016) ressalta o seguinte excerto:

Da expulsão do governador do Enclave de Ajudá ao massacre de Inhaminga vão catorze anos de conflitos coloniais que atiraram com os portugueses para onde tinham partido há 500 anos. As guerras para tentar manter a posse dos territórios ultramarinos custaram uma tragédia de dimensão incomportável para Portugal – um país pequeno, pobre, analfabeto, subjugado por uma Ditadura que imolou milhares e milhares dos seus filhos. Vamos aprender o que nenhum compêndio diz hoje aos jovens, reviver o que aconteceu aos sobreviventes e às suas mulheres que sofreram com as mesmas doenças.


(*) As universidades populares (UP) nascem na sequência do 1º Congresso Nacional do Livre-Pensamento, em 1908. Após a implantação da República, a ideia de criar estas universidades aproveitou um impulso dado pela Maçonaria enquanto não se percebeu o seu interesse: incentivar o combate ao clericalismo. Em 1912 nascem as UP de Coimbra e do Porto, três anos mais tarde a de Setúbal, e em 1919 a de Lisboa. Jaime Cortesão está na base deste movimento que regista grandes adesões. A do Porto foi fundada por Leonardo Coimbra, professor que viria a criar, na mesma cidade, a Faculdade de Letras. Vila Real e Póvoa de Varzim também abriram universidades populares. Mas o Fascismo silenciou as UP. Já depois do 25 de Abril de 1974, um grupo de académicos – de que faziam parte Óscar Lopes e Rui Luís Gomes – reabriu no Porto o projeto (1979) em homenagem a Bento de Jesus Caraça. E a UPP arrancou com três «cursos livres»: “Economia”, por Armando de Castro, “Direito”, por “Vital Moreira”, e “Jornalismo”, por Jorge Ribeiro. Hoje, a UPP – upp.pt – disponibiliza duas dezenas de cursos, entre os quais línguas, história, literatura, informática a expressões artísticas.

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