O silêncio da guerra

Peça de teatro de Alfredo Brito baseada no livro Marcas da Guerra Colonial (Campo das Letras, 1999)

Um ex-combatente da Guerra Colonial que se suicida, não morre como um herói. Os seus descendentes ficam sem direito a uma pensão de sangue. É a história ficcionada de uma realidade complexa, com milhares de protagonistas, escondida por um silêncio institucional revoltante.

Não é uma pensão qualquer numa rua obscura de Lisboa. Não é um subsídio de desemprego, nem um apoio financeiro para montar uma firma comercial. É uma realidade tão trágica quanto complexa, uma realidade que atravessa décadas e sobre a qual tem sido feito um silêncio de morte: 900 mil combatentes, 300 mil afetados com stress pós-traumático, 30 mil deficientes físicos e nove mil mortos. É o rescaldo da Guerra Colonial, os ex-combatentes e os seus filhos, o stress pós-traumático e as pensões de sangue.

Foto - Sobre Cabora bassa, MOZ - 1972 (c)
FOTO 6 – Com esta fotografia, presto homenagem a todos os pilotos de Alouette III que me transportaram 13 vezes ao Complexo Hidroelétrico de Cabora Bassa – a barragem do Zambeze em Tete e a quarta albufeira de África – o maior empreendimento da Ditadura em todo o império.

A peça intitula-se precisamente “Pensão de Sangue” e é acompanhada de um subtítulo: “Filhos de Uma Guerra Colonial”. É uma ideia do ator Alfredo Brito e estreia-se na próxima quarta-feira, dia 7, na Fábrica da Cultura, Amadora, numa co-produção da companhia de teatro SubUrbe. Um miúdo de oito anos, após o suicídio do seu pai, um ex-combatente da guerra colonial, confronta-se com o silêncio à sua volta. Ninguém fala do pai, nem a mãe, nem os avós, ninguém, sobretudo o Estado. Nem a recordação do seu pai é um motivo de orgulho, já que ele se refugiava num mutismo angustiante. Que pai era aquele que regressou de Angola “intacto fisicamente, mas com um olhar estranho, parado e a fala cada vez mais gutural, além de uma inquietação que lhe arrasava os nervos”? O filho, após a morte do pai, começa a juntar pedaços de memória, reconstrói o “que teria sido a vida dele”. Um pai que, segundo relatos da mãe, havia partido numa viagem sem regresso, para esquecer. Um pai que “quase” não existe porque o seu próprio filho não tem direito a uma pensão de sangue: “Se ao menos tivesse uma pensão de sangue todos os meses, haveria uma prova de que o seu pai tinha existido realmente”. E quem dá uma pensão de sangue a um pai que se suicidou, portanto um ex-combatente que não morreu como herói em combate ou nem sequer ficou sem uma perna ou um braço?

Para Alfredo Brito este combatente é apenas um de “muita gente e de muito silêncio”, alguém que vive debaixo de uma das maiores hipocrisias da democracia portuguesa pós-25 de Abril – o silêncio em torno dos problemas dos ex-combatentes da Guerra Colonial -, uma pessoa em situação de stress pós-traumático, um estado clínico que só muito recentemente foi aceite pelo Governo e para o qual criou uma legislação que dá direito a uma reforma por incapacidade. A pensão de sangue é a maneira popular de chamar à pensão de preço de sangue, atribuída pelo Estado a familiares diretos de alguém que morreu ao serviço da pátria. Esta ideia de Alfredo Brito em fazer um espetáculo sobre a problemática da Guerra Colonial vem desde há algum tempo, quando trabalhou com Cristina Bizarro na peça “Kerosene” de Guy Dermul e Nedjma Hadj, no Teatro da Trindade, cujo tema anda à volta da relação de um combatente da Guerra Colonial com uma mulher de dupla nacionalidade.

Para este espetáculo, Alfredo Brito baseou-se no livro de Jorge Ribeiro, “Marcas da Guerra Colonial”, um estudo em que se fala das mulheres e dos filhos dos combatentes, com muitas estatísticas. E teve alguns encontros com o psiquiatra Afonso de Albuquerque, especialista em casos de stress pós-traumático referenciado no mesmo livro. “Para mim é antes de mais uma atitude de cidadania porque sempre me revoltou este silêncio institucional à volta da questão colonial. E quis pôr essa reflexão em teatro, ficcionando sobre esses problemas. Tudo o que conto não são monólogos sobre factos concretos, embora funcionem como um retrato de um realidade que ainda está tão próxima”, disse Alfredo Brito. Num monólogo cru, intimista, comprometido, emotivo, Alfredo Brito ocupa um espaço quase vazio onde se vêem apenas fios elétricos, um manequim, uma escada, tijolos. O seu discurso vai-se soltando, envolvendo esse espaço que se inicia e termina numa pesada escuridão. No final, a voz off do jornalista de rádio Fernando Alves faz o contraponto factual com a assumida ficção da peça, denunciando dados estatísticos duros de roer e quebrando o silêncio que “sempre serviu causas obscuras”: a maior parte dos 900 mil combatentes eram jovens, 86 por cento eram soldados rasos, os mortos ficavam em campa rasa africana para poupar dinheiro ao Estado, muitos médicos trabalhavam sem apoio…os feridos…os deficientes…as mulheres…os filhos…

Para Tiago Rodrigues, diretor artístico da SubUrbe, esta peça criada e interpretada por Alfredo Brito, identifica-se com a linha programática defendida pela companhia e atua como a aceitação de uma ideia que o grupo gostaria de ter tido.”Temos uma linha teatral que passa pela recuperação de temas quentes para o palco. Queremos reforçar o espaço do teatro enquanto arma de debate, de reflexão, de discussão de problemas incómodos. Desejamos seguir a ideia de que a mercearia está para o hipermercado como o teatro está para a televisão”, disse Tiago Rodrigues.

Rui Ferreira e Sousa – in Público, 2 de junho de 2000

Pensao de Sangue
Foto 31 – Pensão de Sangue filhos de uma guerra colonial Portugal 2000-2006

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