Inhaminga e calar

Portugueses dissimulam traumas da guerra com ignorância induzida

O livro «INHAMINGA – O último massacre» (Edições Afrontamento) completa em breve dois anos de edição. Para o seu lançamento realizaram-se várias sessões de apresentação. Na primeira, muito me sensibilizaram reações de quem já o tinha lido e se deslocou à Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto para dizer que a publicação de Inhaminga constituía um «acontecimento histórico». Luís Alberto Ferreira, o Grande Repórter da Descolonização Portuguesa, escreveu depois que «ninguém saberá agradecer este enorme serviço à Humanidade consubstanciado em “Inhaminga – O Último Massacre” (…) obra extraordinária. É mesmo uma obra excecional».

foto1 - Inhaminga MZ - 2014 (c) noticiasdaguerra
FOTO 1 – Inhaminga – MOZ 2014 – Notícias da Guerra

Na intervenção do autor, da praxe, e centrada no estranho fenómeno «nunca ouvi falar disso…», eu comecei por dizer que «os contemporâneos deste período ouviram falar disto, sim. Os que participaram ou assistiram é que se recusam falar. Ao fim de 40 anos, o que é estranho é que a boa e já volumosa literatura sobre a guerra nunca tenha abordado este tema, elencando – quando muito – o nome de Inhaminga nas politicamente corretas listas de massacres». E ponto.

Ao Massacre de InhamingaI, apesar da sua gravidade, aconteceu o mesmo que a outros crimes de guerra. Com o fim da Ditadura, o grito de alívio e alegria Acabou a guerra!, transversal a toda a sociedade, escondeu alguns responsáveis e deixou fugir outros. Para o registo histórico foi um desastre. Para os investigadores, o processo heurístico neste caso abriu falência.

Mas eu mantive no topo da minha agenda Inhaminga. Quando voltei a localizar os principais atores da história, nessa altura nasceu este livro.

A estrutura que lhe dei está minada pela técnica jornalística: à tese académica peguei pelo fim e coloquei-o a abrir o livro. A sua essência é a notícia do massacre, onde a página 17 pode cumprir as funções de lead. O enquadramento do facto, o contexto em que se desenrola, guardando uma opinião pessoal par um pequeno posfácio com que a obra encerra – tudo isto pode ajudar o leitor a entender o acontecimento com que no plano militar a Guerra Colonial chegou ao fim em Moçambique.

Em março de 1974, os missionários são expulsos. Os generais Luz Cunha e Kaulza de Arriaga entregam o seu plano «Fim à subversão comunista do Exército». Demitem-se os generais Costa Gomes e António de Spínola. O Comité de Descolonização da ONU impõe, por unanimidade, o cessar-fogo nas colónias portuguesas. E a Igreja declara que não está contra a autonomia ou independência das Colónias.

Em Abril, no terreno – nesta área geográfica da guerra – a guerrilha avança com um plano capturando as aldeias de Sena, ocupa as instalações da Polícia em Vila Pery, agentes da PSP são mortos em Manica, a estrada para Mavonde é cortada, o comboio para Rodésia atacado com rockets, três aviões da Rodésia são abatidos em Tete e, talvez o mais alarmante, na estrada que liga a Beira à capital Lourenço Marques os camiões de transporte começam a ser atacados e os seus motoristas mortos. O Dondo encontra-se paralisado com a greve dos trabalhadores da cimenteira. E agora?

Termino, recordando algumas frases que Eduardo Lourenço escreveu para outro livro meu (*): «A antiga Grécia ou a Inglaterra elizabetiana incorporaram os seus horrores transfigurando-os graças aos sófocles e aos shakespeares. Como os Estados Unidos do Vietname, pelo olhar de Coppola. Nós nunca tivemos nenhum Shakespeare nem nenhum Coppola. Tragédias (Alfarrobeira, D. João II, Alcácer Quibir) ou minitragédias foram silenciadas ou incorporadas com duas ou três alusões épico-líricas. Por isso nada tem de singular ou escandaloso que tragédias nem sequer vividas como familiares, tal a de Viriamu, e logo ocultadas na sua versão oficial ficassem (e continuarão a ficar) como acidentes lamentáveis que em nada comparam a imagem beata que os portugueses têm de si mesmos e do seu destino exemplar».

Este livro, sobre Inhaminga, pode ser um grito.                                        JORGE RIBEIRO

(*) Marcas da Guerra Colonial / Edição Campo das Letras, 1999 ( p.220 )

© Conteúdos podem ser citados desde que referida a fonte: Notícias da Guerra