Marcas da Guerra Colonial

Primeiro compendio com História da Guerra Colonial
editado em Portugal após o 25 de Novembro de 1975

Reunião de estudos publicados no Jornal de Notícias – a maior tiragem e audiência dos diários portugueses nos anos 90 – entre Outubro de 1995 e setembro de 1997, a que se seguiu a sua edição em livro pela Campo das Letras. À data do seu encerramento, por insolvência (2009), encontrava-se no prelo a terceira edição de Marcas da Guerra Colonial.

Prefácio da Obra


Uma guerra difícil de apagar

Recorda-se: sobre o Ultramar NADA (30.10.1969 Coronel Simas)

Na posse do 2º Comandante da PSP de Lisboa disse-se que ele já fez três comissões de serviço no Ultramar, a primeira na eclosão da Guerra. Ora, como se sabe, não há qualquer guerra. É PROIBIDO dizer isso. Deve ter sido confusão do repórter. (12.1.1970 Coronel Saraiva)

Baixas nas Forças Armadas em Angola. CORTAR TUDO. Não há baixas nenhumas. (30.12.1971 Tenente Teixeira)

Massacre em moçambique. TOTALMENTE PROIBIDO. (3.9.1973 Coronel Roma Torres)


Foto 5 - sepulcro de soldados portugueses - MOZ, 2010 (c) ccav2415.blogspot.pt
FOTO 5 – Campas da guerra portuguesa em África, engolidas pelo capim, cruzes de ferrugem vergadas ao abandono © Notícias da Guerra

Chegamos ao fim deste Século 20 carregados de guerras. Pode dizer-se que não houve palmo de terra, da Terra, que não tivesse sentido a força das armas. Portugal colaborou numa, na Europa, e executou outra, em África.

Da primeira, ainda hoje vivemos evocações, comemoramos batalhas, exibimos respeito e orgulho diante dos inúmeros “monumentos aos mortos da I Grande Guerra” espalhados pelo país. Enquanto houve sobreviventes, lá vinham eles no dia 9 de abril mostrar as medalhas e segurar na Bandeira. Quatro gerações passadas e aí continua, por absurdo que pareça, a Liga desses combatentes.

Da Guerra Colonial escondemos tudo num ápice: as bandeiras que arreámos nas Províncias Ultramarinas, os destroços em que gastamos mais de metade do Orçamento de Estado, os arquivos dos nossos atos. Abandonamos lá os mortos, e cá os mutilados.

A vergonha foi tal que, logo em 1974, como quem deixa cair o pano e fecha o palco, a Guerra Colonial foi cautelosamente varrida da memória coletiva. Dos sucessivos manuais de História, contam-se então pelos dedos de uma só mão os que incluíram meia dúzia de linhas sobre este tremendo facto histórico, sempre no final do livro que são as últimas páginas onde os professores nunca conseguem chegar antes de acabar o ano letivo.

Nas livrarias, os lugares nas montras e nas estantes encontram-se sempre ocupados por outras obras, mais vendáveis. Na televisão e no cinema, bastas pensar nos milhões desbaratados ao longo de um quarto de século para admitir ter já sido possível realizar o nosso «Apocalypse Now».

O livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL surge neste contexto. Investigar e revelar o fenómeno, contribuindo para o seu estudo e o seu conhecimento. Aqui se reúnem alguns dos textos publicados no jornal, sob o mesmo genérico, e outros inéditos dissecando as várias facetas do conflito. É um trabalho jornalístico, datado, que aborda questões pouco discutidas, aprofunda outras com dados nunca antes revelados e recolhe um vasto leque de opiniões, de figuras importantes da nossa História recente, capazes de facilitar um juízo mais claro e correto do que foi a empresa de guerra que o colonialismo português produziu em África.

Jorge Ribeiro                                                                                               Agosto de 1997

 

 

ÍNDICE

PREFÁCIO

OS DIAS DA RAÇA NOS ANOS DA GUERRA
A Pátria a contemplar
Heróis na primeira página
Medalhas ao peito

OS ESTROPIADOS DA GUERRA
Perdemos as nossas vidas aqui dentro
Filhos de uma pátria menor
Inconsciente há 25 anos
Lar, triste lar
Depósito de deficientes
Os heróis do silêncio
Fizeram deles soldados
Um dia no “Texas”

AS DOENÇAS NA GUERRA
“Dar a cambalhota” e «Fazer máquina”
O mosquito que ultrapassava todas as barreiras
As águas e outros perigos
Agentes físicos, droga e ignorância
Os distúrbios mentais
Que doença é esta que não existe?
A família que sofre

AS TROPAS AUXILIARES
Terrorismo com orçamento de Estado
«Magnifica juventude»
As «lendas vivas» também morrem
Quatro contos por guerrilheiro vivo
Uma Simonov valia seis Kalash
Problemas resolviam-se à cinturada
Trezentos contos por Samora Machel

AS MULHERS NA GUERRA COLONIAL
E o Regime inventou o MNF
Verdadeiras «mães» e autenticas «tias»
As «Madrinhas de guerra»
As senhoras de Cruz Vermelha ao peito
Mulheres na frente de combate
Mulheres de missão e coragem
As enfermeiras paraquedistas

A IGREJA CATÓLICA E A GUERRA
O Evangelho segundo a DGS
Graças a Deus e à PIDE
Um imperativo de consciência
«Estou aqui para matar pretos»
«Fuzilavam a população e regavam-nos com gasolina»
Heróis e santos
Uma bala para o bispo
A «colonização mental»

A GUERRA QUÍMICA
Gasear todos, queimar tudo
Do desfolhante laranja aos mamões amarelos
A «solução final»

OS CRIMES DE GUERRA
Valia tudo e não acontecia nada
«Coisas terríveis»
«Actos cruéis», por Almeida Santos
«Violência em excesso», por Costa Gomes
«Sabe quem combateu que houve crimes de guerra», por Pezarat Correia
«O tribunal da História», por Alfredo Margarido
Os crimes de guerra não prescrevem
Explicar às novas gerações
A “bondade” dos portugueses
A natureza do Regime
«O horror da guerra», por Luís Reis Torgal
«O maior crime da guerra é perdê-la», por Tomás Ferreira
«Violência, guerra e ética», por Lemos Pires
E o vencedor não praticou crimes?
Assumir o passado
«A política ultramarina estava certa»
«A guerra não se faz sem violência»
«Portugueses só vitoriosos… ou mortos»
«A questão não é: tarde ou cedo para julgar», por Mário Tomé
«Uma cultura do silêncio», por Eduardo Lourenço

O «NATAL DO SOLDADO»
Festas infelizes
Ano Novo cheio de «propriedades»
O ano em que as Senhoras deram ternura

AS CANÇÕES DA GUERRA
No princípio era o hino
“Hino da Mocidade”
“Angola é Nossa”
“Ser Galucho”
“O Meu Fado”
“Trova do vento que Passa”
“Canção do desertor”
“Menina dos Olhos Tristes”
Resistir, denunciar
“Barcas Novas”
“Ronda do Soldadinho”
“Pedro Soldado”
“Aos Soldados Marinheiros”
Das armas de pontaria aos tiros no pé
“A Mãe”
“Adeus Guiné”
“Lá Longe onde o Sol castiga mais”
Cancioneiro do Niassa
“Hino do Lunho”
“Messe de oficiais de Nampula”
“Levaram teu Filho”
“Fado dos Turras”
“Pigmentação”
“Epopeia”
“Aquele Inverno”

A CAMARADAGEM
Estórias para reviver, sempre (como se fosse ontem)
Morrer de medo
Um rombo no «Império»
À margem do RDM
“Livrei-me disto!”
As novas vítimas

BIBLIOGRAFIA

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra