Velório do Império em Ajudá

Apresentação do livro “S. João Batista d’Ajudá” pelo jornalista João Paulo Guerra

|Esta sessão é também uma| Evocação de uma velha amizade e de alguns focos de interesse partilhados: a experiência da guerra colonial em Moçambique, a pesquisa sobre questões do colonialismo e da guerra colonial, o desafio de penetrar em muitos séculos de história – de Portugal e de outros países e territórios. Dos outros livros do Jorge Ribeiro destaco sempre as Marcas da Guerra Colonial, um livro que mereceu uma recomendação de leitura por parte de René Pélissier, historiador francês e uma autoridade mundial em questões de estudo e divulgação da história de África e do colonialismo. Escreveu Pélissier, sobre Marcas da Guerra Colonial, de Jorge Ribeiro: “Um livro que se aconselha aos jovens leitores para os ajudar a combater os velhos demónios portugueses.” In Análise Social, vol. XXXV (154-155), 2000, 407-427.

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FOTO 3 – Praça de Armas no Forte de Ajudá – 2001 © Notícias da Guerra

Combater os velhos demónios foi um grande lapso da democracia portuguesa: desmistificar os demónios da guerra, as questões dos massacres, os aspetos mais medonhos de uma história que em grande parte ficaria por contar se não fosse alguns autores, entre os quais está o Jorge Ribeiro, e se podem também assinalar historiadores militares, como Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, ou cronistas que usaram meios audiovisuais para fazer a crónica do sistema e da guerra, como é o da exaustiva pesquisa de Joaquim Furtado, na série A Guerra. E o próprio Jorge Ribeiro, na rádio.

Este livro do Jorge Ribeiro é um valioso documento pesquisado por um jornalista que assume a forma de uma narrativa ficcionada. Trata-se de um romance histórico, no sentido em que é uma obra romanesca construída sobre uma investigação histórica. A ficção contribui para caracterizar melhor a situação e o destino histórico do território de São João Batista de Ajudá, enclave administrado por Portugal no território do antigo Daomé, colónia francesa desde 1892, independente desde 1960, atual República do Benin.

Devo dizer que – em meu entender- que a expressão: administrado por Portugal, é demasiado pomposa para a situação do Enclave. Os navegadores portugueses conheciam e frequentavam a região desde o século XV; mas foi no final do século XVII que foi decidido construir a Fortaleza na cidade de Ouidá para proteger os embarques de escravos.

A Fortaleza foi chamada de São João Batista de Ajudá, ou simplesmente Ajudá. Os mitos da missão de civilização e da propagação da fé caíam pela base logo no batismo das intenções e dos interesses dos colonizadores. Não ficou para a História nenhuma Costa da Fé, nem nenhum Golfo da Civilização Cristã e Ocidental. A costa ocidental africana, por exemplo, foi sendo muito pragmaticamente conhecida por diferentes designações, consoante os produtos preponderantes do tráfico local: costa da malagueta, costa do grão, costa do ouro, costa do marfim, costa dos escravos.

A Fortaleza teve importância estratégica para o tráfico de escravos, enquanto este durou. O trabalho forçado, modalidade de escravatura que perdurou nas colónias sob administração portuguesa após a abolição da escravatura, não precisava de um entreposto. Mas Ajudá, sendo formalmente uma possessão portuguesa – termo que se usou, oficialmente, em determinada fase da história: possessão – nunca foi propriamente administrada pelos portugueses, no sentido de que ali foi exercida a administração.

Ajudá era um entreposto, ou um aposto ou continuado, um anexo, um apenso, da administração de São Tomé e Príncipe que, apesar do cacau, também ela própria era uma colónia de segundo grau na hierarquia e nas preocupações do império, exceto quando os santomenses se rebelaram, em Batepá. Aí, o orgulho ou o gorgulho do império despertou e reprimiu.

O romance de Jorge Ribeiro ilustra muito bem esta ausência portuguesa presente em Ajudá. Uma ausência presente, onde os criados dos funcionários portugueses falam entre si francês – a língua do colonizador do Daomé – ou em português afrancesado, praticam a cuisine française e seguem o vudu dos retornados do Brasil, isto é, dos escravos que ganharam a alforria no Novo Continente e retornaram à Mãe África: nem a língua nem a religião deixaram marcas consideráveis naquele ponto do mapa. Pode mesmo admitir-se que a língua e a cultura portuguesas teriam mais influência no Daomé que na Feitoria. E o ponto do mapa era mesmo um ponto. Ponto final: a guarnição militar da Fortaleza veio a ser substituída por dois funcionários coloniais perdidos na escala hierárquica do sistema.

O governador-capitão-intendente -residente – tinha muitos títulos para disfarçar o facto de não ter nenhum – e o respetivo secretário – ambos despachados para aquela insignificância do império na sequência de pequenos problemas disciplinares -, mais as primeiras damas e o pessoal doméstico, constituem o elenco do romance de Jorge Ribeiro.

O Secretário não é uma figura menor deste enredo. É até uma figura bem curiosa e muito bem trabalhada que, de algum modo, se contrapõe ao colonialista empedernido que é o governador – capitão – intendente – residente. Mas é uma figura-tipo de um figurino que existiu no pronto-a-vestir do colonialismo. Ele defende as posições ditas moderadas que a oposição tradicional republicana preconizara para a saída do beco colonial. Um “colonialismo honrado e progressivo”, como defendia, em 1958, o Dr. Cunha Leal, que chegou a ser candidato à Presidência apoiado pelo PCP. Aliás, o candidato que veio a arrastar consigo toda a oposição, o general Humberto Delgado, não andava, por essa altura, longe das emoções e conceitos de Cunha Leal ou de Norton de Matos quanto à «Nação Una» do Minho a Timor.

O Intendente que ocupou o cargo máximo da hierarquia portuguesa em São João Batista de Ajudá até 1 de Agosto de 1961 chamava-se António Agostinho Saraiva Borges; o do romance dá pelo nome de Bernardo Augusto Serras Correia. É este homem que, a certa altura do enredo, vai ter que tomar uma decisão. Ou aceitar uma decisão que alguém tome por ele. E cumprir ordens. Foi o que aconteceu.

Como disse, São João Batista de Ajudá – ou simplesmente Ajudá – era um ponto no mapa, quanto mais não fosse para que o aprendêssemos na escola, no rosário de glórias e grandezas do Império. E quando os ventos da história mudaram, Ajudá não mereceu qualquer atenção, cuidado ou esforço imperial. Não valia a pena: já não havia tráfico de escravos e o comércio da malagueta tinha sido revisto em baixa. Aliás, apesar do regime propagandear que defendia o chamado Ultramar por razões de princípios, de História e de razão, houve quem defendesse que a própria Guiné-Bissau não justificava o esforço de guerra – que para além de dispendioso corria muito mal do ponto de vista militar. Estava-se, no primeiro trimestre de 1974, à beira da derrota militar.

O general Kaulza de Arriaga, um cabo-de-guerra que nos últimos anos do regime aspirava comandar em simultâneo as tropas de Moçambique e Angola – um mapa cor-de-rosa sem hinterland – disse-me, numa entrevista, que a questão essencial para o regime era a de manter esses dois territórios, Angola e Moçambique. Acrescentando: Lá perder-se a Guiné, enfim… Mas não tinha grande importância.

Quando o edital do Governo do Daomé deu por extinto o prazo concedido por ultimato em 1960, para que Portugal abandonasse a Fortaleza, o Intendente não aceitou o conselho de um refugiado angolano, ancorado no Enclave…

… Fique na história senhor governador, dê um abraço aos pretos…

Posto perante a responsabilidade de decidir, o Residente resolveu o assunto da forma mais simplista, garantida que estava a impunidade e a cobertura da fuga: A história da administração portuguesa do enclave de S. João Batista de Ajudá terminou em fogo posto, um ato previsto e punido pelo Código Penal. Despejados os jerricãs… em poucos minutos o incêndio alastra a todo o palácio… o altar da igreja também é pasto das chamas (pág 188). Salazar e Thomaz estão pregados na parede…

A pesquisa do jornalista Jorge Ribeiro acrescenta em extratexto ao romance uma nota da Agência Geral do Ultramar segundo a qual os funcionários da Residência de Ajudá receberam instruções do ministro do Ultramar – que cumpriram inteiramente – procedendo à destruição, por meio de incêndio, do edifício da Fortaleza e anexos. Já na vigência da democracia, Portugal pagou o restauro do Forte, onde ficou instalado um Museu. O Jorge Ribeiro é que conhece Ajudá.

Li a pesquisa e o romance de Jorge Ribeiro e encontrei duas excelentes definições que o autor dá a uma situação e aos protagonistas desta obra e deste episódio da História: o autor designa os protagonistas por «náufragos do império»; e define todo este desfecho de um episódio colonial por «velório»: «velório por Ajudá…» Só Dona Geninha cortou o ensaio de velório por Ajudá com uma súbita chamada de atenção à governanta e cozinheira. – Assiba, como é que deixaste entrar tantas moscas cá para dentro? Pág 166

O império às moscas, num final de opereta.

A narrativa de Jorge Ribeiro – onde a ficção é sempre cotejada com a história – é uma desmontagem muito perspicaz, por vezes irónica, do melancólico fim do império em São João Batista de Ajudá: um velório. E este episódio tem um contexto: a África das independências, das guerras pela independência, das guerras coloniais, o contexto também das golpadas separatistas – como era então emergente o caso do Biafra, no qual o regime colonial iria desempenhar ativo papel, usando a placa giratória de São Tomé e, de algum modo, o apeadeiro de Ajudá.

O contexto, enfim, do estertor sangrento do colonialismo, das suas galerias de fantasmas e de horrores: Batepá, em São Tomé, Pidjiguiti na Guiné, Planalto de Mueda em Moçambique, Baixa do Cassange, em Angola… E depois Wiryamu, centenas de Wiryamus… E no entanto, por essa altura, a francesa Christine Garnier voltava a Lisboa, depois de umas romanceadas Férias com Salazar, dessa segunda vez para férias a convite do almirante Sarmento Rodrigues – a francesa era muito dada ao gozo de férias -, e escrevia: «Toda a gente sabe que a dominação portuguesa foi sempre exercida com doçura…» O que confirma que já naqueles tempos não havia férias grátis…

Condenado às chamas, ao fogo, o Império, na sua projeção no ponto do mapa que era São João Batista de Ajudá, apaga-se antes mesmo que a Fortaleza arda. Mas alguma coisa renasce das cinzas.

O enredo continua, com a geração seguinte, Leninha e Dédé – que leio sempre como um sucedâneo do Zequinha e da Lelé das comédias portuguesas. Um escrivão da Fortaleza, durante o século XIX, de nome Francisco Félix de Sousa, espalhou Sousas pela costa ocidental do continente africano e em particular pelo Benin – porque, aliás, esse era um dos desígnios da colonização portuguesa: espalhar a fé, o império e os Sousas.

E o romance do Jorge Ribeiro, demostrando que a proliferação dos Sousas também pode acontecer em sentido inverso, não termina, antes segue em próximo episódio, para além da chaise longue no Palácio de Ajuda.

Leiam e deem a ler este livro. Este livro diz-nos respeito.

Lisboa, Livraria Bulhosa,7 de Novembro de 2013

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