Não consigo evitar emoção e um nó na garganta

Intervenção pública do Professor Joaquim Barbosa (FLUP) sobre INHAMINGA

Jorge Ribeiro já nos habituou aos seus textos sobre a Guerra Colonial, contra a tentativa do seu branqueamento: em reportagens, em artigos, em livros, ou na rádio. Pessoalmente, já tive prazer de apresentar outro livro sobre o colonialismo português, sobre o forte de S. João Batista de Ajudá, em que o autor faz uma incursão no domínio da ficção, para mostrar a nudez crua da verdade, sob o manto diáfano da fantasia – como diria Eça de Queiroz em “A Relíquia” do que foi o nosso colonialismo.

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Tratando um episódio ignorado pela maior parte dos portugueses, Inhaminga – O Último Massacre é mais um contributo do autor para que a Guerra Colonial não fique esquecida, como aconteceu ao alferes miliciano Manuel Guilherme a quem o livro é dedicado: ferido em combate em 1971, esteve em coma durante 28 anos num hospital militar esquecido e ignorado por sucessivos governos.

O que temos neste livro é a narrativa do massacre — e não passemos à pressa por cima da palavra massacre –, conhecido como de Inhaminga, no centro de Moçambique, nas faldas do Parque Natural da Gorongosa, nos últimos meses do fascismo português, em que participaram tropas regulares, tropas especiais (comandos e paraquedistas), mercenários, PIDE, PSP, colonos brancos, força aérea rodesiana e empresas privadas, e em que pereceram e foram sepultados — sepultados não, enterrados — em valas comuns um número incalculável de habitantes de Inhaminga e arredores.

O que temos neste livro é o relato do maior dos massacres da história colonial, como dirá — na página 125 –, o Padre José de Sousa, Superior dos Jesuítas, que trabalhou na Beira com D. Manuel Vieira Pinto

No preâmbulo, o autor faz, como é das normas, uma introdução aos factos que vão ser relatados introduzindo os atores e as ideias-chave que vão estar em jogo nos acontecimentos dos últimos dias do colonialismo português; ideias e atores a que voltará depois do relato da tragédia, para os caracterizar com mais pormenores: o colonialismo e o racismo portugueses; as riquezas naturais; a avidez capitalista; o instinto de sobrevivência; o isto é nosso!; a autodefesa; a subversão e o seu esmagamento; o controlar e conquistar a população; o aldear; o descontrolo absoluto.

A Notícia do massacre começa, como diriam os clássicos quase in medias res, quase no meio do calendário da agonia, quando a 9 de fevereiro de 74 o administrador da Fabrica de Cimento de Nova Maceira, que pertencia a António Champalimaud, acompanhado por um agente da PIDE, por um madeireiro local, pelo subchefe da Organização de Defesa Civil de Moçambique e por um militar, visitavam a pedreira de calcário que servia a fábrica de cimento e eram informados de que, cito, “Este sistema de limpeza já vigora há uns meses e é o mas eficaz para acabar com a guerra. As valas, lá atrás, já têm à volta de uns três mil turras”.

Numa analepse, o autor volta a meados de 1973 para dar notícia do agravamento da situação militar provocada pela abertura da frente de guerrilha de Manica e Sofala pela FRELIMO. Ficámos a saber que apesar da tentativa de reorganização das nossas tropas, do apoio da força aérea rodesiana — que despejou toneladas de napalm sobre a região –, e do trabalho da PIDE — que inaugurou as novas instalações em Inhaminga com a detenção do padre Josep Martens, Superior da Missão Católica -, no fim do ano, a guerrilha atingia a Beira, os comboios da Trans-Zambézia tinham sido praticamente parados pela guerrilha e os colonos brancos entravam em descontrolo clamando mais tropas.

A narrativa dos acontecimentos a partir de 1 de Janeiro de 1974, até ao 25 de Abril, a que o autor chama O Calendário da Agonia, é feita quase na forma de um diário, e mostra-nos algo de impensável. Num relato seco, quase livre de adjetivos e de advérbios, como que um relatório militar, Jorge Ribeiro descreve, quase dia a dia, o processo que consistia em Matar todos, destruir tudo!.

Recorrendo a textos oficiais, incluindo relatórios de operações militares, e outros testemunhos pessoais, são descritas as perseguições; as torturas e execuções; os incêndios de palhotas; o movimento dos camiões da morte e das bulldozers militares a abrir valas para enterrar milhares de nativos; as operações militares das tropas regulares, dos comandos, dos paraquedistas, da PIDE, da Defesa Civil; da força aérea, portuguesa e rodesiana; das milícias; dos Grupos Especiais; as ações dos colonos brancos — a mostrar à tropa como é que se fazia a limpeza! — as manifestações dos bons católicos; a detenção de padres da missão católica e as reclamações de membros da diocese.

No último registo desse calendário da agonia, referente ao dia 25 de Abril de 1974, somos informados de que dos cerca de 45 mil habitantes africanos de Inhaminga, 35 mil estavam em fuga ou tinham sido assassinados.

Nos capítulos seguintes, o autor faz a apresentação pormenorizada do que esteve em jogo em Inhaminga, começando pela riqueza dos recursos naturais; e pela incapacidade de a Administração Central conseguir gerir e administrar o território e pela consequente concessão, ainda no século XIX, da exploração das riquezas a empresas majestáticas, que ficavam não só com a capacidade de explorar ou subconcessionar a exploração das riquezas, mas também, inclusivamente, da recolha de impostos, dos correios, e até da emissão de moeda. Este modelo de administração colonial foi, de resto, seguido por ouras potências coloniais. Interessante, para o caso de Inhaminga, será comparar o edital de 1909 da Companhia de Moçambique, fundada nos fins do século XIX, transcrito na página 40, com o discurso de Samora Machel ao anunciar a abertura da frente de Manica e Sofala nas comemorações do 11º aniversário da FRELIMO, em Junho de 73, transcrito na página 73/74.

A importância estratégica da região, referida por Samora Machel, merece um capítulo deste livro, O enquadramento da guerra, onde é vista a política colonial portuguesa e o papel da NATO e dos Estados Unidos da América no contexto da Guerra Fria, no esforço para manter a África Austral fora da esfera do comunismo. Em capítulo próprio, o autor faz o enquadramento dos acontecimentos de Inhaminga, e dos campos de concentração, à luz dos Direitos Humanos e do Direito Internacional.

A polícia política, A PIDE, com os vários nomes que foi tendo ao longo do tempo, responsável pelos campos de concentração — às vezes chamados presídios –, do Tarrafal à Machava, e um dos executores do massacre de Inhaminga, merece um capítulo próprio, O anjo da guarda das Forças Armadas, que precede a descrição e a história de todas as forças envolvidas na chacina de 1974 em Inhaminga, como muitos documentos oficiais de testemunhos pessoais.

Outro tema explorado e estudado neste livro é o das relações da Igreja Católica, ou das estruturas oficias, com o fascismo e o colonialismo portugueses. Jorge Ribeiro mostra como, no terreno, os missionários católicos, e de outras religiões, quando Salazar resolveu diversificar, não é compatível com a ideia que muitos ainda mantemos de um apoio cego da Igreja, personalizado no Cardeal Cerejeira. Não sei se é caso para lembrarmos a distinção entre a Igreja de Pedro e a Igreja de Constantino, mas se é verdade que houve padres e dignitários da Igreja Católica que, mesmo em Moçambique, se recusaram a ter olhos para ver, também é verdade que muitos padres, e outros dignitários, não tiveram medo e foram perseguidos.

Jorge Ribeiro dá-nos uma lista extensa de padres Presos pela Ditadura e esquecidos pela Igreja; durante a narrativa é, de resto, referida a perseguição da PIDE e sua ânsia pelas listas dos padres.

O livro inclui um capítulo dedicado aos inquéritos e aos responsáveis pelos crimes do colonialismo português, onde nos é apresentado o pensamento estratégico de alguns dos responsáveis militares do colonialismo.

Outro capítulo — Trocar África pelo Vietname — é dedicado à comparação entre as duas guerras com testemunhos de portugueses que preferiram ir para o Vietname, alistando-se nas tropas americanas.

Para terminar: Inhaminga — o Último Massacre não é um livro de História. Nem Jorge Ribeiro pretende que seja. Nele não vamos encontrar as características dos manuais, ou sequer dos ensaios de História, com referências bibliográficas e citações convenientemente datadas e localizadas e com uma bibliografia arrumadinha conforme as normas mais ou menos recomendadas pelas instituições académicas.

O que encontramos neste livro de 172 páginas, publicado pelas Edições Afrontamento, é um relato de acontecimentos históricos muito próximo de uma reportagem em que, no meu entender, a preocupação da objetividade domina. São disso indicadores as seis páginas de Fontes e bibliografia que incluem consultas a arquivos, em Portugal e Moçambique, monografias, publicações periódicas, documentos militares, reportagens, entrevistas, etc., com imensas transcrições de documentos originais, para além da experiência pessoal do autor como jornalista durante e depois do serviço militar.

Não sei se a preocupação com a objetividade impediu que a emoção se manifestasse, como, penso, devia — sobretudo no relato do Calendário da Agonia –, ou se foi usada como defesa contra a emoção; se calhar, sem o autor se dar conta disso. Mas apesar da “secura” do discurso, ou talvez por isso, não consegui evitar que a emoção e um nó na garganta me apertasse a alma e abrisse as gavetas das minhas memórias, deixando sair algumas recordações e emoções que, como todos os que fomos soldados e combatentes, muitas vezes teimamos em não deixar sair. Por isso dizemos que uma guerra só acaba verdadeiramente quando morre o último dos seus combatentes.

Na vida de todos, penso, há imagens, sons, cheiros, sensações que nos marcaram e que pelas mais diversas razões se tornaram parte de nós. Por exemplo, eu não consigo evitar a emoção ao ouvir a Marselhesa no filme Casablanca, sobrepondo-se ao cântico dos oficiais nazis. O horror da descrição das execuções de Inhaminga fez-me recordar outra situação que me marcou: as imagens do massacre do Cemitério de Santa Cruz, Dili, em 1991. Em algumas dessas imagens ouve-se claramente, como pano de fundo daquele caos, a população a rezar a Avé Maria em português, por baixo do som das sirenes e das metralhadoras.

Ao ler o relato das execuções de Inhaminga, apesar da secura do discurso do Jorge Ribeiro, dei comigo a ouvir os executados a rezar, como os mártires de Santa Cruz, a Avé Maria que lhes foi ensinada, em português, pelos padres da Missão Católica, talvez pelo padre José, como chamavam ao padre Josep Martens, Superior da Missão. Só que, em Inhaminga, a língua que disparava as G3, que conduzia os camiões de indígenas para a morte, ou manobrava as buldózeres que abriam as valas, e arrastavam cabeças, era também a minha língua, a língua de onde se vê o mar, no dizer de Vergílio Ferreira, também em 1991.

Porto, Livraria da UNICEPE, 30 de novembro de 2015

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